Resenha: Francisco

Livro: Francisco
Autor: Guilherme Samora
Editora:
Globo Livros
Páginas: 160
Nota: 4
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Eu não sou católica, mas tenho um carinho muito especial por São Francisco por ser o protetor dos animais. Quem me conhece bem sabe que defendo muito a causa animal, estou no caminho de parar totalmente de comer carne (já estou à dois anos comendo apenas peixe e de vez em quando) e sou dessas que se pudesse, sairia pegando todos os animais de rua e colocando pra dentro de casa!!

Enfim, descobri o livro do Guilherme Samora, porque sigo a Luisa Mell (e sou muito fã) e vi que ela foi ao lançamento do livro dele. Imediatamente fiz a compra na internet, pois sempre quis saber um pouco mais sobre a história de São Francisco. A leitura desse livro foi muito gostosa e uma grata surpresa, pois soube de coisas que sequer imaginava sobre a vida dele. Sabia, como a maioria, que ele tinha vindo de uma família rica e deixado tudo isso pra trás pra seguir uma vida de simplicidade, pobreza e amor. Mas não fazia a menor ideia de como ele era antes de tomar essa decisão, e o quão difícil foi seguir esse caminho no começo. A reação do pai, as coisas que ele fez pra tentar manter Francisco longe das ruas e de sua vocação, como ele era tratado na rua por algumas pessoas, sendo visto como louco e até mesmo ladrão, enfim… Foram muitas dificuldades e ele encontrou consolo na fé e na certeza do caminho a seguir.

Como disse, o livro foi uma grata surpresa, pois conheci muitos outros aspectos da vida de São Francisco que não imaginava, além do seu amor pelos animais. Há belíssimas e fantásticas histórias sobre isso, mas não é o foco único do livro que traz muitas informações interessantes sobre seu caminho, as pessoas que o acompanharam, seus principais momentos de vida, descobertas científicas a respeito de milagres e suas relíquias e ainda nos presenteia com textos da autoria de São Francisco e fotos dos locais importantes para sua jornada.

A leitura é super fluída e dá pra perceber nas palavras do autor, a admiração e o amor que ele também sente por São Francisco, além de muita atenção e pesquisa aos fatos históricos. E termino minha resenha com esse trecho/ensinamento do livro:

“Francisco, que já pregava que ninguém deveria se preocupar com o amanhã, deixa outra valiosa – e muitas vezes esquecida – lição para os dias de hoje: tentar ao máximo viver com leveza e boa energia”.

Recomendo a leitura!

Monstro Brutal

“Importunava-a, contudo, ter vivo dentro dela esse monstro brutal, ouvir os gravetos se partindo ao meio e sentir os cascos plantados nas profundezas daquela floresta abarrotada de folhas, a alma; jamais se sentia de todo contente, ou de todo segura, pois a qualquer momento a besta se agitaria, esse ódio que, sobretudo desde a doença, tinha o poder de fazê-la se sentir esfolada, ferida na espinha dorsal; iflingia nela uma dor física, e o prazer que sentia na beleza, na amizade, em estar bem, em ser amada e manter um lar adorável oscilava, estremecia e vergava como se de fato houvesse um monstro a=cavoucando as raízes, como se toda a panóplia de contentamento não passasse de amor próprio! esse ódio”

. Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway .

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: O Submarino do Juquinha & Natal Eterno – Cadu Lima

Hoje conheceremos melhor o autor Cadu Lima da cidade de Sumaré e seus dois primeiros livros lançados! Carlos Eduardo de Lima dos Santos é casado com Graziela e nascido em São Caetano do Sul – SP, mas já vive em Sumaré há 15 anos. Formado em Ciências Contábeis pela Faculdade Anhanguera, também concluiu o curso de Formação Pedagógica em Matematica pela Universidade Cruzeiro do Sul.  Atualmente estuda Licenciatura em Letras Português/Inglês também pela Universidade Cruzeiro do Sul e é professor de matemática, ciências, tecnologia e eletivas do 6º ano do Ensino Fundamental ao Ensino Médio na rede pública desde 2018.  Cadu Lima também  já participou de mais de 50 antologias de contos e poesias pelo Brasil afora, sendo que seu primeiro livro solo, o livro infantil “Natal Eterno”, foi publicado em 2019 pela Editora Arkanus, de São Paulo. O segundo foi publicado em 2020 e se intitula “O Submarino do Juquinha”, pela Editora Expressividade, de Florianópolis. Cadu Lima também foi nomeado presidente  da Associação Amigos da Biblioteca de Sumaré.

