Tão cansado!

{…} Sinto-me tão cansado de sofrer, tão cansado!
 ─ algum dia, em alguma parte
Hei de lançar também as
âncoras ardentes das promessas
Mas no meu coração intranquilo
Não há senão fome e sede
De lembranças inexistentes”

. Vinícius de Moraes in Solilóquio .

Na margem do rio Piedra

Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei. Conta a lenda que tudo que cai nas águas deste rio – as folhas, os insetos as penas das aves – se transforma nas pedras do seu leito. Ah, quem dera eu pudessa arrancar o coração do meu peito e atirá-lo na correnteza, e então não haveria mais dor, nem saudade, nem lembranças.
Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei. O frio do inverno fez com que eu sentisse as lágrimas no rosto, e elas se misturaram com as águas geladas que correm diante de mim. Em alguma lugar este rio se junta com outro, depois com outro, até que – distante dos meus olhos e do meu coração – todas estas águas se confundem com o mar.
Que as minhas lágrimas corram assim para bem longe, para que meu amor nunca saiba que um dia chorei por ele. Que minhas lágrimas corram para bem longe, e então eu esquecerei o rio Piedra, o mosteiro, a igreja nos Pireneus, a bruma, os caminhos que percorremos juntos.
Eu esquecerei as estradas, as montanhas e os campos de meus sonhos – sonhos que eram meus, e que eu não conhecia.
Eu me lembro do meu instante mágico, daquele momento em que um “sim” ou um “não” pode mudar toda a nossa existência. Parece ter acontecido há tanto tempo, e – no entanto – faz apenas uma semana que reencontrei meu amado e o perdi.
Nas margens do rio Piedra escrevi esta história. As mãos ficavam geladas, as pernas entorpecidas pela posição, e eu precisava parar a todo instante.
– Procure viver. Lembrar é para os mais velhos – dizia ele.
Talvez o amor nos faça envelhecer antes da hora, e nos torna jovens quando a juventude passa. Mas como não recordar aqueles momentos? Por isso escrevia, para transformar a tristeza em saudade, a solidão em lembranças. Para que, quando acabasse de contar a mim mesma esta história, eu a pudesse jogar no Piedra – assim me dissera a mulher que me acolheu. Então – lembrando as palavras de uma santa – as água poderiam apagar o que o fogo escreveu.
Todas as histórias de amor são iguais

Paulo Coelho in Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei