Literatura 2.0

Por Fabricio Carpinejar

Até José Saramago abriu um blog. Até o Prêmio Nobel de Literatura. O celebrado escritor, que completa 86 anos em novembro, intensifica sua aproximação com o público. Caiu a última trincheira de resistência contra a ferramenta. O autor de Ensaio sobre a cegueira e O evangelho segundo Jesus Cristo decidiu criar “um espaço para comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, o que vier a talhe de foice”.

Se antes os blogueiros tomaram as estantes e livrarias, numa invasão organizada dos posts para as páginas, os escritores descobriram que estavam perdendo espaço e procuraram recuperar o tempo perdido. Sucedendo o movimento da rede aos livros, a trajetória agora é dos livros para a rede.

Atrás das janelas do Internet Explorer, o que se verifica é um swing cibernético. O maior laboratório criativo da Geração 90 passou a receber novos adoradores, que se renderam à conversa instantânea e superaram o receio inicial.

O blog perdeu seu estigma de catarse e escrita sentimental para adquirir o status de uma janela fundamental para a comunicação com os leitores. São muitos os ficcionistas que estão adquirindo sítios e realizando uma verdadeira migração digital. Martha Medeiros, Márcia Tiburi, Menalton Braff…

“Ele foi entrando pelos olhos, pelas notícias e pelos amigos. De repente, me pareceu que eu estava perdendo um espaço que era meu. Estava jogando fora uma coisa boa”, comenta Menalton Braff, vencedor do Jabuti 2000 por À sombra do cipreste (esgotado).

Radicado em Serrana (SP), Braff expõe a influência eletrizante da nova mídia. Não queria ficar para trás. “Blogueiros e escritores, uni-vos!”, diz, entusiasmado com a experiência iniciada neste semestre.

UMA FERRAMENTA
A facilidade de postar, o desembaraço de abrir uma página pessoal e a necessidade de prolongar reflexões sobre a literatura dobrou os mais empedernidos discípulos do papel e da caneta.

“Houve uma maior compreensão do que é e como funciona a internet, no Brasil e no mundo. Avançamos um século nestes últimos dez anos. E a chave para esta mudança de percepção é uma só: blog é ferramenta. É tão fácil de usar quanto um caderninho ou bloco de notas. Se uma menina de 12 anos ou um marmanjo de 35 quiser usá-lo para anotar seus pensamentos mais íntimos, ou se um matemático resolver rascunhar cálculos complexos, ou se um escritor quiser cometer ali sua obra-prima, tudo é válido. A única diferença é que na internet o matemático poderá receber ajuda de outros matemáticos para resolver aqueles cálculos, tanto quanto o escritor terá a chance de criar um público interessado e a menina de 12 e o marmanjo de 35 terão de aprender a compartilhar a sua vida com as demais pessoas”, esclarece Cardoso (André Czarnobai), autor de Cavernas e concubinas.

A colunista dos jornais O Globo e Zero Hora, Martha Medeiros, é uma das adeptas da tendência. Tem um blog no ClicRBS, ampliando o alcance de suas opiniões sobre livros e filmes. Em sua avaliação, o leitor se enxerga como um álibi e não enfrenta mais os árduos trâmites para falar com seus escritores prediletos. “O que a internet possibilita é que o usuário se projete mais íntimo e se manifeste de forma mais rápida e espontânea: ele deixa ali seu post dizendo o que pensa, tudo muito informal e automático. Antigamente, tinha que escrever para o jornal ou para a editora para se manifestar, e isso sempre requer uma solenidade maior – e muitos desistiam”, comenta.

CADA UM SABE O SEU LUGAR
A filósofa Márcia Tiburi atendeu ao pedido insistente da produção do programa Saia Justa, do GNT, e não se arrepende do seu blog. Pink Punk é uma espécie de “praia criativa”, onde deixa o pensamento bater nos escolhos como ondas. “O fato de exigir outra linguagem me anima como aventura. Eu gosto muito de uma aventura intelectual, da aventura com a linguagem, o blog tem muito a ver com os meus ensaios filosóficos. A linguagem interativa é, para mim, o cerne da filosofia desde sempre.”

