Livros e Memórias

Há um tempo atrás quando trabalhava como profissional autônoma em arquivos, passei um dia todo na Fundação Pró Memória, buscando levantar dados sobre a história do tabelionato de Indaiatuba. Manuseei (com todo o cuidado possível e impossível) livros de notas, escrituras e procurações do século XIX e XX (1833 a 1950). Que impressionante a beleza daqueles manuscritos. Aquelas linhas escritas à bico de pena em papel, hoje tão frágil. Ah quantas coisas não aconteceram enquanto aquelas linhas estavam sendo escritas. Quantas memórias registradas e guardadas ali. E me entristece saber que nesse nosso país a preservação da memória não tem a menor importância. A Restauração (processo caríssimo) então, nem se fala. Lembro de uma reportagem no Jornal Nacional sobre as obras raras que são roubadas de arquivos e bibliotecas e que chegam a ficar anos entulhadas em banheiros e depósitos da Polícia Federal antes de voltarem a seus donos por total falta de organização do Patrimônio Nacional. Isso me deixa horrorizada e indignada. Livros e documentos únicos, que jamais serão encontrados em qualquer outro lugar, que carregam uma história sendo tratados dessa forma, jogados pelos cantos sem importância nenhuma. Me indigna até mesmo a falta de importância dada aos livros atuais. Quem é que nunca usou livro como pasta? Entulhando o pobre do livro de papéis, cartões e outras coisas? Quem é que nunca usou livro de peso para papéis? Ou para escorar uma porta? Quem é que nunca leu um livro enquanto comia ou bebia algo e acabou derramando e manchando suas páginas? Quem nunca dobrou o cantinho da página pra marcar onde estava lendo? Ou pior, quem nunca riscou, sublinhou ou usou marca-texto para marcar as partes mais importantes? Graças a Deus, eu posso responder com orgulho que nunca fiz nenhuma dessas coisas. Acho que meu instinto de bibliotecária nasceu comigo. Eu amo os livros e maltratá-los é um crime pra mim, afinal são como se fossem vivos. Converso com eles como um jardineiro conversa com suas plantas. Livros são sagrados. Fico indignada quando fazem mal a eles, rasgando suas páginas, recortando figuras ou coisas bem piores que isso.