Sentinela da noite…

Ela estava sentada sozinha em seu apartamento. Uma lata de cerveja na mão, sem saber exatamente porquê bebia. Não costumava beber e por isso demorou muito até deixar que o líquido finalmente tocasse sua boca e o engolisse a contragosto fazendo careta ao gosto amargo que sempre detestara. Olhava para fora pela vidraça da varanda com um olhar perdido como se nada mais fizesse sentido. Tinha acabado de receber um telefonema. Aquela voz conhecida, algumas palavras apenas. Aquela voz tão amiga que soara agora estranha, constrangedora, distante. Ficaram muitos silêncios entre as palavras. Silêncios cheios de significados. A ligação terminara, mas ela ficara segurando o telefone nas mãos por muito tempo depois, olhando pra ele como se fosse um objeto estranho que nunca antes tivesse visto. Depois lentamente o largara sobre o chão, próximo da cadeira onde estava agora sentada, totalmente ereta, as pernas cruzadas. Em uma das mãos a lata de cerveja. As horas passaram, o apartamento começou a cair na penumbra, mas ela não se importou. Carros iam e viam, mas seu olhar perdido nem ao menos os enxergava. Era estranho pensar assim, mas fumaria naquele momento, se tivesse esse hábito. Fumaria solitária, levando o cigarro a boca, depois soltando a fumaça acizentada ao ar, deixando a mão longa cair ao lado da cadeira, ainda segurando o cigarro desajeitadamente. Não saberia descrever em palavras o que estava sentindo, embora entendesse bem o que era. Começou a ventar, e então ela levantou-se para buscar uma blusa, que vestiu e voltou a seu posto, como uma sentinela da noite. Os cabelos curtos começaram a esvoaçar diante do vento, mas ela também não se importou. Ao longe, alguém colocou uma música conhecida para tocar. Alguém abraçou uma pessoa querida. Alguém chorou assistindo um filme, alguém beijou seu amor, alguém fez amor, alguém gritou e bradou com raiva incontida, alguém ligou para um amigo, alguém escreveu uma carta. Mas ela permanecia ali, silenciosa e distante de tudo. Sozinha em seu apartamento. Bebendo, sem saber porquê…

{ Lyani } 13/02/2007

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4 comentários sobre “Sentinela da noite…

  1. andréa disse:

    me encontro na mesma cena… sentada na varanda… a frente um mar solitário… como eu… cerveja quente e Marlboro Menta… bebo e fumo pq quero que os dias passem rápido… sem ele novamente… a vida é vazia…

  2. O Trovador disse:

    Ahh, o ultimo post.

    Na verdade, o primeiro, não? 😛

    Eu sou assim mesmo, sempre começando estranhamente pelo final.

    Bom, “final”, pois você não terminou ainda né? Haverão mais textos.

    Quero dizer que adorei cada texto que li e acredite, não li pra te agradar, li porque eram muito bons, todos eles.

    E acho que você devia escrever um livro de cronicas ou contos.

    De verdade.

    ^^

    Bom… Agora só quando postar… Eu geralmente leio sempre todos os blogs do meu rss… Então, até o seu próximo post \o/

  3. Tessa disse:

    Eu sei porque ela bebe. Ela bebe pela mesma razão que bebo.
    Bebo porque o alcool faz confundir os pensamentos. Traz a doce ilusão que se pode esquecer… que se pode perdoar… que se pode viver…

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