Vã esperança…

Ela ouviu a chave dele girando na fechadura e sorriu lentamente ao reconhecimento desse som. Há 19 anos ouvia esse mesmo som. As vezes mais cedo, muitas vezes bem mais tarde, quando já havia subido para o quarto e fingia dormir esperando-o. Não importava que horas o som da chave girando na fechadura a atingisse, ela sabia que esperava pelo homem de 19 anos atrás. Este homem que entraria com um sorriso e iria imediatamente até ela, beijando-lhe, contando-lhe entusiasmado como fora seu dia. Mas não haviam mais sorrisos e beijos há muito tempo. Nem conversas. Ela estava sentada em uma poltrona na sala, com uma revista nas mãos e abaixou a mesma para observar o ritual também já conhecido. Ele passou pela sala, alto em seus 1,90, sério em seu terno bem alinhado, bonito com seus cabelos grisalhos, e frio com seu olhar feito aço que neste momento deitou sobre ela por um segundo antes do murmúrio de boa noite. Ela sorriu-lhe, mas ele não viu, já estava no meio da escada em direção ao quarto. O sorriso dela morreu. Ficou por um instante estática, então levantou-se, subiu até o quarto onde ele estava despindo-se de costa. Perguntou-lhe como havia sido seu dia, como estava, se queria jantar. Ele respondeu a tudo com três palavras “bom, bem, não” com um espaço grande entre as resposta. Cheio de silêncio. Cheio de significados. Ela entendeu e observou-o passar por ela para ir ao banheiro. Continuava parada à porta. Viu seu reflexo no espelho. Ainda era muito bonita, com seus cabelos castanhos bem arrumados, seus olhos grandes e cor de mel. Ouviu-o chamá-la e por um momento pensou ouvir a voz dele há anos atrás, macia, cheia de amor. Mas o som a atingiu de novo e era o mesmo tom de sempre. Tedioso, frio, sério. Estava dizendo que teria que fazer uma viagem. Mais uma, pensou ela. E ficaria fora por 5 semanas. 5 semanas? E ela não poderia acompanhá-lo. Como sempre… Tudo bem? Foi a pergunta feita da porta do banheiro, direto para ela. Ele a fitava agora, um sorriso satisfeito nos olhos ao pensar no trabalho, na viagem, em algo mais. Não, não está tudo bem, ela quis dizer, mas apenas balançou a cabeça positivamente e pensou sorrir, mas ele também já não estava mais olhando. Estava no meio da escada indo para o escritório. 5 semanas… Ela sentiu um aperto por dentro. Sabia que o perdia cada vez mais… e que nestas 5 semanas o que mais sentiria falta, seria do som da chave virando na fechadura. O som da sua vã esperança de encontrar seu marido de novo. O homem que amava…

{ Lyani }

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O Fantasma

Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!…”

. Alvares de Azevedo .