29.09 [08] – 100 anos sem Machado de Assis

O LEITOR COMO O “X” DA QUESTÃO

Em 29 de Setembro completamos 100 anos sem Machado. A melhor homenagem é ler ou reler a obra genial do escritor, que encarou o público como fator fundamental para a produção literária no País.

Hélio De Seixas Guimaraes


“Atingir os pontos nevrálgicos do leitor.” Este parece estar entre os principais objetivos da obra de Machado de Assis, conforme já disse um de seus grandes intérpretes, Augusto Meyer, que escreveu isso ainda na década de 30. O diálogo muito direto com quem lê é, de fato, uma das grandes obsessões machadianas e atravessa praticamente toda a sua obra. Ele marca todos os gêneros praticados por Machado, da crônica ao teatro, do conto ao romance. Mas é principalmente neste último que o leitor ocupa um lugar central e dramático, a ponto de, a certa altura, tomar a forma de “X”, tal como se dá com a idéia fixa de Brás Cubas.

A colocação do leitor como problema crucial da escrita coincide com a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas, em 1881. O romance, que alterou os rumos da literatura produzida no Brasil, colocando-a num outro patamar de qualidade, começa, não por acaso, com aquele célebre prólogo, “Ao leitor”. Não se trata de um prólogo como outros, assinado pelo autor Machado de Assis, ou pelas iniciais M.A., que antecedem o início da narração ficcional. Esse prólogo já aparece integrado à matéria ficcional e vem assinado por Brás Cubas, que também é narrador e personagem principal do romance. A partir dali, o leitor torna-se figura fundamental e matéria constitutiva da ficção de Machado de Assis.

Essa nova disposição (ou será indisposição?) em relação ao leitor fica clara nas palavras iniciais do romance, que vale a pena ler mais uma vez:
“AO LEITOR
Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. […]

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.”

Brás Cubas
Inaugura-se aqui, com a ameaça do piparote, a agressividade extrema no trato com os interlocutores. Estes não só serão contrariados em suas expectativas, como já acontecia nos romances anteriores, mas serão freqüentemente chamados de obtusos, teimosos, afoitos, sensaborões, caluniadores etc. Machado renovava o romance brasileiro em muitas frentes, introduzindo na prosa brasileira o leitor malicioso, imprestável, preguiçoso, impaciente… No conjunto, essa galeria formava um público de qualidade duvidosa e numericamente exíguo, o que também representava uma inovação no plano ficcional.

Questão crônica
Também ao perguntar quantos seriam – Cinqüenta? Vinte? Dez? Cinco? –, Brás Cubas (e quem sabe o próprio Machado?) chamava atenção para uma questão crônica e crucial no Brasil e na literatura brasileira: a exigüidade do público e a falta do hábito da leitura. A situação desfavorável à ampla circulação das letras há muito era intuída pelos escritores, que em cartas, crônicas e artigos reclamavam da pouca repercussão dos seus livros. Muitas vezes atribuíam isso à indiferença do público, que preferia os títulos estrangeiros, sobretudo os franceses. Até certo ponto, isso de fato ocorria, na medida em que a elite era capaz de ler também em francês. Entre um livro francês e um brasileiro, que quase sempre tinha na França o seu modelo, muita gente não vacilava e preferia ir direto ao modelo. Numa das muitas polêmicas que manteve nos jornais do seu tempo, José de Alencar escrevia: “Os brasileiros da Corte não se comovem com essas futilidades patrióticas; são positivos e sobretudo cosmopolitas, gostam do estrangeiro; do francês, do italiano, do espanhol, do árabe, de tudo, menos do que é nacional.” Vinte anos mais tarde, em 1895, Adolfo Caminha continuava lamentando a fria acolhida dedicada aos livros nacionais: “A mocidade brasileira não lê obras nacionais; agarra-se no romance estrangeiro com um entusiasmo verdadeiramente lamentável.” O problema da baixa ressonância, no entanto, não se resumia ao gosto. Tinha causas mais estruturais, que por muito tempo ficaram desconhecidas, já que não havia dados e informações que dessem uma dimensão real do problema. Foi justamente enquanto Machado produzia sua obra que se revelou que mais de 80% da população brasileira não sabia ler. Isso se deu com o primeiro recenseamento geral do Império, cujos resultados foram divulgados em agosto de 1876, quando Machado já publicava seu terceiro romance, Helena, e quatro anos antes da publicação de Memórias póstumas.