Vem comigo conhecer um pouco mais desse autor da nossa região nessa entrevista:

Como a literatura entrou em sua vida?
CADU LIMA: A Literatura em minha vida deu início ainda quando estava no ensino fundamental, mais ou menos na 2ª ou 3ª série, quando por incentivo da minha mãe ganhei uma coleção de livros infantis. Mais tarde, professoras muito queridas, principalmente Maria Aparecida Adomaitis de Araújo e Nair Branti, me incentivaram a escrever quando elogiavam as minhas redações e aquilo me animou a continuar escrevendo.

Como é sua rotina para escrever? Você tem alguma rotina para escrever, alguma disciplina, um horário determinado ou escreve quando surge oportunidade?
CADU LIMA: Não tenho uma rotina, quando surge uma oportunidade eu escrevo.

Quanto tempo demora para concluir um livro?
CADU LIMA: Uma historia curta e infantil como Natal Eterno e O Submarino do Juquinha no mesmo dia fica pronta, dependendo da inspiração e as vezes vou ajustando, mudando uma coisa aqui e outra ali depois de pronta. Não escrevi nenhum romance longo ainda, mas pretendo. Nesse momento estou juntando algumas poesias já escritas para uma coletânea. Para selecionar os poemas pode ser um ou dois dias, analisando erros e outras coisas.

As histórias “se escrevem” sozinhas ou você pensa na trama inteira?
CADU LIMA: Às vezes penso na trama inteira, já em outras oportunidades a história parece que “se escreve sozinha”.

De onde vem a inspiração?
CADU LIMA: A inspiração vem do cotidiano e de outros livros às vezes.

Quais são seus livros e autores/autoras favoritos?
CADU LIMA: Meus livros favoritos são: Bíblia, Crônicas de Nárnia de C.S. Lewis, a saga Harry Potter de J.K. Rowling, livros do Tolkien, Júlio Verne, Agatha Christie, gosto de autores clássicos nacionais como Machado de Assis, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato, Braulio Bessa e também gosto dos universos DC e Marvel, Maurício de Souza, Ziraldo, entre muitos outros!

Tem planos para livros futuros?
CADU LIMA: Sim, inclusive de poesias e contos, além de outros infantis e uma história em quadrinhos e livros feitos em parcerias com outros autores.

Conhecemos um pouco mais dessa autor regional, e agora vamos conhecer suas duas obras já lançadas:

O Natal passou, mas o livro “Natal Eterno”, de Cadu Lima, é para ser lido o ano inteiro. Uma bela mensagem natalina que pode emocionar crianças, jovens e adultos. O livro nos proporciona uma viagem para um mundo fantástico onde estarão presentes elementos inspirados no Natal cristão e no Natal comercial. A mensagem do livro, como o título sugere pode ser lido o ano inteiro, não apenas no Natal. Alvinho se depara com um dilema, bem próximo da chegada do Natal: onde estaria seu pai? De repente, uma luz surge em sua janela e a partir daí uma história de aventura e fantasia se inicia que traz uma linda reflexão sobre o verdadeiro sentido do Natal, tanto para crianças quanto para adultos.

Em “O submarino do Juquinha”, Juquinha e seus amigos viajam ao fundo dos mares, sendo conduzidos ao início de inúmeras aventuras onde a curiosidade e o amor pela natureza marinha os farão descobrir a verdadeira vocação. Em uma linguagem singela que se complementa com as ilustrações (que podem ser coloridas pelas crianças, aumentando a experiência literária), o livro traz a reflexão sobre o respeito e amor que devemos ter por nossa natureza e nossos irmãos animais. 

