Sonhos diferentes

Foi ontem. Estava lá, diante daquela igreja imponente e ao mesmo tempo singela. Não era Cristo no altar. Era São Francisco de Assis. E o padre usava sandálias, iguais as dele. As luzes, as flores, tudo meticulosamente em seu devido lugar. Pessoas sentadas, aguardando a chegada da protagonista da noite. E lá estava eu, em pé, ao lado dele, segurando em seu braço. Casal por casal começaram a entrar pelo tapete verde estendido no corredor da bela igreja, e lá fomos nós também. Ficamos depois em pé no altar, aguardando assim como todos por ela. E ela veio, linda, feliz como todas as que passam pelo mesmo ritual, andando meio insegura, mas emocionada e feliz. Juntou-se ao seu amado em frente ao padre franciscano. E deu-se início ao tão conhecido ritual. E ali estava eu. Sorrindo. Lágrimas nos olhos, por ela, por eles, por mim, por nós. Sim, por mim. Que não terei jamais isso, não andarei pelo tapete, não estarei diante de um padre franciscano. Por nós, porquê estamos separados e não sabemos. Porquê há um abismo entre nós embora estejamos sempre juntos, porquê sonhamos diferente e sonhos diferentes… levam a realidades diferentes…

Don’t ask me

♪ Yes I think I’m okay
I walked into the door again
Well, if you ask that’s what I’ll say
And it’s not your business anyway
I guess I’d like to be alone
With nothing broken, nothing thrown
Just don’t ask me how I am ♪

Suzanne Vega .

Pelo que perdi de mim

“Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar com ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas as tentativas de aproximação. Tenho vontade de gritar que essa dor é só minha, de pedir que me deixem só e em paz com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão”

Caio Fernando Abreu in Ovelhas Negras .

Eu não sou sua rainha!

Isso não vai ser rápido.Você não vai gostar disso.
Eu NÃO SOU SUA RAINHA”

300 ─ Filme Maravilhoso! E até que o Santoro se saiu muito bem…

Não é? É.

“Eu acho que os jovens são facilmente infelizes porque, é claro, as paixões são mais fortes e, entre as paixões, está o desespero, não é?

Jorge Luis Borges .

23.04 [07]- Dia Mundial do Livro

Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre os volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, aquele destinado a seus símbolos. Ocorre então a emoção singular chamada beleza, esse mistério formoso que não decifram nem a psicologia nem a retórica.

. Jorge Luis Borges .

Hoje, dia 23, comemora-se o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor. Instituída pela Unesco em 1995, a data visa atrair a atenção das autoridades governamentais e da população para este que é um dos meios de transmissão de conhecimento mais universais e eficazes que existem. Em várias cidades do mundo acontecerão eventos comemorativos.

Em São Paulo, haverá o lançamento, com a presença do governador Geraldo Alckmin e da secretária do Estado da Cultura, Cláudia Costin, do programa “São Paulo: Um Estado de Leitores” e posse dos membros do conselho consultivo, do qual o presidente da CBL, Oswaldo Siciliano, fará parte. A Câmara Brasileira do Livro, a Abrelivros (Associação Brasileira de Editores de Livros) e a ANL – Associação Nacional de Livrarias oferecerão um brunch aos presentes.

A escolha do dia deve-se ao fato que vários escritores consagrados, como Miguel de Cervantes, William Shakespeare, Vladimir Nabokov e Josep Pla, nasceram ou morreram em um 23 de abril. Mais informações sobre o Dia Mundial do Livro no site www.unesco.org/culture/bookday

Fonte: Câmara Brasileira do Livro

Mas… porque você partiu?

Não vou perguntar por que você voltou, acho que nem mesmo você sabe, e se eu perguntasse você se sentiria obrigado a responder, e respondendo daria uma explicação que nem mesmo você sabe qual é. Não há explicação, compreende? Eu também não queria perguntar, pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão, mas não é, sei que não é, você também sabe, pelo menos por enquanto, talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que um silêncio basta? É preciso encher o vazio de palavras, ainda que seja tudo incompreensão? Só vou perguntar por que você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto. E esquece sabendo que está esquecendo“.

Caio Fernando Abreu in O Inventário do Ir-remediável .

Amar não é fácil…

“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.”

Clarice Lispector in Felicidade Clandestina.

Sentinela da noite…

Ela estava sentada sozinha em seu apartamento. Uma lata de cerveja na mão, sem saber exatamente porquê bebia. Não costumava beber e por isso demorou muito até deixar que o líquido finalmente tocasse sua boca e o engolisse a contragosto fazendo careta ao gosto amargo que sempre detestara. Olhava para fora pela vidraça da varanda com um olhar perdido como se nada mais fizesse sentido. Tinha acabado de receber um telefonema. Aquela voz conhecida, algumas palavras apenas. Aquela voz tão amiga que soara agora estranha, constrangedora, distante. Ficaram muitos silêncios entre as palavras. Silêncios cheios de significados. A ligação terminara, mas ela ficara segurando o telefone nas mãos por muito tempo depois, olhando pra ele como se fosse um objeto estranho que nunca antes tivesse visto. Depois lentamente o largara sobre o chão, próximo da cadeira onde estava agora sentada, totalmente ereta, as pernas cruzadas. Em uma das mãos a lata de cerveja. As horas passaram, o apartamento começou a cair na penumbra, mas ela não se importou. Carros iam e viam, mas seu olhar perdido nem ao menos os enxergava. Era estranho pensar assim, mas fumaria naquele momento, se tivesse esse hábito. Fumaria solitária, levando o cigarro a boca, depois soltando a fumaça acizentada ao ar, deixando a mão longa cair ao lado da cadeira, ainda segurando o cigarro desajeitadamente. Não saberia descrever em palavras o que estava sentindo, embora entendesse bem o que era. Começou a ventar, e então ela levantou-se para buscar uma blusa, que vestiu e voltou a seu posto, como uma sentinela da noite. Os cabelos curtos começaram a esvoaçar diante do vento, mas ela também não se importou. Ao longe, alguém colocou uma música conhecida para tocar. Alguém abraçou uma pessoa querida. Alguém chorou assistindo um filme, alguém beijou seu amor, alguém fez amor, alguém gritou e bradou com raiva incontida, alguém ligou para um amigo, alguém escreveu uma carta. Mas ela permanecia ali, silenciosa e distante de tudo. Sozinha em seu apartamento. Bebendo, sem saber porquê…

{ Lyani } 13/02/2007

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