Perdas e Danos

Me perdi no ideal dos ventos
Tão longe de casa
Longe de mim
Sem voltas
Nunca mais serei
Aquela que deixei perder-se

{ Lyani } 30/8/2006

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Esta obra está licenciada sob uma Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil License.

Um título com medo

Medo. Medo de escrever e não sair nada. Não rimar condão com fada. Não confrontar a metáfora com a ênclise, atrás da porta que acabei de grafar. Medo do til ter medo de altura, e transformar meu ão em um monossilábico ao, com a redução do o a u, uma semivogal. Medo do i não aceitar o pingo, e ao lado de um zero, formar uma facção de códigos binários. Medo do ar não entrar pelo fonema, e este nunca sair nasal. Medo do texto atonal. Medo da falta de rimas métricas e assimétricas. Medo de sequestro de letras. Do papel em branco. Medo do silêncio do teclado. Do estado hiperbólico das sentenças. Morrer de medo. Estar aquém de um grande verso. Medo do reverso da poética. A metálica forma do medo. Medo de escrever plástico só por sua acepção. Medo das crases. Dos acentos circunflexos, por não existirem os circônflacos. Medo dos flancos do dois pontos. Medo do assombro sem exclamação. Medo do não com ponto final. Do mal uso da cedilha. Das filhas da letra ésse quando se unem aos verbos. Do que fazem com eles. Medo da interrogação. Medo de títulos e epígrafes. Medo de gafes. Medo da origem das palavras. Se nascem mortas de medo. Medo das línguas esquecidas serem as mesmas das quais me lembro. Medo de abuso do texto. Do limite de linhas. Dos rodapés e rubricas. Medo que o trema não seja nunca mais utilizado. E com ele vá-se embora toda a intriga. Medo da falta de idéias. Ou do extremo oposto. Algumas delas ressurgirem do esquecimento para o repetido uso. Medo do p e b mudos. Do hífen do contra-ataque da curva dramática de um texto. Do abandono entre parênteses das reticências por medo. Medo do travessão e da vírgula. Do narrador e da terceira pessoa. Do protagonista. Do epílogo. De uma frase sair à toa. Medo de assinar o final do texto. Da confissão do confuso. Do mal hábito de sentir tudo muito absurdo. E saltar. Soltar a folha cheia de medos por cima do resto do mundo.

Ana Peluso in
texto inédito enviado pela autora ao site Releituras

Quem?

{ Corbis }

♪ Então eu olhei ao redor, todos os olhos voltados pro chão
enquanto a TV divertia a si mesma
Porque não há conforto na sala de espera
Só nervosismo ritmado pela espera da má notícia
Aí a enfermeira chega e todos levantam a cabeça
E eu estou pensando no que Sarah disse: que amar é ver alguém morrer…

Quem vai te ver morrer? ♪

. Death Cab for Cutie in What Sarah Said.

Arrumar para esquecer

XV Desafio Incubadora Literária
Tema: Mania
Período para votação: 17 a 19 de Novembro

Talvez pela imperceptível inclinação da mesa, a ponta de um dos lápis, dispostos extremamente alinhados, estava agora um pouco afastada. Exatos três milímetros. Ele não pôde deixar de notar e ajeitou-a de forma a ficar perfeitamente alinhada. Depois organizou os papéis na gaveta e as canetas no pote de acrílico por ordem de cores. No caminho para o banheiro, arrumou o quadro na parede e a mesa onde deixavam o café, que estava mais afastada da parede no lado esquerdo.

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Os livros da minha infância

Roubando a idéia que encontrei aqui, faço este post:

  • Todos, Coleção Conte Outra Vez
  • Vários, Série Vagalume
  • Todos, Sidney Sheldon
  • Quem roubou minha infância? – Maria da Gloria Cardia de Castro
  • Pollyana e Pollyana Moça – Eleanor H. Porter

Desde muito pequena, por influência da minha mãe que sempre leu muito, vivi rodeada de livros. A textura do papel, o cheiro, as figuras, as letras de diversos tamanhos e formatos sempre me encantaram e eu corria os olhos por elas com prazer. Desde sempre, por prazer. Muitas e muitas vezes troquei aquele brinquedo cobiçado por qualquer criança por um livro, pedido no Natal, aniversário e fora de época. Gostava, além de lê-los ansiosamente, de vê-los ali no meu quarto. Amigos que faziam as vezes dos irmãos que não tinha (sou filha única). Minha história de vida tem as palavras e os livros como base desde o começo. Minha infância foi florida de livros e histórias que me ajudaram, emocionaram, desenvolveram e por isso só tenho a agradecer aos meus pais por todo o incentivo que me deram e continuam dando até hoje.

