Hatsumomo

Levei algum tempo para remover todos os hábitos peculiares que se haviam enraizado em mim por causa de Hatsumomo. Sempre que um homem me olhava de maneira mais estranha, eu ficava imaginando se a teria ouvido dizer algo mau a meu respeito, mesmo muito tempo depois que ela se fora. Sempre que subia as escadas para o segundo andar do okiya, ainda ficava de olhos baixos, com medo de que Hatsumomo estivesse esperando no patamar; ansiosa por me maltratar. Não posso lhe dizer quantas vezes cheguei ao último degrau e ergui os olhos subitamente, percebendo que não havia mais Hatsumomo ali, nem nunca haveria. Eu sabia que ela se fora, mas até o vazio do hall parecia sugerir algo de sua presença. Mesmo agora, já idosa, às vezes ergo a cobertura de brocado do espelho da minha mesa de maquilagem e por um brevíssimo instante penso que a encontrarei ali no vidro, olhando-me com aquele seu sorriso”

. Arthur Golden in Memórias de uma Gueixa .