Os escritores temiam a invasão da privacidade, o avanço para a vida real dos bisbilhoteiros e a gula pela fofoca. “A desconfiança que eu venci foi a minha própria, a de que eu estaria me excedendo na exposição. Mas isso não aconteceu, porque sigo mantendo minha privacidade, dentro do possível”, confessa Martha. Sua estratégia é escrever quando sobra uma folga e continuar postando como quem manda um e-mail para um conhecido. Existe, inclusive, um desleixo proposital, que ajuda a desmistificar a conversa. “Não reviso e sei que cometo erros, mas não me abalo: os erros me tiram um pouco do pódio de escritora, me humanizam”.

Márcia concorda que a preservação da intimidade depende do discernimento de ambas as partes. “O leitor de blog tem que ser mais esperto e trabalhar na própria mente a separação entre ficção e realidade. O escritor tem que ser mais generoso e cuidar bem de como ele mexe com o seu público, pois terá que se responsabilizar pelas conseqüências.”

De roldão, o preconceito contra os blogueiros diminuiu. Anteriormente, os profissionais da literatura e do jornalismo não levavam a sério alguém que redigia unicamente na web.

“Passei oito anos escrevendo e publicando meus textos na internet, em sites e blogs. Quando era entrevistado, jamais me creditavam como ‘escritor’. Para a mídia e o mercado, eu era ‘blogueiro’ ou ‘jornalista’. Em 2005, publiquei Cavernas e concubinas, um livro contendo apenas textos anteriormente publicados em sites e blogs. A partir daí, milagrosamente, me transformei socialmente em ‘escritor’. Não é ridículo?”, relata Cardoso.

CINDERELA ELETRÔNICA
Do passo vacilante ao salto, o blog virou uma vitrine para a descoberta de talentos pelas editoras. Mais achados do que perdidos. Veja o caso da paulistana Fal Azevedo. Após dois livros independentes, e depois de mandar originais para as editoras, sem obter resposta ou que foram recusados, terminou descoberta pela Rocco e recebeu convite para a publicação em função do estilo carismático desenvolvido no Drops da Fal. Pode? É uma cinderela eletrônica, o sapato de cristal é um endereço online. Pelo selo, acabou de editar o romance Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite, uma narrativa fragmentada e híbrida, carregando traços característicos da internet.

“Depois dos saraus, dos folhetins, das redações de jornal, dos apartamentos em Ipanema e de outros e outros endereços onde cada geração encontrou um lugar para se reunir e criar, nós encontramos a rede. Editor esperto vai ser o cara que garimpar. Nós estamos aqui”, avisa.

Fal não teve que se adaptar aos blogs, porque os blogs apresentavam a forma na qual ela já escrevia. Quando caiu na rede em 2002, ela se encontrou e se reconheceu. Arranjou o lugar perfeito para mesclar cartas, descrições e crônicas. Sua dedicação fortaleceu a empatia com os visitantes e colaborou para fortalecer seu nome. Tanto que responde a todos – disse todos – os inúmeros comentários dos internautas. Assim formou uma legião de fãs e fiéis seguidores de seus bordados.

“Eu fico triste e meio assim quando não sou respondida no site de alguém. Acho horroroso; se te encontrar na rua, você vira a cara se eu te der oi? Não, esperamos que não, pelo menos. Se eu me dou ao trabalho de ler seu blog, comentar, passar por aqueles filtros de spams chatíssimos e tal, não custa me dar um oi. Se eu faço um comentário, não quero falar sozinha. Então, se você me faz uma visita e deixa um comentário, não deixo você falando sozinho. Nunca dá tempo de escrever uma carta de trezentas linhas para cada comentário, mas eu sempre dou um oi, mostro que li e agradeço o fato de você estar ali, lendo o que escrevi. Ter leitor é um privilégio, não um direito atávico”, explica.