E vocês? Quais foram os livros da sua infância?

Poema dos Dons

Recebido por e-mail do Tudo, Menos Aquilo
Obrigada Edu, por me apresentar este poema lindíssimo.

Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite
Esta declaração da maestria.
De Deus, que com magnífica ironia
Deu-me a um só tempo os livros e a noite.
 
Da cidade de livros tornou donos
Estes olhos sem luz, que só concedem
Em ler entre as bibliotecas dos sonhos
Insensatos parágrafos que cedem
 
As alvas a seu afã. Em vão o dia
Prodiga-lhes seus livros infinitos,
Árduos como os árduos manuscritos
Que pereceram em Alexandria.
 
De fome e de sede (narra uma história grega)
Morre um rei entre fontes e jardins;
Eu fatigo sem rumo os confins
Dessa alta e funda biblioteca cega.
 
Enciclopédias, atlas, o Oriente
E o Ocidente, centúrias dinastias,
Símbolos, cosmos e cosmogonias
Brindam as paredes, mas inutilmente.
 
Em minha sombra, o oco breu com desvelo
Investigo, o báculo indeciso,
Eu, que me figurava o paraíso
Tendo uma biblioteca por modelo.
 
Algo, que por certo não se vislumbra
No termo acaso, rege estas coisas;
Outro já recebeu em outras nebulosas
Tardes os muitos livros e a penumbra.
 
Ao errar pelas lentas galerias
Sinto às vezes com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, habituado
Aos mesmos passos e aos mesmos dias.
 
Qual de nós dois escreve este poema
De uma só sombra e de um plural?
O nome que assina é essencial,
Se é indiviso e uno este anátema?
 
Groussac ou Borges, olho este querido
Mundo que se deforma e que se apaga
Numa empalidecida cinza vaga
Que se parece ao sonho e ao olvido.

Jorge Luís Borges in O Outro, O Mesmo

Isso não existe

─ Então sexta-feira é seu último dia.
─ Vou sentir sua falta.
─ Você não deveria ir.
─ House pediu pra você vir falar comigo ou você está tentando salvar a paciente? Porque sempre haverá…
─ H
ouse me pediu.
─ E
 você veio.
─ Eu disse a ele pra ir pro inferno.
─ Obrigado.
─ Mas eu acho que ele está certo.
─ …
─ Você acha que está fazendo uma escolha racional. Você acha que o pior já passou e seis meses depois você olhará para trás e se dará conta que não sabe o que está fazendo.
─ Você está dizendo que a dor não passa?
─ Fica mais fácil. Não em dois meses, não em dois anos. Mas… não, nunca passa.
─ Ficar aqui ─ esse prédio ─ Eu não posso suportar, eu continuo olhando para o armário da Amber.
─ Eu vi um rapaz hoje de manhã usando um cachecol. A cor me fez lembrar dos olhos dele. Nós morávamos a 800 km daqui.
─ Eu tenho que fazer alguma coisa.
─ Então faça. Mas não pense que essa é a escolha certa. Porquê isso não existe.

Conversa entre Cameron e Wilson
Episódio 1 – 5ª temporada de House M.D.

Parada obrigatória

Não sei se é a canseira, o final de ano, o peso nas costas, as milhões de responsabilidades no trabalho, em casa, até no mundo virtual, mas ando sem nenhuma vontade de ler. Meu livro, que estou amando, ficou lá empoeirando na prateleira. Resolvi então, já que uma amiga me emprestou um romance, dar uma parada (já estava bem parado, mas tudo bem) no “Memórias do Livro” e ler “O Sono dos Hibiscos” de Lygia Barbiére Amaral. O livro tem só 335 páginas, e começo a ler hoje. Espero terminar logo e assim a vontade de ler os outros da fila volte, afinal são ótimos e ler é meu passatempo favorito e estou com saudades desse hábito gostoso que tenho desde muito pequena.

Aqui no blog também, ando um pouco desanimada. Não é o blog em si, afinal estou muito feliz com todas as visitas e recados de vocês, meus leitores queridos. Acho que é cansaço mesmo e peço que me desculpem se por acaso eu não visitar a todos com a mesma frequência. Logo (daqui a 2 meses) eu tiro férias e volto para as visitas, as leituras, as postagens com força total. =D

Severinos

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia”

João Cabral de Melo Neto in Morte e vida Severina .

Nada além do Nada

Avessos de memórias
Não tenho identidade nem medos
Nem histórias

{ Lyani } 17/11/2004

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