Luz e escuridão

XIV Desafio Incubadora Literária
Tema: Mulher
Período para votação: 29/10 a 31/10

 

“Verifico que, tantas vezes alegre,
tantas vezes contente, estou sempre triste”
Fernando Pessoa

Ela tenta, sabendo que vai falhar, esquecê-lo, enquanto colhe as flores para levar à mesa da casa de sua mãe. Não quer amá-lo, nem desejar a sua escuridão e o seu sorriso sombrio e gelado. Mas sempre que é primavera ele faz tanta falta! Suspira e respira o ar impregnado de flores, lembrando-se de onde estava e seus deveres.

Anda devagar pelo campo carregando as flores no braço. O sol tocando-lhe os cabelos e deixando um pouco mais clara a cor mel de seus olhos. Até mesmo no interior daquele imenso castelo a luz se faz intensamente presente. Não havia sequer um canto de sombra, um ponto de escuridão que pudesse amenizar a saudade.

Sorri ao chegar à mesa com as flores colhidas, como tem que ser ao estar ali. Ouve as palavras de carinho de sua amada mãe e se sente confortada, quase feliz. As conversas, as horas, os sorrisos, os carinhos, as tarefas diárias naquela época do ano eram ótimas, não poderia reclamar, mas sempre falta alguma coisa. E o sorriso se desmancha quando está sozinha, a luz do olhar se apaga um pouco tentando relembrar, voltar ao lado sombrio em que ele estará presente.

Ela se pergunta, às vezes, como pode sentir essa falta da escuridão, quando um dia fora apenas luz. Era feliz naquela sutileza de sentimentos, na colheita diária de flores, nas brincadeiras de roda com as amigas, na volta para casa e para o colo da mãe. Só que ele veio, um dia, trazendo toda aquela escuridão que turvou-lhe o olhar, enraizou um grito de medo na garganta, tirou-lhe o fôlego, a vida e a levou consigo.

Sentiu tanto medo, tanta ânsia de voltar para casa, para a luz, para sua mãe, que passou meses desolada, vazia, infinitamente triste. Porém, aos poucos, toda aquela escuridão que o acompanhava onde quer que fosse, aquele ar frio desviando-lhe o humor sempre agressivo, aquela voz profunda que parecia, pelo menos quando lhe dirigia a palavra, vir de alguém tão apaixonado, começou a deixá-la curiosa por aquele lugar, aquele tipo de vida, aquele mundo. Gostava do som do seu novo nome na voz dele.

É claro que ficou infinitamente feliz quando sua mãe, através de um Deus, foi buscá-la por não aceitar aquela separação. Mas é claro que também não pôde negar a ele seu último pedido: aceitou aquele presente que pareceu-lhe tão singelo. Saboreou-o como uma despedida eterna, um Adeus.

Voltou à luz, ao campo, às flores. Mas já não era a mesma. Nunca mais seria a mesma e algo parecia lhe faltar, uma parte de si, como se estivesse ficado lá com ele. Descobriu pouco depois que desde então, estava condenada a viver essa eterna incompletude. Divida entre dois mundos, dois sentimentos, dois nomes e dois deveres.

Uma parte do ano passava ao lado de sua mãe, no campo com as flores, primavera constante. A outra parte era ao lado dele que ficava, como sua esposa e devota. Uma Deusa das sombras em inverno infinito.

Ao lhe dar aquele último presente, ele havia selado com ela um compromisso eterno de tê-la, nem que fosse apenas por uma parte do ano, desde que isso fosse para sempre. E assim se fizera, uma parte luz e outra escuridão. Em cada momento duas percepções, dois sentimentos opostos que nunca se tocam, e no entanto, nunca se abandonam. Sempre com algo a desejar, algo a doer, algo a faltar.

Deixou a mesa, em busca do refúgio de seu quarto, dizendo estar um pouco cansada da colheita. Queria o silêncio para amenizar a voz dele que não lhe abandonava. Queria fechar os olhos um pouco, apenas para fingir estar na escuridão que o cercava, porque como sempre, ao estar na luz, no dia, no campo e nas flores, sentia falta da escuridão, sentia falta dele, do frio, do poder. E como sempre, ao estar na escuridão, na noite, na cama e nos braços dele, sentia falta da luz, das flores, da doçura.

Menina e mulher, em função do amor e da paixão. Deusa infiel às próprias vontades, mas sempre desejada e sempre querida. Amada e adorada. Perséfone e Cora.

E ainda assim, triste.

{ Lyani }
Revisado por Lu Oliveira

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil License.

7 comentários sobre “Luz e escuridão

  1. Poliana disse:

    Adorei o texto que está a baixo do dizer de Fernando Pessoa. É de sua criação? Se for me dá autorização para usa-lo em uma obra minha, sou estudante do curso de Direito em Aracaju e estou produzindo uma humilde obra, é um romance e tem tudo a ver com o texto a cima.
    Se for possivel, mande um e-mail para mim autorizando o uso de tão valiosa criação. assim que terminar a história mando uma cópia do arquivo p você.
    Desde já, agradeço!
    Poliana C. M. Barreto.

  2. Roberta disse:

    Meu Deus…
    Dessa vez literalmente, prefiro não comentar.
    Não teria sequer uma palavra para descrever a grandiosidade desse texto…

    Amo você.
    Amo sua amizade.
    Amo seu blog.
    Amo tudo em você.

    PS: Não é exagero…eu juro…rs

    Bjos

  3. Taís disse:

    “E o sorriso se desmancha quando está sozinha, a luz do olhar se apaga um pouco tentando relembrar, voltar ao lado sombrio em que ele estará presente.”

    Muito lindo o texto.

    Bjinhos

  4. caurosa disse:

    Minha cara Lyani, que belo texto, intenso e me agradou muito, gostei de seu blog. Parabéns. Paz e harmonia para você.

    Forte abraço.

    CAUROSA- caurosa.wordpress.com

  5. Fabricio Carlos disse:

    oi…
    muita coisa para falar em um cometário só, mas vamos lá:

    1 – não vou comentar sobre o post/texto pq? não tenho certeza se já disse antes, mas ainda não “aprendi comentar” no teu blog, é um texto muito bom para eu arriscar falar “besteira”… nem é preciso dizer que gostei, né?
    2 – Nunca beba pepsi de madrugada (ou antes de dormir) com a consciência pesada. Pode ter efeitos colaterais, rsrs…
    3 – Esquerda-liberal também… isso é perigoso… rsrs
    4 – quanto ao poema que vc deixou comentário, os dois últimos versos são realmente lindos – meus prediletos naquele poema
    5 – E só aos poucos com uma olhada mais atenta que fico com uma imensa gratidão por ti “me colocado” no teu espaço através do Lâmina da Lingua (acho que vc já percebeu quem escreve algumas coisas lá) e não do Variação do Mesmo tema, isso para mim faz uma diferença enorme…

    bjs…

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