Resenha: Contraponto

Livro: Contraponto
Autor(a): Aldous Huxley
Editora:
 Globo
Páginas: 698

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

“Os homens vivem como idiotas, como maquinas, todo o tempo, tanto nas horas de trabalho como nas horas de folga. Como idiotas e como maquinas, mas imaginando que vivem como seres humanos civilizados, mesmo como deuses”

Contraponto é uma obra no mínimo interessante e, eu diria até que, exótica. Huxley faz uma sátira sobre a desumanização do século XX onde tudo se resume a correria do dia a dia que transforma as pessoas em máquinas. Tudo é mecânico, nada é espontâneo. O autor combina diversas histórias simultaneamente, apresentando o relacionamento entre casais que se gostam, mas não se comunicam devido a esta vida febril e movimentada, tornando-se dessa forma solitários.

Chamei de exótica esta obra pois não foi escrita de forma tradicional. Huxley buscou escrever com base na analogia do contraponto musical. Segundo Sergio Augusto de Andrade, autor do prefácio, “comparáveis a trechos de certas sinfonias, as situações se repetem e se desdobram em diagramas quase simétricos”.

Fugindo também do romance tradicional, não tem felizes para sempre. Com a correria do dia a dia, as personagens de Huxley se descobrem isolados um dos outros e acabam solitários, isolados de si mesmos. De qualquer forma, é uma obra brilhante e que vale a pena ser lida!

Amor, apenas.

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Homem chora abraçado a seu cão que faleceu por inalação de fumaça. Os bombeiros tentaram salvá-lo, mas já era tarde demais. Só quem tem um filho de patas é que entende essa dor. Que Deus conforte o coração desse pai.

E nesse mundo tão cheio de ódio, guerra e intolerância, eu não consigo deixar de pensar nessas pessoas que perdem seu tempo julgando os tipos de amor, se sentindo mais gente por sentir o “jeito certo”. Amor é amor. Se houvesse mais amor de qualquer tipo no mundo e as pessoas parassem de julgar qual deles é certo e errado, talvez houvesse menos guerra, menos ódio e mais tolerância. Mais amor, por favor ❤️

“Ensaia um sorriso 
e oferece-o a quem não teve nenhum. 
Agarra um raio de sol 
e desprende-o onde houver noite. 
Descobre uma nascente 
e nela limpa quem vive na lama. 
Toma uma lágrima 
e pousa-a em quem nunca chorou. 
Ganha coragem 
e dá-a a quem não sabe lutar. 
Inventa a vida 
e conta-a a quem nada compreende. 
Enche-te de esperança 
e vive á sua luz. 
Enriquece-te de bondade 
e oferece-a a quem não sabe dar. 
Vive com amor 
e fá-lo conhecer ao Mundo”.

. Mahatma Gandhi in À Descoberta do Amor .

 

Eu sei, mas não devia…

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que,  gasta de tanto se acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti in Eu Sei, mas Não Devia
Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1996, pág. 09

Empatia, o sentimento que pode mudar a sociedade

Roubartilhei daqui:
“A empatia é a força mais poderosamente perturbadora do mundo, só fica atrás do amor.”

A frase é da professora canadense Anita Nowak, que pesquisa esse sentimento. Sem empatia, sobra intolerância, bullying, violência. Sem gastar um segundo imaginando como o outro se sente, de onde vem, em qual contexto foi criado, ao que foi exposto, sem se lembrar que cada um tem sua história e sem tentar entender como é estar na pele do outro, surgem os crimes de ódio, as discussões acaloradas nas redes sociais, o fim de amizades de uma vida toda.

É preciso ter empatia para aprender que não existe verdade absoluta, que tudo depende do ponto de vista. Segundo uma pesquisa da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, o Brasil não é dos países mais empáticos do mundo. Sim, somos conhecidos pela alegria e pela hospitalidade, mas quando falamos em se colocar no lugar do outro e tentar entender o que ele sente, ainda estamos muito longe do ideal. O estudo analisou respostas de um questionário aplicado em 61 países, com 104 mil pessoas, que tentava medir compaixão e empatia em situações hipotéticas. O Brasil ficou em 51º na lista, atrás de países como o Equador, Arábia Saudita, Peru, Dinamarca e Emirados Árabes, por exemplo. Mas o problema do egocentrismo e da falta de amor ao próximo não é exclusivo dos brasileiros. É uma preocupação mundial.

