Pensamentos

Peguei emprestado daqui

Nossos pensamentos são as sombras de nossos sentimentos – sempre mais obscuros, mais vazios, mais simples que estes”

. Friedrich Nietzsche .

Umas coisas antigas

─ Sim, é isso. Nós chamavamos os inimigos de “cascos” ─ uma coisa do estábulo. Temia que, se eles entrassem no museu, pisoteariam tudo, procurando ouro, e destruiriam coisas cujo valor eram ignorantes demais para sequer imaginar. Fui à delegacia. A maior parte da polícia tinha saído para defender a cidade da melhor maneira possível. O oficial de plantão perguntou: “Quem vai arriscar a cabeça só pra salvar umas coisas antigas?“. Mas quando percebeu que eu arriscaria, sozinho, ele chamou dois “voluntários” para me ajudar. Disse que não podia deixar as pessoas dizerem que um bibliotecário empoeirado tinha mais coragem que a polícia. {…}
─ E, por fim, tentei encontrar a Hagadá – ele disse.
Na década de 1950, um funcionário do museu  fora implicado em uma trama para roubar a Hagadá, por isso, desde então, o diretor do museu era o único que sabia a combinação do cofre onde o livro era guardado. Mas o diretor morava do outro lado do rio, onde a guerra era mais intensa. Ozren (o bibliotecário) sabia que ele nunca chegaria ao museu.
Ozren continuou falando baixinho, usando frases curtas, sem o menor tom de drama. Luz cortada. Um cano rompido e água jorrando. Granadas atingindo as paredes. Enquanto ele falava, eu tinha que preencher as lacunas nas frases. Já estive em muitos porões de museus para imaginar como era; como cada granada que atingia o prédio devia provocar uma chuva de reboque que caía sobre os objetos preciosos, e sobre ele também, entrando-lhe nos olhos, enquanto ele se agachava no escuro, com as mãos tremendo, acendento um fósforo atrás de outro para ver aonde estava indo. Aguardando uma pausa no bomboradeio para ouvir o som correto enquanto tentava toda combinação possível, uma atrás da outra. E não conseguindo ouvir nada, enfim, porque o sangue pulsando na cabeça era ruidoso demais.
─ Como é que você conseguiu abrir afinal?
Ele ergueu as mãos, virando as palmas para cima.
─ Era um cofre velho, não muito sofisticado ─ disse.
─ Mesmo assim…
─ Como eu lhe disse, não sou um homem religioso, mas se acreditasse em milagres… o fato de eu pegar esse livro, naquelas condições…
─ O milagre ─ falei ─ foi que você…
Ele não me deixou terminar.
─ Por favor ─ interrompeu-me contorcendo o rosto, irritado. ─ Não me veja como herói. Não me sinto assim. Francamente, eu me sinto péssimo, por causa de todos os livros que não consegui salvar. ─ Ele desviou o olhar.
Acho que foi isso que me pegou, aquele olhar. Aquela reticência. Talvez por eu ser o oposto de corajosa, sempre tive certas suspeitas dos heróis. Sou inclinada a pensar que eles não têm imaginação; do contrário, não poderiam fazer as coisas loucas que fazem. Mas aquele era um homem que arriscava a vida por causa de livros perdidos, e do qual você tinha que arrancar informações a saca-rolha para saber o que ele tinha feito. Eu começava a gostar dele, e bastante.

Geraldine Brooks in As Memórias do Livro