Para maiores informações sobre o autor e suas obras:
CADU LIMA
Whatsapp: (19) 98107-9448
Instagram: @escritorcadulima
Facebook: Cadu Lima

Para adquirir os livros, também pode ser com o próprio autor, ou através das formas abaixo:
https://www.livrariadabok2.com.br/natal-eterno
https://www.editoraexpressividade.com.br/pagina-de-produto/o-submarino-do-juquinhha

Também estão a venda nas plataformas Submarino, Lojas Americanas, Mercado Livre e Estante Virtual!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
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Resenha: As Palavras de Saramago

Livro: As Palavras de Saramago
Organizador: Fernando Gomez Aguilera
Editora:
Companhia das Letras
Páginas: 488
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante;
5.Adorei)

“Aqui jaz, indignado, fulano de tal”

É como Saramago quer que coloquem em sua lápide quando morrer… E diz mais “indignado por ter entrado num mundo injusto e ter saído de um mundo injusto”. Eu sou fã de Saramago desde o primeiro livro que li “Ensaio sobre a Cegueira”. Depois a cada livro que fui lendo do autor, fui me apaixonando cada vez mais pelo seu jeito direto, racional, a vida como ela é de fazer literatura.

Esse livro foi um presente de uma amiga querida e é uma coletânea de citações de José Saramago recolhida de suas declarações em jornais, revistas, livros e entrevistas publicados em diversos países ao longo de 3 anos. Essas citações estão divididas em três grandes seções:

– Quem se chama José Saramago: compilando citações do autor sobre si mesmo, o ser humano, a vida, a morte, Deus, ética, razão, entre outros. Nessa seção conhecemos um pouco mais sobre o autor e suas reflexões, questionamentos e indignações sobre estes temas. Dentre as maravilhosas palavras destaco: “As vezes, o ter destrói o ser”; “A felicidade consite em dar passos em direção a si mesmo e olhar o que você é”; “Há um morrer de cegueira, que é um morrer de quem não usa a razão para viver”; “A doença mortal do homem como homem é o egoísmo”.

– Pelo fato de ser escritor: que traz suas declarações sobre literatura, obras, autor-narrador, leitores, romance, história, entre outros. Aqui descobrimos o profissional escritor, como se dedica a esse trabalho de forma racional, sem rituais, sem modos de fazer, mas com dedicação, afinco e muito estudo e pesquisa. Dentre suas palavras, destaco as seguintes: “Não temos outra coisa [que palavras]. Somos as palavras que usamos A nossa vida é isso”; “Tudo pode ser ‘extraordinário’, se é ‘extraordinária’ a nossa maneira de ver e de sentir”; “Toda obra literária leva uma pessoa dentro, que é o autor”; “Dizer demais é sempre dizer de menos”; “Num romance cabe tudo, é uma tentativa de compreender o mundo”

– O cidadão que sou: trazendo palavras do autor sobre compromisso, democracia, política, meios de comunicação, direitos humanos, pensamentos críticos, entre outros. E nesta ultima seção, conhecemos os pensamentos de Saramago sobre seu compromisso como escritor em relação à sociedade, ao mundo, à vida. Ele não se vê e nem a sua obra como algo à parte do mundo. Dentre estes, os que destaco são: “Indignemo-nos”; “deveríamos viver mais incomodados. O amanhã não existirá se não mudarmos o hoje”; “A democracia não pode se limitar à simples substituição de um governo pelo outro”; “Uma bala nunca é um argumento político”; “Vivemos num sistema de mentiras organizadas”; “Estou comprometido com a vida até o ultimo dos meus dias, e me esforço para mudar as coisas”.

E dizer mais o que? Praticamente marquei o livro todo. Saramago é sensacional, um dos meus autores favoritos e recomendo muitíssimo a leitura.

