“Gosto tanto de você”

Calibã disse apenas: “Gosto tanto de você…”
E não havia dúvida, tinha mais dignidade do que eu, e senti-me pequena, mesquinha. Estava sempre a odiá-lo, a provocá-lo, a troçar dele, e nunca procurei esconder meus sentimentos. Que estranho! Ficamos sentados um em frente do outro e senti algo como se estivesse muito próxima dele, algo, de resto, que já sentira antes – não se tratava de amor, atração ou simpatia, isso sabia eu. Algo como uma união de destinos. Como se estivessemos os dois abandonados numa ilha deserta, numa jangada – juntos. Não querendo estar juntos, mas juntos…
Sentia também, terrivelmente, a tristeza da sua vida. E a tristeza das vidas de sua miserável tia e prima, dos parentes da Austrália. O tremendo peso morto de uma tal família. Lembrei-me daqueles desenhos de Henry Moore das multidões amorfas nas plataformas subterrâneas do metrô durante os bombardeios em Londres. Pessoas que não viam, que não sentiam, que nunca tinham dançado, desenhado, chorado ao som da música, que não sabiam o que era sentir o mundo, o vento do oeste. Pessoas que, no verdadeiro sentido, não existiam.
Só aquelas palavras, ditas e sentidas: Gosto tanto de você…
Palavras sem esperança, que ele dissera, como poderia ter dito: tenho um câncer.
O seu conto de fadas.

Miranda, personagem de
John Fowles in O Colecionador

O colecionador traz a história de um jovem colecionador de borboletas que é funcionário municipal, consciente de sua inferioridade, tanto em nível educacional como em relação à sua posição social. Depois de ter ganho uma fortuna na loteria esportiva, mantém como prisioneira uma jovem de sua cidade natal, que foi sempre, para ele, a mulher ideal inatingível. Parece um livro de trama simples, mas ao contrário, é forte e envolvente, principalmente a parte em que Miranda começa a escrever seu diário sobre seus dias no porão da casa de seu sequestrador.

John Fowles nasceu em Leighton-on-Sea, Essex, em 1926, onde viveu até o início da Segunda Guerra. Estudou línguas modernas em Oxford e, depois de formado, deu aulas de inglês no Reino Unido, na França e na Grécia. De 1963 até sua morte, em 2005, foi escritor em tempo integral. É autor de seis romances, entre eles O Colecionador (1963) — que lhe deu reconhecimento internacional — e The Magus (1966), além de livros de contos, poesia, ensaios e adaptações para o teatro. A Mulher do Tenente Francês (1969), sua obra mais conhecida, recebeu o Silver Pen Award e o W. H. Smith Literary Award, e foi adaptada para o cinema em 1981, com roteiro de Harold Pinter. (Editora Objetiva)

5 comentários sobre ““Gosto tanto de você”

  1. Nathália disse:

    Eu acho que já li esse livro. Ou já ouvi alguém me falar para lê-lo.
    Ai, que memória de peixe. Mas acho que tá mais pra 2ª opção.
    É, vou procurá-lo.

    Beeijo!
    E obrigada pelo presente!

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