Nossa Truculência

“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.”

. Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo .

Fico boquiaberta ao ler Clarice. Ela é um espanto. E é incrível como ela me entende. Como ela explica todos os meus sentimentos com as palavras certas… inclusive os mais simples, como este citado acima. Como é possível? Ela nem ao menos me conheceu… como pode? Outro dia mostrei um trecho a um amigo e ele disse: Ela me conhece? Sou eu. Sim, é isso que Clarice faz e é incrível, eu nunca me acostumo…