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: A Forma da Água – Guillermo Del Toro & Daniel Kraus

“Ele não é humano – ele diz. Estas são as palavras de um velho cansado, implorando para viver seus últimos dias em paz. Antes que possa escapar pela saída de incêndio, no momento em que está se virando, ele vê as mãos de Elisa sinalizarem em resposta e fica com a sensação de que elas fazem um marca em suas costas, através do paletó, do suéter, da camisa, do músculo, do osso, fundo o bastante para que machuquem como um ferimento recente por todo o caminho até a Klein & Saunders, onde ela começa a coçar e se transformar na cicatriz que ele será forçado a encarar pelo resto da vida: ‘Nem nós'”.

A Forma da Água é um ficção maravilhosa criada por Guilhermo Del Toro e transformada em livro pelo autor Daniel Kraus. Desde que li/assisti “O Labirinto do Fauno” estou apaixonada por Del Toro e sua capacidade de reunir fatos históricos com fantasia, mesclando o improvável ao possível, o místico ao cotidiano e fazendo isso com cenas tão belas e cheias de sensibilidade que é impossível não se encantar.

“Homens deviam ser melhores que monstros”.

Nesta trama, Del Toro trata de diversos temas importantes, sendo o mais relevante e o foco central dessa história, as dificuldades do ser humano em aceitar as diferenças. Elisa, é muda, órfã e servente, o que a faz ser praticamente invisível a todos a sua volta, trazendo uma solidão que está além da companhia, mas da compreensão e sensação de pertencimento. Giles, vizinho de Elisa e um de seus únicos amigos, é gay e um artista decadente que passa por situações de preconceito e desconforto. Zelda, colega de trabalho de Elisa, é negra e sofre muitas humilhações. Para culminar essa equipe, está o ser sobrenatural, o “recurso” da Occan, empresa onde Elisa e Zelda trabalham, que foi capturado na Amazônia onde era chamado de Deus Brânquia e tratado como tal, para virar projeto de pesquisa e ser torturado em busca de inovações.

“As criaturas mais inteligentes – diz ele com delicadeza – são geralmente as que fazem menos sons”. 

Ao fazer contato com o homem-peixe, Elisa se sente pela primeira vez em toda sua vida, vista de verdade, compreendida e de forma nenhuma julgada por sua mudez ou condição. Assim como o ser sobrenatural se sente pela primeira vez respeitado e não temido por sua aparência. Ambos sentem que apesar de serem de espécies diferentes, de mundos diferentes, são iguais em essência, mais parecidos do que os que deveriam ser seus semelhantes. A amizade que desenvolvem se transforma em um amor, que vai muito além do amor romântico. É poético, intenso, e extremamente tocante como criaturas tão diferentes se enxergam como são e amam pelo simples fato de respeitar ao invés de temer, conhecer ao invés de subjugar.

“Uma menina disse: ‘Ele faz com que eu me sinta alguém’. E elisa ficou com isso na cabeça por meses. Qual seria a sensação de se sentir alguém? De repente, existir não apenas em seu mundo, mas no de outra pessoa também?”

Afora isso, o livro tem como pano de fundo a Guerra Fria e traz muitos outros temas como disse, tratando os dilemas pessoais dos personagens e inserindo críticas sociais e políticas de forma muito clara e objetiva. Não há pontas soltas, tudo que é descrito, os diálogos e cenas são usados para fechar este ou aquele quebra cabeça e no fim tudo se completa de forma fascinante.

Uma lição de respeito e amor, que nos é transmitida através de uma incrível narrativa, cheia de cenas fortes e impactantes, mas também de extrema beleza e sensibilidade. “Assim é a vida, Elisa. Coisas remendadas juntas, sem sentido, a partir das quais nós, em nossas mentes necessitadas, criamos mitos que nos agradam. Você compreende?”

