Sentinela da noite…

Ela estava sentada sozinha em seu apartamento. Uma lata de cerveja na mão, sem saber exatamente porquê bebia. Não costumava beber e por isso demorou muito até deixar que o líquido finalmente tocasse sua boca e o engolisse a contragosto fazendo careta ao gosto amargo que sempre detestara. Olhava para fora pela vidraça da varanda com um olhar perdido como se nada mais fizesse sentido. Tinha acabado de receber um telefonema. Aquela voz conhecida, algumas palavras apenas. Aquela voz tão amiga que soara agora estranha, constrangedora, distante. Ficaram muitos silêncios entre as palavras. Silêncios cheios de significados. A ligação terminara, mas ela ficara segurando o telefone nas mãos por muito tempo depois, olhando pra ele como se fosse um objeto estranho que nunca antes tivesse visto. Depois lentamente o largara sobre o chão, próximo da cadeira onde estava agora sentada, totalmente ereta, as pernas cruzadas. Em uma das mãos a lata de cerveja. As horas passaram, o apartamento começou a cair na penumbra, mas ela não se importou. Carros iam e viam, mas seu olhar perdido nem ao menos os enxergava. Era estranho pensar assim, mas fumaria naquele momento, se tivesse esse hábito. Fumaria solitária, levando o cigarro a boca, depois soltando a fumaça acizentada ao ar, deixando a mão longa cair ao lado da cadeira, ainda segurando o cigarro desajeitadamente. Não saberia descrever em palavras o que estava sentindo, embora entendesse bem o que era. Começou a ventar, e então ela levantou-se para buscar uma blusa, que vestiu e voltou a seu posto, como uma sentinela da noite. Os cabelos curtos começaram a esvoaçar diante do vento, mas ela também não se importou. Ao longe, alguém colocou uma música conhecida para tocar. Alguém abraçou uma pessoa querida. Alguém chorou assistindo um filme, alguém beijou seu amor, alguém fez amor, alguém gritou e bradou com raiva incontida, alguém ligou para um amigo, alguém escreveu uma carta. Mas ela permanecia ali, silenciosa e distante de tudo. Sozinha em seu apartamento. Bebendo, sem saber porquê…

{ Lyani } 13/02/2007

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