Quem inventou o Pecado?

XII Desafio Incubadora Literária
Tema: Pecado
Período de Votação: 23/08 a 25/08

“Eu sinto saudades de você”, me permiti dizer outro dia, no meio de uma refeição solitária, à noite, em frente à TV. Disse baixinho, como se fosse um pecado…

E era. Quem inventou o pecado? E por que justamente aquele sentimento sufocado em meu peito tinha que ser um pecado? Uma lágrima se soltou dos cílios pesados e eu não quis erguer a mão para enxugá-la, porque sabia que esse gesto só traria outras mais.

Imóvel, com o coração latejante, permiti que sua presença invisível se apossasse de minha mente e de meu corpo. Simplesmente não pude impedir você, que mesmo estando tão longe e distante, surge tão forte. Sinto como se você segurasse minha mão vacilante, secasse a lágrima do meu rosto pálido com o polegar, me olhasse conhecendo-me como se estivesse dentro de mim. E eu mergulhando em seus olhos de mel, chá e biscoitos de leite, numa tarde resplandecente em que nada disso fosse, de fato, um pecado mortal. 

Imaginei seus braços rodeando meu corpo, puxando-me para mais perto, encostando nossos corações, já unidos pelas batidas ritmadas de culpa e de amor. E seus lábios encostariam displicentes em meu ombro, quando você deitasse seu rosto sobre ele. E seus cabelos de tons claros roçariam meu rosto, trazendo seu perfume para mais perto, me entorpecendo, me fazendo suspirar e escorregar mais para dentro do seu abraço. E eu desejaria que fosse mentira aquele pecado que nos aquecia a pele, e que não fossem reais aqueles laços que nos uniam de uma forma tão cruel: juntos para sempre, separados para sempre. 

Eu não tinha mais qualquer poder sobre meus pensamentos quando imaginei uma vida juntos, distante daquele mundo que nos condenava: uma casa singela, grama verde, flores e, quem sabe, duas crianças correndo pela casa, com seus risos ecoando entres os lindos raios de sol adentrando a janela. Você, sentado no sofá com aquele sorriso todo seu, me puxaria para seu colo e encostaria seus lábios macios nos meus, num beijo sem culpa, sem peso, sem dor. Só o amor nos cercando por todos os lados. 

Mas então, quando dei por mim, era tarde demais para amainar a dor. Me vi sozinha na sala, de novo, o rosto molhado de lágrimas, o coração repleto de vazio, medo e culpa. Onde você está nesse momento? Será que pensa em mim também? Essa distância e ausência doí tanto, como se uma parte de mim tivesse sido levada pra longe. 

Num impulso, levantei-me, revoltada contra aquele mundo hipócrita e cheio de imposições. Não me lembrei do prato no colo e o vidro estilhaçou no chão em trezentos e trinta e sete pedaços. Em trezentos e trinta e sete pedaços também estava o meu coração. Abaixei para recolher os cacos, cortando-me acidentalmente. Fiquei imóvel, observando o sangue escorrer por minha mão e pingar no chão claro da sala. Aquela comunhão entre plaquetas, glóbulos vermelhos e brancos que desde sempre designaram meu destino, minha sentença cruel.

Aquele mesmo sangue, idêntico, que corre por suas veias também. Esse é o meu pecado mortal: o amor. E por isso doí tanto. Como o amor pode ser um pecado? E é. Isso nunca mudará, como jamais mudará a composição de meu sangue, como jamais mudará o meu amor por você, o meu irmão.

{ Lyani } 10/09/2008
Inspirado no Mangá Angel Sanctuary de Kaori Yuki
Revisado por Lu Oliveira

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Meme: 4

Vi no blog Retrato e resolvi postar:

 

Quatro empregos que eu já tive:

Secretária, Bibliotecária, Arquivista e Assistente de Centro de Informação.

Quatro filmes que eu assisto sempre que passam:

O Morro dos Ventos Uivantes, O Jardineiro Fiel, O Fantasma da Ópera, A Casa dos Espíritos

Quatro lugares que eu já morei:

Guarulhos – SP, Itabirito – MG, Jacareí – SP e Campinas – SP

Quatro programas de TV que eu gosto:

Lost – AXN, House M.D. – Universal, The Big Bang Theory – Warner, Desperate Housewives – Sony

Quatro pessas que me mandam e-mail regularmente:

Priscilla, Flávia, Ricardo, Lucieide

Quatro coisas que faço todo dia sem falta:

Blogar, Ler, Ouvir música, Assistir seriados

Quatro comidas favoritas:

Hamburger caseiro (feito pelo marido), Macarrão com ovos (também feito pelo marido), Arroz com Suan (feito pela mamãe), Tutu de Feijão (feito pela vovó)

Quatro lugares onde eu gostaria de estar:

Ilha Grande – Angra dos Reis, Fernando de Noronha, Vancouver – Canadá, Paris – França

Duas pessoas que eu desafio a postar isso:

Vou fazer como a Sandra e deixar livre pra quem quiser fazer

=D

Tem dias…

♪ Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu ♪

. Chico Buarque de Holanda .

Verdadeiro na escrita

Tem de se ser verdadeiro na escrita, porque os leitores sentem. A mentira é impossível na boa literatura. E o que procuro, mais do que a beleza ou qualquer outra coisa, é a verdade, livro após livro, tentando desvendar um pouco mais de mim e esperando que essa possa ser uma forma de desvendar alguma coisa dos outros e que eles também se vejam reflectidos nessa procura que faço”

. José Luís Peixoto .

Bibliotecas

Um dia veio uma peste e acabou com toda vida na face da Terra:
Em compensação ficaram as Bibliotecas…
E nelas estava meticulosamente escrito o nome de todas as coisas!”

. Mário Quintana in As Bibliotecas, Preparativos de Viagem, 1987 .

Presente Especial

Ganhei um presente especial da minha mãe, um livro que tenho muito carinho: “A mulher que matou os peixes” da Clarice Lispector. Já falei sobre esse livro aqui e desde que o li me comprometi a dá-lo ao meu filho(a) para que desde cedo tivesse contato com Clarice. Desejo realizado pela vovó que fez até uma dedicatória para o futuro neto(a).

Junto com esse presente especial veio um segundo, também de Clarice:

A forma mais eficiente de ser uma mulher atraente e bela é tirar partido de suas características particulares e realçá-las”

Só para mulheres, é uma coletânea das colunas femininas assinadas pela escritora sob os pseudônimos de Tereza Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares para os jornais Correio da Manhã, Diário da Noite e Comício. Organizado por Aparecida Maria Nunes, o livro tem delicioso tom de cumplicidade, como uma conversa entre amigas: conselhos, receitas e segredos daqueles que só nós sabemos e dividimos. Dicas de elegância e moda, soluções para pequenos problemas domésticos e os mais prosaicos assuntos do cotidiano feminino são tratados de forma íntima, com rara leveza.

Fonte:
Radar 55