Recomendo fortemente a leitura!!!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
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#TBR de Julho

📖 Da preguiça como método de trabalho – #MarioQuintana: homenageado de julho no @clubetripas;

📖 Morte Súbita – #JKRowling: homenageada do mês de julho no @clubetripas;

📖Eu sei por que o pássaro canta na gaiola – #MayaAngelou: faz tempo que estou querendo ler esse livro e acho que esse é o melhor momento;

📖 Um toque de amor – #LeaCaruso: romance espírita emprestado da mama. A capa me chamou atenção;

📖 Cada homem é uma raça – #MiaCouto: porquê amo❤️

📖 Morra, amor – #ArianaHarwicz: emprestado pela minha amiga @luciamesquita65;

📖 O Lustre – #ClariceLispector: leitura do mês do clube de leitura Toda Clarice.

E vocês? Costumam fazer listas de livros para se organizar? Ou leem o que vai aparecendo? Contem nos comentários!

Resenha: A Menina do Sorriso Roubado

Livro: A Menina do Sorriso Roubado
Autor(es): N.P. Azeredo
Editora:
Pendragon
Páginas: 175
Nota: 3
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

O livro da jovem autora N.P. Azeredo é um drama que conta a trajetória da também jovem Valentina, que ao perder os pais em um acidente quando tinha 17 anos, foi morar com seu padrinho Luiz, sua esposa Regina e seus filhos, Daniel e Pedro. Valentina e Pedro se apaixonam, porém uma festa de aniversário muda suas vidas para sempre. Ao longo de uma trama de muitas intrigas, traições e sofrimentos, vamos descobrindo partes do passado de Valentina e novas situações e obstáculos do presente que podem colocar em risco seu sonho de ser chef e voltar a sorrir como antes do acidente.

A editoração do livro está linda, a capa chama atenção e dá pra ver o cuidado com a beleza nos detalhes das páginas como todos os livros da editora!

A narrativa da autora é agradável e a trama é interessante, faz com que você queira descobrir o que acontecerá a seguir. Além disso o livro não deixa pontas soltas, explicando todas as situações introduzidas à historia. Minha ressalva é que em alguns momentos, a quantidade de informações e a forma que autora escolheu para inseri-las na história, de forma a fazer um mistério, tornou algumas cenas bastante confusas pra mim. Além disso, a trama trata de alguns assuntos pesados e senti falta de aprofundamento nas emoções dos personagens.

Como o livro foi escrito quando a autora tinha apenas dezessete anos e seja ainda seu segundo livro lançado, acredito que com o tempo e maior vivência e maturidade na escrita, esses pontos sejam aperfeiçoados.

Vejo possibilidades de crescimento na narrativa da autora e acredito que sua história agrade aos jovens leitores.

Sombras Miúdas

A história de Ivanildo é que ele simplesmente não tem história. Morador de rua virou notícia porque teve 85% corpo queimado por gasolina e faleceu na última terça-feira (27), e é só, mais nada.
O assassino, conforme as investigações policiais, era outro morador de rua, e o crime, vejam vocês a ironia da miséria humana -, foi motivado por conquista de território. Dizem que precisavam de mais espaço para viverem na rua.
Pois é, as calçadas! Há pessoas em guerra pelas calçadas frias da cidade de São Paulo.
Não conheci Ivanildo nem o seu algoz piromaníaco, mas tenho uma vaga ideia de quem sejam os infelizes. Já os vi queimando na retina dos meus olhos, numa dessas noites geladas e indignas, em suas casas de papelão que se movem como fantasmas pela nossa imaginação.
Ivanildo não devia ter documentos tampouco identidade, indigente deve ter sido enterrado com seus trapos numa vala qualquer, de um cemitério qualquer, que é o lugar certo para qualquer um de nós, miserável ou não.
Outro dia vi um Ivanildo fuçando uma lata de lixo à procura de comida que sobra dos nossas pratos, mas o dono da lanchonete apareceu para expulsá-lo com um cabo de vassoura.
Fiquei com a impressão que mendigos trazem má sorte para o comércio, e que restos de comida não são para restos de pessoas: “Nós, os filhos de Deus, privatizamos até as migalhas”.

