Setembros

A primavera nascerá um pouco mais tarde esse ano, um pouco mais tarde sobre minhas vãs ilusões, sobre minhas solitárias lembranças de você. Porquê você me deixou e levou todos os setembros”

. Claudio Rabello .

Desistir

Não sei se quero descansar por estar realmente cansada ou se quero descansar para desistir”

. Clarice Lispector .

“Gosto tanto de você”

Calibã disse apenas: “Gosto tanto de você…”
E não havia dúvida, tinha mais dignidade do que eu, e senti-me pequena, mesquinha. Estava sempre a odiá-lo, a provocá-lo, a troçar dele, e nunca procurei esconder meus sentimentos. Que estranho! Ficamos sentados um em frente do outro e senti algo como se estivesse muito próxima dele, algo, de resto, que já sentira antes – não se tratava de amor, atração ou simpatia, isso sabia eu. Algo como uma união de destinos. Como se estivessemos os dois abandonados numa ilha deserta, numa jangada – juntos. Não querendo estar juntos, mas juntos…
Sentia também, terrivelmente, a tristeza da sua vida. E a tristeza das vidas de sua miserável tia e prima, dos parentes da Austrália. O tremendo peso morto de uma tal família. Lembrei-me daqueles desenhos de Henry Moore das multidões amorfas nas plataformas subterrâneas do metrô durante os bombardeios em Londres. Pessoas que não viam, que não sentiam, que nunca tinham dançado, desenhado, chorado ao som da música, que não sabiam o que era sentir o mundo, o vento do oeste. Pessoas que, no verdadeiro sentido, não existiam.
Só aquelas palavras, ditas e sentidas: Gosto tanto de você…
Palavras sem esperança, que ele dissera, como poderia ter dito: tenho um câncer.
O seu conto de fadas.

Miranda, personagem de
John Fowles in O Colecionador

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Tudo por um sonho…

Fica estabelecida a possibilidade de sonhar coisas impossíveis e de caminhar livremente em direção aos sonhos”

. Luciano Luppi .

Prêmio Dardos

Recebi o prêmio do Alec do Infaces, que escreve muito bem e mantém um blog super interessante que vale conferir! Fiquei imensamente feliz e lisonjeada por mais esse reconhecimento.

Prêmio Dardos

Significado:

Reconhecer os valores que cada blogueiro mostra a cada dia, seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. Em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras”

Para recebe-lo, tem de se obedecer as seguintes condições:

  • Aceitar exibir a distinta imagem
  • Linkar o blog do qual recebeu o prêmio.
  • Escolher quinze 15 blogs para entregar o Prêmio Dardos.

Então lá vai:

DZ, John Doe, Lu, Ari, Helena, Samacc, Dauri, Ana Luísa, Dani, Sweet T, Roberta, Nathália, Cris, Lucas, Boteco Literário

=D Tks Alec!

Infância [fatos quase esquecidos]

Quando pequena eu conversava com um homem ao qual não dei nome algum. Não me lembro o que falava com ele, e nem podia divisar-lhe o rosto. No começo, o via de terno e ele flutuava no teto do meu quarto, as vezes ficava parado à porta. Depois só lhe via a sombra, branca quando estava escuro, negra quando estava claro. Ele estava sempre lá, a espreitar-me nas janelas enquanto eu brincava. Nunca mais o vi. E estranhamente ele me faz falta. Essa sombra de companhia que me acompanhava. Não me deixava sentir tão sozinha. Talvez fosse um anjo, talvez não.

Quando fui morar em Minas Gerais, eu ficava andando na minha caloi vermelha no fundo do quintal sozinha e conversando com Deus. Ah, como Ele já me ouviu. Dava voltas infindas num quintal pequeno, sobre aquela bicicleta que fora meu presente de natal e falava em voz alta com Deus, como se fosse uma pessoa viva e estivesse sentado me olhando. Talvez estivesse. Sou filha única e nunca tive nenhum problema com isso. Gostava de ser única, de ficar sozinha, de não dividir meus pais com ninguém. Egoísmo sim, é verdade, mas isso persiste até hoje. Quanto ao restante, divido tudo. E eu sempre fui um pouco triste, um pouco dramática. E ficava sozinha no meu quarto ouvindo Elton John (eu só tinha 11 anos) no toca-disco que meu pai me dera e chorando sozinha, uma tristeza que não sabia explicar. Ainda não sei. 

Eu lembro de ter tido alguns amigos. Eles apareciam de vez em quando, brincavam, iam embora. Me fizeram uma festa surpresa uma vez e eu fiquei muito feliz. E pulava amarelinha sozinha no fundo do quintal, e conversava com os pardais e ficava espantando aquele beija-flor grandão que não deixava os menores chegarem à mistura adocicada que minha mãe fazia. E comia goiabas pequenas e azedas do pé da vizinha de baixo que tinha um tatu com o qual eu conversava da janela do meu quarto e depois soube que o marido dela o tinha matado para comer. Chorei muito e por dias. Nessa época, meu pai cantava  Why Worry do Dire Strait pra eu dormir (e eu já tinha 11 anos). Lembro que ficava lutando contra o sono só pra que ele continuasse ali cantando. Mas eu sempre perdia e adormecia. Antes disso, quando morávamos em Guarulhos e ele vinha só de quinze em quinze dias, eu costumava chorar quando ele entrava em casa e só parava quando ia embora. Acho que não podia suportar a idéia de vê-lo partir e eu sempre sofri por antecedência.