O censo indicava que apenas 16% da população brasileira era alfabetizada. A porcentagem tornou-se ainda menor em 1890, quando se apurou que 14,8% da população sabia ler e escrever. Ainda segundo o censo de 1872, apenas 12 mil freqüentavam a educação secundária e havia 8 mil bacharéis no País, número ínfimo numa nação de quase 10 milhões de habitantes.

Os números caíram como um raio sobre o público letrado. De norte a sul do País, as reações misturavam indignação e surpresa, resumidas na seguinte frase: “Somos um povo de analfabetos!” O próprio Machado escre-veu uma crônica sobre os resultados do censo, perguntando sobre a representatividade das leis e dos discursos num país em que a esmagadora maioria da população estava excluída de qualquer processo que envolvesse uma relação direta com a palavra escrita.

Nesse panorama verdadeiramente desolador, quantos seriam os possíveis leitores de um romance? E qual seria a qualidade deles?

Basta verificar o modo como a obra de Machado de Assis circulou e foi recebida pelos seus contemporâneos para se ter uma idéia das respostas possíveis a essas perguntas.

Inclassificável
Não resta dúvida de que Machado foi um escritor muito reconhecido e festejado por seus contemporâneos. Isso era uma realidade até muito antes de publicar Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899), hoje amplamente reconhecidas como suas obras-primas. Já nas décadas de 1860 e 1870, antes mesmo de estrear como romancista, Machado era muito respeitado como crítico, poeta e autor de teatro. Por outro lado, sabemos das dificuldades que os contemporâneos tiveram com sua obra, que não atendia às expectativas do tempo e não se adequava aos modelos literários mais prestigiosos do momento.

A princípio, a obra machadiana foi entendida como um grande capítulo de negativas, faltando a ela colorido de linguagem, movimentação de enredo, descrições de paisagens locais, comprometimento com as questões brasileiras etc., etc. Estas eram opiniões generalizadas entre os homens mais inteligentes e informados do tempo, como Sílvio Romero, Araripe Júnior e José Veríssimo. De maneira diferente, todos expressaram desconforto com a obra, que não sabiam como classificar.

Tudo indica, portanto, que além de mal compreendido Machado foi também pouco lido. Para além dos críticos literários que reagiram à sua obra, sabemos muito pouco, para não dizer que não sabemos nada, sobre o modo como ela teria sido lida por gente comum. Até hoje não veio à luz nenhuma carta de leitor ou leitora comum endereçada a Machado. Também não temos conhecimento de nenhuma correspondência nas seções de cartas das dezenas de jornais e revistas em que Machado publicou boa parte da sua obra ao longo de toda a vida.

Machado, por exemplo, lançou a primeira versão de Quincas Borba num jornal de moda, voltado para o público feminino, chamado A Estação. A edição do romance durou cinco anos e foi toda acidentada, com várias interrupções. Apesar disso, estranhamente, não há registro de nenhuma reclamação ou pedido de esclarecimento sobre essas interrupções, nem no próprio jornal, nem na correspondência até hoje conhecida de Machado. Helena, que foi dos romances mais populares do autor, teve uma primeira edição de 1,5 mil exemplares e só chegou à segunda em 1905, depois de 29 anos! Vale lembrar que Machado não era um dentre vários grandes escritores em atividade, mas o grande escritor brasileiro, uma espécie de chefe da literatura nacional, que havia muito ocupava os lugares mais proeminentes da vida cultural brasileira.

Claro que havia a divulgação em jornais e revistas, e que os livros, então muito caros, passavam de mão em mão. Mas quantos leitores poderiam formar esse público silencioso, que não deixou marcas de sua existência? É isso que Machado, por meio de Brás Cubas, parece perguntar a si mesmo e a seus leitores no famoso prólogo.

E a resposta não parece ter sido muito animadora.