Educação nunca é demais. Fal ensina que é preferível fazer amizade a se preocupar com conceitos como público-alvo e arremessar dardos. São os leitores invisíveis que vão amparar os autores nos momentos dolorosos. “Há um ano, perdi meu marido e recebi as mais inimagináveis demonstrações de carinho, de gente que nunca havia abraçado na vida. O que comove ultrapassa em muitas léguas o que irrita ou decepciona”.

GPS
Onde está Paulo Scott? Com certeza, seu blog sabe e envia o mapa preciso: o gaúcho mora atualmente no bairro Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.

O contista de Ainda orangotangos entende o suporte como um GPS literário, contendo poesias e informações sobre suas andanças. “O blog me tornou mais conhecido e facilita muito a localização do escritor. Acho difícil dispensar a mídia formal, porque ela ainda tem muita força. Há, sim, uma espécie de complementaridade”. O que o fascina é a liberdade absoluta. “O blog é uma conquista que jamais será desprezada; não é à-toa que grandes nomes da literatura o utilizam como forma de preservar a transgressão e não fazer concessões ao mercado”.

Viciado na rede, experimentou sete pontos de distribuições de textos. Para poupar e não banalizar seu nome, assinou como “Elrodris” em vários deles.

A arte de ressuscitar é também competência de Daniel Galera, que já assassinou e reanimou dezenas de blogs. Sua participação no mundo cibernético é impregnada de despedidas e reinícios. “Acredito que faz parte da dinâmica. Criar ou matar um site de qualquer tipo é rápido, indolor, gratuito. Essa volatilidade permite experimentar, correr riscos e desaparecer quando a brincadeira cansa. Criei sites quando tive idéias que me empolgaram e os destruí quando deixaram de me empolgar”, conclui.

O criador do elogiado livro Mãos de cavalo sente que o blog pode sugar a motivação de um inédito. A energia. Queimar idéias. Ele mantém toda a cautela. Dentro do projeto “Amores expressos” (que enviou escritores a diferentes países para contar uma história de amor), voltou a se reencontrar com a rede para descrever sua viagem pela Argentina. Enfrentou uma dúvida cruel entre revelar detalhes e guardar as impressões para a solidão dos seus arquivos no laptop. Ficou receoso de antecipar o teor do romance Cordilheira, que será lançado pela Companhia das Letras.

“Escrevi o blog a contragosto, era uma exigência a todos os escritores participantes do projeto. Escrevi o mínimo possível nele, porque tinha a impressão de que relatar minha experiência ali seria desperdiçar anotações mentais e cenas que poderiam entrar no meu livro. Isso muda de autor para autor, mas no meu caso, ele representava uma ameaça. Tive pouco retorno de leitores, certamente porque investi pouco. Blog é uma troca. Se o blogueiro fornece pouco, recebe pouco”, pontua.

A autocrítica motivou Michel Laub a encerrar, em menos de dois meses, sua passagem pelo blog. Ele fechou o domínio porque gostou demais. “Não quis continuar de forma meio bomba, como teria que fazer por causa do excesso de compromissos”, lamenta. “Da maneira como desejava, pelo menos, com atualizações diárias e alguma linha editoral, digamos, acabou virando um terceiro emprego”. No mundo virtual, Laub é um patrão que se demitiu. A seriedade de sua proposta suspendeu seus planos para mais adiante.

DE UMA BRINCADEIRA
Pioneirismo é o codinome de Cardoso. Há exatamente dez anos, em 5 de outubro de 1998, quando não existiam blogs, podcasts e fotologs, spam não havia se alastrado, muito menos alguém imaginava P2P, MP3, RSS e YouTube, uma roda de universitários montou um mailzine que entrou na história: Cardosonline, que chegava por e-mail duas vezes por semana a uma lista que atingiu a fabulosa marca de cinco mil assinantes. Sem imagens, sem formatação, sem html: texto puro. As duas edições semanais do zine alcançavam em média 70 páginas. Ou seja, 278 edições publicadas e mais de 10 mil páginas.

