O Silêncio do Adeus

Para Roberta
Sem pretensão, mas com carinho 

Você sequer me disse aquelas palavras que eu tanto temia ouvir: Adeus. Não, nosso relacionamento nunca precisou disso. Palavras. Tudo começou com um olhar e um beijo testando o gosto doce do sorriso. E numa tarde clara na praça nos demos as mãos para comprovar que era sério e seria duradouro. Em longos meses sabíamos tanto um do outro apenas em nos olhar e observar que foi natural quando você aceitou a chave do meu apartamento e se mudou aos poucos, trazendo as suas coisas mais queridas. E quando dei por mim havia você em todos os cantos. Me acostumei fácil demais a sua presença e as suas rotinas. Sabia tudo sobre você. Como você gostava de dormir com a TV ligada, e o pão de manhã que tinha que ser esquentado no microondas com manteiga e queijo, a roupa que você sempre deixava em cima daquela cadeira específica e tanto me irritavam. E principalmente o seu gosto particular por música italiana e filmes antigos que eu admirava. Você gostava de se jogar na nossa cama à tarde de domingo enquanto eu lia um dos muitos livros que me deu e depois de me irritar bastante fazendo cócegas, dormia. Muitas dessas tardes eu não resisti e fechei o livro deitando ao seu lado bem pertinho. Tudo aconteceu fácil demais entre nós, calmo e sereno como uma xícara de chá de erva cidreira. Me esforço pra lembrar as lágrimas que derramei enquanto estivemos juntos. Foram sete. De uma vez só. Uma briguinha boba sobre um ciumes bobo. E nunca mais. Você dançou comigo a valsa da minha formatura, foi padrinho da minha melhor amiga ao meu lado, segurou minha mão no enterro do meu avô, batizou a “nossa” sobrinha. E foi da mesma maneira silenciosa e doce que naquela segunda-feira chuvosa, no ponto do ônibus às 5:45h da manhã você me deu uma caixinha preta com um anel de noivado. Planejamos tudo juntos. As flores, o bolo, o local, os convidados. Não há quem não diga que foi a festa mais bonita que já se viu. E agora isso. Depois de dois anos de felicidade pura, sem aviso nenhum você chegou com esse olhar. Esse olhar com todas essas desculpas impossíveis de aceitar, com essa despedida seca e esse ponto final cruel. Não quis acreditar, fugi dos seus olhos, retorci as mãos no colo numa ânsia louca de gritar, mas não havia voz que pudesse expor a dor que os seus olhos me causavam. E muito pior que isso, era aquele seu gesto incessante de apertar os lábios. Uma mania sua que eu desconhecia. De repente você era um estranho pra mim e isso foi um choque muito grande. Quanto de você eu não sabia? Justo eu que achei que te sabia tanto. Você se foi sem dizer nenhuma palavra. Fiquei grata pelo seu silêncio familiar. Era algo de ti que eu conhecia bem…

Lyani }

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