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Resenha: O Chá de Bebê de Becky Bloom

Livro: O Chá de Bebê de Becky Bloom
Autor(a): Sophie Kinsela
Editora:
 Record
Páginas: 514

Nota: 3
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Será possível existir alguém no mundo como a Becky Bloom? Pior é que deve existir! E olha que eu me acho consumista (principalmente com livros), mas igual a Becky jamais!

Este livro apesar de ser o último da consumista, foi o primeiro que li. Becky descobre que está grávida e fica muito feliz, apesar de estar um pouco chateada porque Luke não quer saber o sexo da criança e como é que ela vai comprar tudo pro bebê sem saber se é menino ou menina? Aí começam as acrobacias mirabolantes de Becky.

Como que se pode imaginar que até pra comprar roupinhas de bebê e itens para o quarto da criança é possível arranjar as maiores confusões? Becky consegue, é claro, e consegue também se desvenciliar de todas elas. Mais divertido ainda é quando ela descobre que tem uma obstetra ultra badalada na cidade que cuida das mamães mais famosas e chiquérrimas e vai fazer de tudo e mais um pouco pra conseguir ser sua paciente.

É de chorar de rir. Um chick-lit gostoso de ler e apesar de não ser o meu favorito da Becky (gosto dos dois primeiros livros, são fantásticos!), vale a pena pra completar a leitura da coleção.

Resenha: Não me Abandone Jamais

Livro: Não Me Abandone Jamais
Autor(a): Kazuo Ishiguro
Editora:
 Companhia das Letras
Páginas: 344

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Quando a vi dançando aquele dia, enxerguei uma outra coisa. Enxerguei um novo mundo chegando muito rápido. Mais científico, mais eficiente, é verdade. Mais cura para as velhas doenças. Muito bem. Mas um mundo duro, um mundo cruel. E vi uma menina novinha, de olhos bem fechados segurando no colo o mundo antigo e bom de antes, o mundo que ela sabia, lá no fundo, que não poderia continuar existindo, e ela segurando esse mundo no colo e pedindo pra ele não deixa-la partir… Aquela cena me partiu o coração. Nunca mais esqueci”. 

Eu vi o filme primeiro. Em 2010. Assim que foi lançado. Lembro de ter ficado olhando pra parede uns bons minutos depois que o filme acabou sem saber o que fazer. Sem saber como é que se vive depois daquilo, de verdade. Uma cena, específica do filme, e juro que não é spoiler, pode ler: estrada vazia, faróis ligados, Tommy desce do carro vai até a frente dos faróis e começa a berrar e berrar até que cai no chão e Kathy desce do carro e o abraça. Foi aí, nesse ponto que eu perdi minha alma. Eu sei que está parecendo dramático, mas é. É mesmo. O assunto é sério, é dramático, é atual e distópico ao mesmo tempo. Ele traz a tona muitos questionamentos e reflexões. E medos. O filme abriu um buraco que eu tinha que preencher com a leitura do livro que ainda não tinha no Brasil. Mas eu PRECISAVA DELE.

Quando finalmente consegui ler, me apaixonei ainda mais pelo tema e pela história. Se eu já tinha gostado do filme, o livro era (que surpresa, né gente? rs) ainda melhor.  A escrita de Kazuo é delicada e começa tão branda, tão tranquila como um diário de memórias de Kathy H.  e você vai se apaixonando por ela, pela forma como ela vai se lembrando dos dias no instituto, da amizade, de Tommy, das relações, dos professores, das sensações. É como uma amiga que você faz ao longo da leitura, que te dá a mão e vai te levando por um passeio tranquilo e você vai se deixando levar. Aparecem algumas palavras como doador, cuidadora e você fica se perguntando o que seria exatamente essas coisas, mas a verdade chega de mansinho e acho que é isso que impacta ainda mais. Você não tá preparado pra verdade quando ela chega. E é um soco no estômago, como diria tão bem Clarice Lispector (sobre outro assunto, mas cabe bem aqui). Continuar lendo

MAY THE 4TH BE WITH YOU!

“O medo é o caminho para o lado negro. O medo leva a raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento”. 

. Mestre Yoda .