Palavras trocadas entre o tímido e o excêntrico

Cartas de Fernando Pessoa vão a leilão e governo português chia

Michael Kimmelman

THE NEW YORK TIMES, EM LISBOA

O último burburinho envolvendo o legado cultural de uma nação é revelado aqui – e, para variar, não tem relação com vasos roubados ou preciosas heranças de guerra, e sim a correspondência de um poeta. Os herdeiros de Fernando Pessoa, o celebrado escritor português, planejam leiloar, no outono (primavera, no Brasil), sua correspondência com Aleister Crowley, o místico alpinista e escritor inglês, praticante de magia negra, do começo do século 20. O ministro da cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro, está entre os que se mostraram, nos últimos dias, preocupados diante da possibilidade de que as cartas saiam do país.

Os herdeiros já se desfizeram de uma série de cadernos de Pessoa, que foram comprados pela Biblioteca Nacional de Portugal, no ano passado. Já que muito da obra de Pessoa continua inédita, acadêmicos temem que, se seus documentos forem espalhados (ele deixou mais de 30 mil em pilhas na sua casa), vai ficar difícil decifrar o que até hoje é um dos mais intrincados e volumosos legados entre os grandes escritores da era moderna.

Pessoa e Crowley trocaram estranha correspondência em 1930. Naquela época, Pessoa era o tímido, e desconhecido poeta português que vivia entre uma multiplicidade de heterônimos. Crowley era tão excêntrico que um biógrafo recente se sentiu compelido o reforçar que seu biografado “não – eu disse não – praticava ou pregava sacrifícios humanos”. Astrólogo experiente, escreveu, inicialmente, para corrigir erros de cálculos do autor. Crowley respondeu gentil às cartas de Pessoa, assinando “666”.

Na última residência de Pessoa, agora o centro cultural Casa Fernando Pessoa, o ministro da cultura de Portugal, educadamente, deixou claro, durante recente fórum público, que o governo tem o poder de ficar com a obra que for considerada patrimônio nacional. Sobrinha de Pessoa, Manuela Nogueira respondeu que um contrato já foi assinado com uma casa de leilões, mas acrescentou que não há motivos para preocupações, já que os papéis foram fotografados, possibilitando que suas cópias estejam para sempre acessíveis aos acadêmicos, independentemente de onde os originais venham a ficar.

Megalomania e humildade

A grande maioria dos documentos de Fernando Pessoa pertence à Biblioteca Nacional: o restante, cerca de 27 mil, aos herdeiros. Nesse caso, os originais contêm uma série de notas rabiscadas e outros detalhes que se tornariam ilegíveis mesmo nas melhores fotografias. A maioria dos portugueses, verdade seja dita, não poderia se importar menos com o que aconteça com os documentos de Pessoa, mas ainda assim ele ainda é considerado um dos maiores tesouros do país.

– Pessoa é uma exceção, um grande escritor. Mas com trejeitos inconfundivelmente portugueses – analisa Eduardo Lourenço, um dos mais distintos críticos literários de Portugal – Isso tem ligação ao fato de nós, portugueses, podermos ter tudo, mas ainda assim sentirmos como se tivéssemos nada.

Portugal, ele explicou, descobriu metade do mundo no século 16, mas ainda assim se sente um fracasso por não ter descoberto o resto. A mentalidade da nação, afirma Lourenço, é uma combinação de megalomania e humildade.

– Pessoa também era um indivíduo isolado, que evitava o contato. Foi um um dos maiores poetas a expressar a solidão absoluta. Alguns de seus poemas são tão tristes que chegam a se tornar difíceis de serem lidos, o que é uma característica extremamente portuguesa. É só escutar o fado – continuou o crítico, referindo-se à música com conotações saudosistas.

Pessoa, claro, representava muito mais. Criado na África do Sul trilíngüe, ele escreveu em inglês e francês tão bem quanto em português. Tinha a reserva de um gentleman inglês, inventando heterônimos ou personagens imaginários pelos quais ele mesmo tendia a desaparecer.

Sua obra de prosa mais famosa, O livro do desassossego, foi escrito sob o nome de Bernardo Soares. A obra passou por uma costura póstuma, feita por acadêmicos que combinaram milhares de páginas de fragmentos literários – reza a lenda que Pessoa, morto de cirrose hepática, aos 47 anos, em 1935, consultou os astros e acreditava que tinha mais dois anos de vida. Planejava, nesse tempo, organizar essa obra, mas de uma maneira que nunca pudesse ser reduzida a uma única ordem. Continuaria a ter leituras indefiníveis, como um corredor de espelhos e, conseqüentemente, a quintessência da modernidade.

Também escreveu, sob o pseudônimo de Alexander Search, um engenheiro escocês; Alberto Caeiro (que Pessoa habitualmente classificava como “seu mestre”); Ricardo Reis; e Alvaro de Campos, um engenheiro naval aposentado bissexual e melancólico viciado em drogas.

“O que aconteceu, você pergunta”, Pessoa escreveu em 1920 para sua namorada, explicando por que ele estava terminando o relacionamento com ela. “Eu fui trocado por Álvaro de Campos”.

Como Alvaro de Campos, ele também escreveu: “Fernando Pessoa, estritamente falando, não existe”. Em História do cerco de Lisboa, o vencedor do Nobel e escritor português José Saramago imagina um revisor chamado Raimundo Silva, um homem não muito diferente de Fernando Pessoa, que, por inserir um único “não” em um livro consegue mudar a história portuguesa.

Fonte: JB Online e também na Revista da Semana Ed. 46 – 24/07/2008.

2 comentários em “Palavras trocadas entre o tímido e o excêntrico

  1. Lamentável! Concordo plenamente com o nosso colega.
    Pq não reunir esse acervo de originais em um único lugar??? Conservá-los, torná-los acessíveis… Pq fragmentar? Só pelo dinheiro? Pq não criar uma Fundação? Meu Deus… como pode?
    Na minha opinião, essa obra deixou de ser propriedade da família há muito tempo… é uma herança para todas as gerações!
    Uma pena!
    bju, Sandra

  2. Creio que é consenso da maioria que Pessoa foi um brilhante escritor, acho uma pena seus próprios compatriotas tratarem de tamanho desleixo com obras de tamanha importância, fica a se pensar o destino desses originais…

    Abraços

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