O pessoal produzia um bocado. A prática insana catapultou a turma para a internet. O Col, como era conhecido, mostrou – pela primeira vez – o dom de Clarah Averbuck (que inspirou o filme Nome próprio, de Murilo Salles), Galera, Daniel Pellizzari, entre tantos colaboradores. Cardoso elenca seus méritos:

“Primeiro, colocou em contato toda uma geração de criativos (não apenas escritores, mas também cineastas, músicos, ilustradores, designers, jornalistas, publicitários), algo jamais feito nessa escala neste país. Segundo, criou um espaço de discussão sem precedentes, onde todos participavam não apenas comentando os artigos publicados, mas também submetendo seus próprios textos para a apreciação pública – uma prática que antecipou em alguns anos o conceito de participação coletiva, fundamental para o surgimento da Web 2.0”.

João Paulo Cuenca (O dia Mastroianni) ajudou também a popularizar a qualidade literária na rede. Expôs corajosamente o andamento do seu primeiro livro, Corpo Presente (esgotado), num blog em 2003. Além de documentar a evolução do romance, instaurou uma percepção dialógica da escritura. Arreganhou a gaveta do seu escritório e elaborou um diário em tempo real do dia-a-dia de sua transpiração (detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios e motivações espúrias). “Escrever um romance, especialmente nos últimos meses, é uma tarefa árdua que pode ser insuportável. O blog me ajudou a compartilhar esse peso com os leitores daquele livro que ainda não existia”, lembra.

Afinal, o que é mais fácil: um escritor tornar-se blogueiro ou um blogueiro tornar-se escritor?

Cuenca avisa que essa questão é barbada: “um escritor tornar-se blogueiro”.

Bem-vindo, Saramago! ©

Fonte: Revista da Cultura

12 comentários sobre “Literatura 2.0

  1. Roberta disse:

    Uma brincadeira pode ser só uma brincadeira…mas quando se torna séria, aí sim, em alguns casos torna-se bem mais divertida…

    Obrigada por compartilhar o artigo interessantíssimo…

    Bjos

  2. Nathália disse:

    Quando há um relação mais íntima com algum escritor, através do blog, no caso, conseguimos desmistificá-lo quase que instantaneamente.
    Pelo menos eu consigo. rsrs

    Aaai, que saudadona daqui!!!

  3. caurosa disse:

    Minha cara Lyani, todos estamos irmanados num só objetivo, nos comunicarmos e partilharmos tudo que aprendemos e vivemos. As experiências de nossos vidas estão marcadas nos instrumentos de mídia que tivermos acesso para que esta partilha útil e necessária acontece. E ninguém estará ameaçado.
    O bom e “velho” livro estará sempre preservado, ainda é insubstituível. Para mim, o livro é pura paixão. Paz e harmonia para você.

    Forte abraço

    CAUROSA – caurosa.wordpress.com

  4. Nilson Barcelli disse:

    Um blogue pressupõe comentários ao que se vai publicando.
    Sem isso é apenas um site sem qualquer interactividade.
    O blogue do Saramago penso que é apenas um site (vi-o há 2 ou 3 semanas e não fiquei entusiasmado…).
    Abraço.

  5. Gabriela disse:

    Bem-vindo Saramago [2]
    Quando a pessoa se identifica com um blog é difícil de largar, deve ser por isso que tantos estão se rendendo a ele.

    Bom final de semana pra vc também Lyani
    Beijoo

  6. Eosm disse:

    Olha… como diria o velho Nietzsche: “Vêde! Eu vos apresento a Super-Literatura! A Literatura é algo que deve ser superada, e o que fizeram para superá-la?”

    Hehehehe….

    Bjos!!!

  7. Elcio Tuiribepi disse:

    Interessante…acho que essa interação vai de encontro com as necessidades que o mundo virtual de hoje nos exige. Mas ainda acho mais fácil um autor renomado ter um blog e ir aonde o povo está, ou deixar-se achar pelo povo, assim ficaria mais apropriado afirmar. Abraços…

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