O maravilhoso mundo da Imaginação

Por Nanci Dainezi

Elfos, dragões, cavaleiros medievais, bruxas, vampiros e fadas são alguns dos personagens que povoam o rico universo da literatura fantástica. A imaginação dos autores é o terreno fértil para as tramas que, em geral, se desenvolvem longe do mundo real, em lugares encantados e repletos de surpresas.

Na Europa, a literatura fantástica já é conhecida, e bem aceita, desde o século 19. E isso se deve, em parte, à longa história registrada e resgatada daqueles países. Os cavaleiros medievais e as batalhas vividas por lá aguçaram os autores e foram imediatamente aceitas pelos leitores. Já em nosso país, sem muitas referências medievais, nem cenários tenebrosos, ou escuros, a fantasia só conseguiu decolar há pouco tempo, mais exatamente depois do lançamento das versões cinematográficas de Harry Potter, de J.K. Rowling, e de O senhor dos anéis, de J.R.R.Tolkien. Não que não houvesse produção de livros do gênero no país. Ao contrário – e Ariano Suassuna, com o Auto da compadecida e A pedra do reino, está aí para não nos deixar mentir –, o fantástico já existia desde o século passado, mas, antes de se tornar mais conhecido pelo cinema, foi quase só “coisa de iniciados”.

O sucesso atual desse gênero motivou um debate no mês de junho em São Paulo, na Livraria Cultura do Market Place, com a presença de especialistas no assunto. A mesa-redonda foi composta pelos escritores Cláudio Villa e Orlando Paes Filho; Delfín, coordenador editorial da Editora Aleph; Sílvio Alexandre, organizador da Fantasticon; Rogério de Campos, editor-chefe da Editora Conrad; e Gianpaolo Celli, editor-chefe da Tarja Editorial. A mediadora foi Ana Cristina Rodrigues, escritora e presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC). Entre as questões levantadas no encontro, estavam a produção nacional e os novos rumos seguidos por escritores estreantes; a dúvida de escrever ou não a respeito de fantasia medieval, uma vez que o Brasil não viveu esse período histórico; e a busca de uma identidade nacional, com o uso de mitologias próprias, como personagens de lendas indígenas.

De acordo com Sílvio Alexandre, há 25 anos, o mercado editorial brasileiro era muito diferente. “Naquela época, a fantasia já tinha seu público cativo, mas era bem restrito a adolescentes e jovens ávidos por quadrinhos como Sandman.” Hoje, o leitor desse gênero literário se ampliou, e muito. Formalmente, não existem estudos do mercado editorial sobre o perfil desse público, mas o que as editoras sabem é que pessoas de todas as idades se interessam pelas intrigantes histórias fantásticas e fazem delas objeto de comentário.

O aumento de demanda pelo fantástico fez com que diversas editoras brasileiras abrissem suas portas para novos talentos e publicassem mais intensamente obras de fantasia. Atualmente, uma safra renovada de bons autores nacionais e internacionais começa a aparecer. Segundo Rogério de Campos, até a popularização de Tolkien, as editoras e a mídia em geral davam pouquíssima importância aos trabalhos do gênero. “Os autores não conseguiam espaço para publicar ou divulgar seus livros. A fantasia ficou por muito tempo à margem, classificada como juvenil ou ‘muito esquisita’. Hoje, o cenário é outro, finalmente.”

Entre os autores brasileiros atuais, destaque para Helena Gomes, autora dos livros Lobo Alpha, O arqueiro e a feiticeira e Aliança dos povos; Orlando Paes Filho, escritor dos romances históricos de fantasia da série Angus Saga e de Sangue de gelo, Diário de um cavaleiro templário e Senhoras da guerra; Cláudio Villa, autor de Pelo sangue e pela fé, seu primeiro livro; e Nazarethe Fonseca, que estreou com Alma e sangue.

Escapismo
Para Rogério de Campos, a pouca importância dada ao imaginário na sociedade moderna influenciou o público a buscar a literatura fantástica. “Após a popularização da fantasia, que ocorreu com Tolkien, as obras desse gênero passaram a ser mais consumidas por adultos, que antes as viam como um escapismo sem nexo. Coisa para crianças.” Ana Cristina Rodrigues contrapõe o pensamento de Campos dizendo que os adultos ainda hoje preferem obras com as quais possam se identificar imediatamente. “Por isso é que Bridget Jones e as novelas, por exemplo, fazem tanto sucesso. A literatura fantástica, para a grande maioria, tanto no Brasil quanto no exterior, ainda é vista como escapismo.”

