Entrelinhas

─ “Sempre conservei uma aspa à esquerda e à direita de mim” ─ C. L. Sempre achei que aspas eram o “dito não dito” Mas quem sou eu pra questionar C.L?
─ Como assim?
─ Bem, pessoas aspas, geralmente agem como o que querem ser, mas ficam longe de quem são! Se vive entre aspas… vive metáforas… personagens.
─ Acho que é isso mesmo.
─ Surpresa minha, você escreve tão segura de si… Não acredito que sua personalidade seja tão diferente.
─ Engraçado você achar que escrevo tão segura de mim, quando acho que estou escrevendo toda a fragilidade do que há em mim.
─ As palavras são apenas a janela… Se aprender a ler, entenderá o que ter com a pessoa do outro lado. Sentimentos são traduzidos por palavras… Saudade, o que é? Sabemos o que a saudade significa, mas não o que é, então podemos escrever saudade de uma maneira nova, fazendo qualquer pessoa entender o que é, sem dizer a palavra saudade. Se eu escrever:

Eu acordei com saudade. Saudade é bom pra acordar com a gente. A gente levanta e deixa a saudade dormindo quietinha na cama, com medo dela assustar com o barulho do vento entrando pela janela. Eu queria aprender a descrever o que senti, aprendi e o quanto sou grato por ti. Queria não te perder assim, no espelho trincado, no parta retrato vazio, na aliança sem dedo, na gaveta ao lado de seu perfume preferido. Eu tenho medo de acordar a saudade, deixa ela lá, dormindo, hoje serei mais rico que o luar, aquele cúmplice de nossas caminhadas no calçadão a beira mar. Tenho tanta fá em mim, tão pouca crença em ti e uma insignificante esperança em nós.

─ Estou falando de alguém e da saudade, mas posso descrever a minha saudade simplesmente sem tocar na palavra.

Se eu tentar me distrair, vou brincar de recorta e cola com fotos suas. Vou pintar os seus cabelos de uma outra cor, vou te colocar peitões enormes, te fazer mais baixa, alta, gordinha e magra. Vou marcar o seu rostos com pintas, sardas e marquinhas de catapora, vou tatuar as suas costas, pés e ombros. Quem sabe eu até lhe faça negra, ruiva, morena, quem sabe eu explore cada cantinho do seu corpo em busca de algo que eu não adore, que não ame. Quem sabe um dia eu entenda onde e quando começou, a partir de quando você entrou aqui em mim!?A minha vontade de lhe ter hoje, é ainda maior que a de ontem.

─ Ainda cheira saudade?
─ E mais intenso…
─ É assim que leio você… Nas entrelinhas, no que não foi dito, mas no que pesava quando escreveu…
─ “Que se salvem as entrelinhas” C.L., era a frase anterior a esta que iniciou a conversa.

Conversa no Msn com w.Moscolini

12 comentários sobre “Entrelinhas

  1. Talita disse:

    Lyani…Como sempre chegar ao trabalho começar a caminhar pelos blogs e encontrar esse diálogo lindo…O dia começa mas leve, mesmo nesse caos que esta a minha bela e Santa Catarina…Obrigada por nos proporcionar esse espaço…Boa semana!

  2. Edu disse:

    Cara,

    Depois de ler, tenho que conceder. Pode haver literatura nos locais mais improváveis. Até no MSN:-)
    Culpa da saudade. Há palavras cujos sons carregam significados. Sons que se impõe sobre etimologias. Sons que carregam sentimentos que Latim nem Grego algum contrapõem. Saudade é uma destas palavras. Sussurra. Balbucia.
    Em muitos idiomas há palavras para definir sentir falta de alguém. Em todos, a ênfase é em quem não está, na ausência. Menos em Português. Saudade é sentimento de quem fica. É solidão de quem sabe que não está só. “Solidão acompanhada”. Por isto mesmo solidão mais doída. A que vem sem ser convidada. A parte de nós, que em nós não vive. A invisibilidade que prende

    Saudade é o sofrimento do quase. Quase ter. Quase ver. Quase tocar. Saudade é a ausência presente. Lacuna que lembra do que não está lá. Vazio que expõe a nudez. É tão forte que, não à toa, geralmente vem no plural. Saudades. São tantas ausências.

    Saudades até do que nunca se teve, mas se sabe faltar. “Saudades de tudo que eu ainda não vi” (R.Russo). “Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!” (Pessoa). Saudade é amar o que não está. O que não estará. Saudades nos fazem ver o que não há. Enxergar o vazio. “Amar uma sempre diversa realidade

    “É verdade que vens, como se fosses
    Uma parte de mim que vive longe,
    Presa ao meu coração
    Por um elo invisível;
    Mas não regresses mais sem que eu te chame,
    – Não sejas como a Saudade! ”
    C. Queiros

  3. ♥ Lyani disse:

    Mai,
    Muito gentil você, fico muito feliz com seus elogios, mas o talento neste diálogo foi todo do w.Moscolini 😀
    As falas em cinza mais escuro são deles, e os textos sobre Saudade também!
    Obrigada pela visita e venha sempre, é muito importante!
    Bjos,
    Ly ^^,

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