De volta

O líquido gelado aqueceu o interior de seu corpo, enquanto a neve caía indiferente a seus sentimentos, fora do bar perdido num canto efêmero da cidade agitada e barulhenta. Mas nem mesmo o burburinho do bar e a agitação fora dele poderiam aguçar seus sentidos adormecidos agora. Nada poderia tirá-lo da profunda imobilidade, do silencio que feria uma alma já rasgada de dores. Virou a página do livro que lia e o som da página virando pareceu-lhe o único audível no local. Seus olhos percorreram as letras que descreviam horrores, sonhos, amores, desilusões, um resquício da vida de alguém, escondida entre as palavras, riscos, frases, camuflada nos sentidos translúcidos de meias-verdades. A pálida luz do bar antigo tingia as páginas amarelas, deixando-as com um tom morto de ouro velho afligindo-o ainda mais, mortificando-o, afundando-o num mar de angústia profundo. A dor, enfim, tornou-se tão insuportável que fechou o livro com força, chamando a atenção de alguns poucos, chacoalhando o copo de vodca e derrubando uma gotícula transparente sobre a capa dura e negra.  A gota deformou por alguns segundos o nome do autor antes de escorrer e pingar no chão pálido, perdendo-se assim como seus sonhos um dia. Não muito à vontade levantou-se, retirando a carteira da jaqueta grossa e pesada. Deixou a nota cobre avermelhado sobre o balcão rústico e ordenou que suas pernas o levassem para fora, para o frio. Seus pés afundaram na neve, e o vento frio cortou seu rosto, seu corpo, sua alma enfraquecida. Enfim, estava de volta.

{ Lyani } 24/02/2002

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7 comentários sobre “De volta

  1. martacosta disse:

    «Nada é permanente neste mundo cruel. Nem mesmo os nossos problemas.»

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  2. Talita disse:

    Todos os dias sento nessa cadeira a frente do PC e passo em meus blogs favoritos pra depois começar o dia… E com certeza aqui estou…Mas hoje tive a leveza de me transportar a esse bar e ter em mãos essas paginas e esse copo de vodca, e voltei devolta…Pra começar a rotina de mais um dia….

    Amoooo Passar aqui

  3. O Trovador disse:

    NOSSAA!

    Parabéns! É um ótimo texto, ótimo mesmo!

    ^^

    Me fez imaginar a cena, e isso não é raro, com a perfeição e a exatidão com que a descreveu.

    Pude até ouvir o som das páginas virando.

    E o burburinho abafado, distante muito distante.

    Adorei

    Beijooo
    Au revoir

  4. Eder disse:

    Ótima imagem: “canto efêmero da cidade agitada”. Daria uma excente fotografia ou locação. Quis pelo instante do texto estar lá…

    Sabe que conversando com a Roberta me dei conta de que de um jeito estranho, na cabeça dela, somos irmãos. Ai me veio essa culpa de nunca ter te visitado antes. Espero corrigir essa falha, maninha… 🙂
    Bjo.

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