Tenho a impressão que os únicos que gostam dos moradores de rua são os cachorros. Aliás, de raça ou não, não conheço nenhum cachorro que não tenha um mendigo pra cuidar.
Moradores de rua são uma espécie rara de seres humanos.
Eles não têm dentes, eles não cortam os cabelos, eles não tomam banho, pedem-nos esmolas, dormem no nosso caminho de casa, e nós, a não ser que peguem fogo, simplesmente não os vemos.
É difícil vê-los. Somos cristãos demais para enxergá-los.
E tem mais, dizem que são invisíveis a olho nu. Mas não são. suas sombras miúdas se arrastam em nossas orações, para o deleite da nossa hipocrisia. Fingir que gostamos de deus é a melhor forma de agradar o diabo.
Um ser humano pegando fogo na calçada e os nossos joelhos doendo de tanto rezar pela nossa felicidade material…
Deus sabe o que faz, a gente não. Devia ser o contrário.
Se dependesse de mim, a humanidade já tinha pegado fogo há muito tempo.
Um por um.

. Sérgio Vaz in Literatura, pão e poesia .

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré

Dica de Leitura: Coraline – Neil Gaiman

Coraline, foi o primeiro livro que Neil Gaiman escreveu para o público infanto-juvenil e já acertou na mão!! É o tipo de livro que tem todo o esteriótipo do livro infantil, mas que não tem idade certa para a leitura. Ele é para todas as idades, e o mais genial é que cada idade vai entender aquilo que é necessário entender da história naquele momento. Porque Neil Gaiman conta uma história nas linhas e outra nas entrelinhas, criadas para encantar e assombrar.

“Você provavelmente acha que este mundo é um sonho bonito, mas você está errada”.

A história começa com Coraline se mudando para uma nova cidadezinha com seus pais. Eles passam a morar em uma casa antiga, tão grande que foi dividida em quatro apartamentos vendidos separadamente. Apenas um deles ainda não foi vendido e está fechado. Nos demais moram Coraline e a família, duas senhoras ex-atrizes e um senhor que diz treinar ratos para um número de circo. Coraline vive explorando sua nova casa, enquanto seus pais trabalham e não tem muito tempo pra ela. Em uma das brincadeiras para se distrair, ela conta quantas portas a casa possui e descobre uma porta misteriosa que quando aberta dá para uma parede de tijolos que separa sua casa do apartamento vazio. 

“– Gatos não têm nomes – disse.
– Não? – perguntou Coraline.
– Não – respondeu o gato. – Agora, vocês pessoas têm nomes. Isso é porque vocês não sabem quem vocês são. Nós sabemos quem somos, portanto não precisamos de nomes”.


Num dia chuvoso, sozinha em casa, Coraline decide checar essa porta novamente e descobre que a parede de tijolos sumiu e em seu lugar está uma passagem escura que a leva para sua própria casa, só que bem mais divertida e atraente. Nela, encontra seus pais, um pouco diferentes, com botões no lugar dos olhos e aparentemente bem mais afetuosos e com tempo pra ela. O gato que foge dela na casa de antes, nesta casa até conversa com ela, e ela finalmente conhece os ratos de circo que o Senhor insistia que treinava, mas que ela nunca tinha visto. Tudo é muito melhor que o original nessa nova versão de seu lar e seus pais diferentes querem convencê-la a ficar e colocar botões em seus olhos. Apesar de todas as coisas boas desse lugar mágico, Coraline sente que tem algo errado e recusa a oferta, se vendo em apuros e tendo que enfrentar desafios para sair daquele lugar e salvar seus pais verdadeiros.

“Cuidado com o que você deseja”.

É uma história grandiosa contada com simplicidade e poesia, os acontecimentos vão sendo descritos com uma sutileza tenebrosa. São retalhos dos nossos próprios medos. As personagens são profundas e inesquecíveis, nos fazendo refletir sobre as muitas faces que cada um esconde sobre sutilezas e sorrisos e os diálogos, mesmo os mais pequenos, tem sempre muito a dizer.