As Memórias póstumas de Brás Cubas foram recebidas com um silêncio quase sepulcral. Apenas três notas e três pequenos artigos saudaram o romance. Em quase todos, é notável o tom de perplexidade, vazado nas indagações dos críticos: será um romance? Um livro de filosofia mundana? Uma autobiografia?

A primeira edição de Brás Cubas em livro teve 400 exemplares, como consta de recibo dado ao editor Garnier – e tudo indica que eles tenham sido suficientes para atender à demanda durante 15 anos, até 1896, quando finalmente saiu a segunda edição!

O próprio Machado parece ter esmorecido logo depois do lançamento de Memórias póstumas de Brás Cubas, a ponto de se queixar em carta para o cunhado, Miguel de Novais. Na resposta, datada de julho de 1882, o parente tentava reanimá-lo: “Parece-me não ter razão para desanimar e bom é que continue a escrever sempre. Que importa que a maioria do público lhe não compreendesse o seu último livro? – há livros que são para todos e outros que são só para alguns – o seu último livro está no segundo caso e sei que foi muito apreciado por quem o compreendeu – não são, o amigo sabe-o bem, os livros de mais voga os que têm mais mérito. Não pense nem se ocupe da opinião pública quando escrever – a justiça mais tarde ou mais cedo se lhe fará, esteja certo disso.”

Convite à reflexão
Diante disso, também não surpreende que Machado, em três ocasiões, tenha se empenhado pessoalmente em ser traduzido para o alemão, como se buscasse fora do Brasil um tipo de acolhida que não encontrava aqui. Foram três tentativas frustradas. Só nos últimos anos de vida as Memórias póstumas e Esaú e Jacó saíram em Montevidéu e Buenos Aires, respectivamente em 1902 e 1905.

O interessante e notável é que Machado, ao invés de buscar tapar o sol com peneira, ou reclamar pelos cantos, como fizeram muitos escritores antes e depois dele, soube encarar de frente a nossa carência e o nosso despreparo como leitores, trazendo o problema da comunicação literária para o centro da sua ficção. Ao fazer uma literatura que coloca o leitor e a leitura como um problema complexo e fundamental para o processo literário, Machado nos convida à reflexão crítica sobre as condições difíceis da produção e da difusão da literatura no Brasil, o que vale tanto para o século 19 como para os dias de hoje. Em pesquisa recente do Instituto Pró-Livro, 45% da população declara não gostar de ler, num país onde quem lê compra em média 1,2 exemplar por ano.

Nesse sentido, reler Machado de Assis pode nos ajudar a construir uma perspectiva histórica para a questão da leitura, que ainda hoje permanece como problema urgente e nevrálgico, a ser enfrentado sem subterfúgios. ©

Fonte: Revista da Cultura

8 comentários sobre “29.09 [08] – 100 anos sem Machado de Assis

  1. Roberta Cristina Lopes disse:

    E mais uma tremenda aula neste cantinho que eu gosto tanto de visitar…

    Machado realmente é uma ótima pedida….um gênio à frente dos de sua época…e ler uma matéria tão maravilhosa como é essa foi extremamente prazeroso…

    Uma homenagem que só poderia vir mesmo de suas mãos minha querida amiga, sensível e talentosa….

    Bjos

  2. Robson Ribeiro disse:

    Sim, Lyani! Machado é fundamental. Infelizmente a maioria fica limitada à leitura de seus romances mais conhecidos, mas o Velho Bruxo escreveu mais de 500 poemas e 200 contos!!!

    É preciso ir atrás desse material e conhecer a fundo esse nosso gênio, que é muito, muito atual.

    Ainda há muito para se conhecer de Machado.

    Beijos!

  3. O Trovador disse:

    Palmas, palmas ma cheri! Um excelente post… Em um país como o nosso onde a literatura nacional não é reconhecida e o que vigora são as novelas de TV, nada como um tabefe desse na cara de quem diz que “não gosta de ler” (mas acho que só não gosta de ler quem tem dificuldade) e não dá a minima. E numa data como essa! Ótimo post ma cheri… Vou continuar a ler-te.

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