Tinha a mania de vestir as roupas da minha mãe e calçar seus lindos sapatos de salto. Ficava andando pela casa, vestida de muito mais velha, inventando histórias. Sempre inventei histórias. Ficava fazendo cenas, inventando diálogos. Acho que isso ajudou o meu gosto pelo estudo, pois sempre gostei muito de estudar. Fui pra escola aos 2 anos. Minha mãe conta que eu queria ir porquê via as outras crianças indo e que só chorei porquê tinha que voltar pra casa, tinha adorado a escola. E estudava muito mesmo, desde que me lembro e  lia muito também.  Acho, não, tenho certeza que isso foi incentivo da imagem que tenho da minha mãe, sempre com um livro nas mãos. E sempre tinha aquela folha, aquela no final do caderno onde estavam aquelas palavras, daqueles sentimentos que eu era nova demais pra entender. Ainda não entendo. Mas já escrevia e depois jogava tudo fora (como ainda faço hoje). E sempre tive diários, adorava (adoro) escrever sobre os meus dias. E quando não tinha nada interessante pra escrever, eu inventava.

Meus pais mudavam constantemente por causa do trabalho do papai (topógrafo) e eu adorava. Era um novo lugar, novas pessoas, mais coisas que eu podia escrever e histórias a inventar. A professora da terceira série inventou que a sala iria escrever um livro e cada aluno tinha que fazer uma historinha para colocar no livro. Eu escrevi dez histórias. Meu nome só saiu em uma, as demais foram distribuídas para os alunos que não tinham feito. E me lembro tão claramente da biblioteca da escola como não me lembro dos outros lugares. Ficava em frente ao pátio do recreio e enquanto meus amiguinhos brincavam ou comiam eu ficava escolhendo os livros que leria. Lia um livro atrás do outro e as professoras achavam que eu só fazia graça e então me mandavam fazer resumos. E eu adora fazer resumos. Um fato engraçado é que tinha uma punição pra quando as crianças iam ao banheiro no primário (cada coisa que essas professoras inventavam, hoje em dia não podem nem falar direito com os alunos, naquela época tinhamos mais respeito), cada vez que fossemos ao banheiro tínhamos que fazer uma redação e escrever cada letra de uma cor. Eu ia várias vezes ao banheiro só pra ter que escrever. É claro que minha professora descobriu e me disse que eu podia trazer uma história por dia se não fosse mais ao banheiro. Ela conseguiu o que queria e eu também.

Foi quando completei 12 anos que tive a fase mais maravilhosa da minha vida. Eu morava em um condomínio em Jacareí e fiz tantos amigos, tantos que perdia as contas. Brincávamos de tantas coisas, inclusive de colecionar joaninhas. Pegávamos potes das nossas mães e montávamos verdadeiros jardins maravilhosos para as nossas joaninhas. Mas ainda assim, eu insistia em brincar sozinha e pegava minha Emily e entrava no carro do papai e ficava inventando histórias de viagens miraculosas até que alguém me achava e o mundo de fantasias se desfazia como por um passe de mágicas. Mas eu fui muito feliz lá. E  também foi lá que me apaixonei pela primeira vez. Escrevia o nome dele em todos os meus diários.  Ficava deitada no sofá ouvindo música e imaginando como seria nosso casamento. Ah, esses instintos femininos que nos cercam. E foi a partir daí que eu comecei a sofrer de verdade…

{ Lyani } 26/11/2006

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Internet+livro+spam = Bob Servant

Por Paloma Sá

O jornalista e escritor escocês Neil Forsyth, como todos nós mortais que possuímos uma conta de e-mail, recebe spams, ou melhor, muitos spams. O limpador de janelas escocês Bob Servant, 70 anos, ganhou um computador numa rifa, também recebe muitos spams, passou a se corresponder com todos os spammers durante meses, fez um site e publicou o insólito livro Delete This at Your Peril com esse conteúdo. O que tem em comum entre os dois? Spams? Não só isso. Bob Servant, seus e-mails, site e livro são criação de Neil Forsyth, que após umas cervejas brincava de responder aos spammers.

Fonte: B.Coolt

Pequenas Alegrias

Muitas pessoas perdem as pequenas alegrias enquanto aguardam a grande felicidade”

. Pearl S. Buck .

Silêncio

É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar.

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.

A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.

Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.

Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.

O coração bate ao reconhecê-lo.

Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta – como ardemos por ser chamados a responder – cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga – como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.

Até que se descobre – nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.

Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror – o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.

Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.

Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.

Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo – de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia – ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.

Clarice Lispector in Onde estivestes de noite?

Cais

♪ Para quem quer se soltar invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor e sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar ♪

. Milton Nascimento .