Do início ao fim do livro você é colocado a refletir sobre o que é real e o que não é e como as pessoas não conseguem esconder de todo suas verdadeiras naturezas. Me encantou muito como ele construiu a personagem Coraline, que apesar de ser uma criança, é extremamente esperta e consegue pressentir perigos e reconhecer certas situações com grande clareza. Sinto que as crianças são muito subestimadas hoje em dia e acabam crescendo sem atitude e pouco criativas por conta disso. Gaiman confiou que Coraline seria capaz, nós leitores também confiamos, embora com medo. Mas como ela mesma diz…

“Quando você tem medo e faz mesmo assim, isso é coragem”.

Super recomendo a leitura!!!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
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Resenha: A Forma da Água

Livro: A Forma da Água
Autor(es): Guilhermo Del Toro & Daniel Kraus
Editora:
Intrínseca
Páginas: 352
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante;
5.Adorei)

“Ele não é humano – ele diz…

… Estas são as palavras de um velho cansado, implorando para viver seus últimos dias em paz. Antes que possa escapar pela saída de incêndio, no momento em que está se virando, ele vê as mãos de Elisa sinalizarem em resposta e fica com a sensação de que elas fazem um marca em suas costas, através do paletó, do suéter, da camisa, do músculo, do osso, fundo o bastante para que machuquem como um ferimento recente por todo o caminho até a Klein & Saunders, onde ela começa a coçar e se transformar na cicatriz que ele será forçado a encarar pelo resto da vida: ‘Nem nós'”.

A Forma da Água é um ficção maravilhosa criada por Guilhermo Del Toro e transformada em livro pelo autor Daniel Kraus. Desde que li/assisti “O Labirinto do Fauno” estou apaixonada por Del Toro e sua capacidade de reunir fatos históricos com fantasia, mesclando o improvável ao possível, o místico ao cotidiano e fazendo isso com cenas tão belas e cheias de sensibilidade que é impossível não se encantar.

Nesta trama, Del Toro trata de diversos temas importantes, sendo o mais relevante e o foco central dessa história, as dificuldades do ser humano em aceitar as diferenças. Elisa, é muda, órfã e servente, o que a faz ser praticamente invisível a todos a sua volta, trazendo uma solidão que está além da companhia, mas da compreensão e sensação de pertencimento. Giles, vizinho de Elisa e um de seus únicos amigos, é gay e um artista decadente que passa por situações de preconceito e desconforto. Zelda, colega de trabalho de Elisa, é negra e sofre muitas humilhações. Para culminar essa equipe, está o ser sobrenatural, o “recurso” da Occan, empresa onde Elisa e Zelda trabalham, que foi capturado na Amazônia onde era chamado de Deus Brânquia e tratado como tal, para virar projeto de pesquisa e ser torturado em busca de inovações.

Ao fazer contato com o homem-peixe, Elisa se sente pela primeira vez em toda sua vida, vista de verdade, compreendida e de forma nenhuma julgada por sua mudez ou condição. Assim como o ser sobrenatural se sente pela primeira vez respeitado e não temido por sua aparência. Ambos sentem que apesar de serem de espécies diferentes, de mundos diferentes, são iguais em essência, mais parecidos do que os que deveriam ser seus semelhantes. A amizade que desenvolvem se transforma em um amor, que vai muito além do amor romântico. É poético, intenso, e extremamente tocante como criaturas tão diferentes se enxergam como são e amam pelo simples fato de respeitar ao invés de temer, conhecer ao invés de subjugar.

Afora isso, o livro tem como pano de fundo a Guerra Fria e traz muitos outros temas como disse, tratando os dilemas pessoais dos personagens e inserindo críticas sociais e políticas de forma muito clara e objetiva. Não há pontas soltas, tudo que é descrito, os diálogos e cenas são usados para fechar este ou aquele quebra cabeça e no fim tudo se completa de forma fascinante.

Uma lição de respeito e amor, que nos é transmitida através de uma incrível narrativa, cheia de cenas fortes e impactantes, mas também de extrema beleza e sensibilidade. “Assim é a vida, Elisa. Coisas remendadas juntas, sem sentido, a partir das quais nós, em nossas mentes necessitadas, criamos mitos que nos agradam. Você compreende?”

Recomendo fortemente a leitura!!!