Já Delfín aposta no crescente interesse do leitor pela fantasia “Acho muito bom que a procura por literatura fantástica esteja crescendo em nosso país. Até as novelas de TV colocam elementos fantásticos, como vampiros e mutantes em seus enredos, antes dedicados somente aos romances e às intrigas.”

Profissão: escritor
No auditório lotado da Cultura, outra questão levantada para debate foi a profissão de escritor. Cláudio Villa acredita que se tornar autor requer muita persistência, ousadia e cuidado. “Assim que seu primeiro livro estiver pronto, lute para que ele seja publicado, e não desista! Sempre falo que ser escritor é 1% inspiração e 99% transpiração, como dizia Picasso em relação às artes plásticas”, aconselhou. O editor Gianpaolo Celli afirmou que está muito feliz com o mercado de fantasia no Brasil. “O cinema tem apostado no gênero e velhas obras estão sendo reeditadas. Isso é ótimo, porque instiga o leitor a procurar mais livros do gênero e possibilita também o surgimento de novos talentos.”

Realismo mágico
Fora do Brasil, grandes escritores também ajudam a fomentar a fantasia. Entre eles. Neil Gaiman, autor Belas maldições e os novíssimos Coraline Graphic Novel Edition e The Graveyard Book (lançamento em outubro), entre outros; Terry Pratchett, com O fabuloso Maurício e seus ratos letrados; e George R. R. Martin, autor de inúmeras obras, entre as quais A Storm of Swords e A Feast for Crows. No exterior, surgem ainda novos subgêneros dentro do fantástico, como a New Weird Fiction, cujo principal representante é China Miéville, autor de The Scar e do premiado Perdido Street Station; e o Cyberpunk, de William Gibson, um de seus fundadores, que escreveu entre outras obras Neuromancer e Reconhecimento de padrões; e Michael Bruce Sterling, com sua obra Mirrorshades.

Do Manuscrito de Saragoça, de Jean Potocki, a Harry Potter, a literatura fantástica oferece uma variedade imensa de mitos e atrações insólitas de um gênero específico, que ainda não é totalmente definido na cabeça do leitor. Há quem diga que a fantasia está no limiar entre ficção e terror e que se iniciou no século 19 na Inglaterra, como forma de se contrapor ao período Iluminista – leia-se racionalista – do século anterior. Outros a chamam de literatura gótica, numa referência à ambientação escolhida pela maioria dos autores para suas histórias, como cemitérios, ruínas e castelos escuros. Gérard Bessière, padre e autor de Jesus, o Deus surpreendente, a define como “a que nasce daquilo que não pode ser explicado através da racionalidade e do pensamento crítico”.

Entre os maiores escritores da literatura fantástica mundial, estão E. T. A. Hoffman, autor de contos raros, compilados nos livros Cuentos 1 e Cuentos 2; a mexicana Laura Esquível, autora de A lei do amor, Malinche, Como água para chocolate. Na América Latina, o estilo foi chamado de “realismo mágico” e reagia ao realismo/naturalismo que imperava até o começo do século 20. O colombiano Gabriel García Márquez, com sua obra Cem anos de solidão é seu mais famoso representante. Além de Jorge Luis Borges, com Antologia de la literatura fantastica, Discussão, O aleph, Ficções, Outras inquisições, e outros não menos importantes, como o cubano Alejo Carpentier e o guatemalteco Miguel Ángel Astúrias, Nobel de Literatura de 1949, autor de Hombres de maiz e de El senõr presidente, considerado o pioneiro do realismo mágico no Novo Con-tinente. Vale lembrar que o argentino Borges não só foi autor, mas também estudou a fundo a fantasia como gênero literário.

É interessante perceber que, entre a literatura fantástica européia e a americana, existe uma diferença básica. Os autores europeus têm a preocupação de preservar o real quando algo sobrenatural ocorre, mesmo que a explicação apareça apenas no final da obra. Já na literatura fantástica da América Latina, isso não ocorre. O verossímil funde-se com o inverossímil e se torna natural na trama, sem muitas explicações ou contestações.

No Brasil, se tomarmos o exemplo dos livros de Orlando, fica clara a procura de resgatar valores como coragem e bravura por meio de sagas vividas por guerreiros medievais. “Mesmo trabalhando com o inusitado e as situações fora da realidade, o escritor pode levar mensagens e valores facilmente aplicáveis ao cotidiano dos leitores.”

Fonte: Revista da Cultura

2 comentários em “O maravilhoso mundo da Imaginação

  1. Fico com dragões e bruxas…acho o máximo os dois!
    Ahhh! A receita do capuccino..se tiveres tempo faça e me diz se gostastes.
    HUmm! Posso linká-la?

    beijos

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