Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no nexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo  que é a respiração do mundo,  e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos  e chamamos de silêncio

. Clarice Lispector in A Paixão Segundo G.H. .

O que são.

─ Acontece que você não está vendo o que todo mundo vê.
─ E agora? As coisa serão… Bonitas?
─ As coisas serão o que são. (A paciente abre os olhos depois que House tira-lhe a gaze) E então, como estou?
─ Você está triste.

Conversa entre Dr. House e Apple (paciente)
Episódio 2 – 5ª temporada de House M.D.

O Livro Vazio

O Amor é simplesmente o ridículo da Vida
. HM .

No centro da Sala Hexagonal da Biblioteca Nacional de Uqbar, há um labirinto. Sua saída leva a um jardim que se bifurca. À sua direita, uma sala de espelhos. À esquerda, uma estante de vidro.
Ali, em 24 de Agosto de 2099, encontrei um volume solitário com título esmaecido. Ilegível. Seu número de tombo N-0001. A única pista sobre seu autor, seu conteúdo, mais precisamente, sobre a falta de conteúdo era uma inscrição no frontispício, anotada pelo Bibliotecário-Cego, Francisco Isidoro:

Sentia mais alívio do que sucesso ao terminar mais um texto. Revisou. Guardou.
Chegara à marca de 168 páginas. Ao abrir para reler, a visão. Epifania do vazio. Nada havia escrito. Páginas, muitas delas, de nada. Procurou por algum defeito. Abriu o backup. No arquivo demiurgo, o mesmo nada. Não era vírus. Os demais arquivos seguiam intactos. Seu escrito, nada.
Escrevera um livro completo de nada. Enciclopédia da falta de assunto. Havia 44320 palavras lá. Nada escrito. Onipresente ausência de mensagem. 4209077 caracteres apareciam e juntos formavam um conjunto vazio. “Quanta gente por aí, fala, fala e não diz nada”. Ele havia se tornado a maior delas.
Certa vez, lembraram-lhe que “muitas palavras são ditas por que ainda não encontramos a única palavra que importa”. Então, escreveu mais e mais para encontrar a “tal palavra que importa”. Quanto mais escrevia, menos dizia. Não entendera. Não havia palavra que importasse. Nenhuma faltava. Toda palavra era sobra. Redundância do nada. Prolixidade da falta. Fastio do vazio. A palavra que importava era o silêncio. Calar das palavras que nada diziam.
Via agora. Ridículo. Sabia-se ridículo. Simplesmente Ridículo. Não! Complicadamente Ridículo. Pleonasmo do ridículo.
Tudo que escrevera era ridículo. Não. O Nada que escrevera que era ridículo. Só escrevera sobre nada. Toda palavra era bruma. Dissipada a névoa, nada existia. Decifrado o código, não havia mensagem. Máscara sem rosto. Garrafa de náufrago vazia.
Fechou o arquivo. Imprimiu, com as devidas capa e contracapa, as páginas de nada. Encadernou-as caprichosamente em brochuras transparentes. Arrumou um lugar na estante. Prateleira de escritos ridículos sobre o nada. Cheia. Registrou o número de tombo no arquivo da memória, na seção de sonhos esquecidos. Nas vizinhanças do setor dos rostos perdidos, dos nomes esquecidos. Dizem que lá segue devidamente depositada. Jaz em paz uma coletânea ridícula sobre o Nada.
O arquivo seguiu convertido e salvo. Ele, repetido e perdido na busca do Nada. Na falta de inteligência, resta seguir. Na falta do que dizer, repetir. Repeti-la. Repetir o Nada

Qualquer Um, Menos Aquele que Busca Aquela
do Tudo, Menos Aquilo

Perdas e Danos

Me perdi no ideal dos ventos
Tão longe de casa
Longe de mim
Sem voltas
Nunca mais serei
Aquela que deixei perder-se

{ Lyani } 30/8/2006

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Um título com medo

Medo. Medo de escrever e não sair nada. Não rimar condão com fada. Não confrontar a metáfora com a ênclise, atrás da porta que acabei de grafar. Medo do til ter medo de altura, e transformar meu ão em um monossilábico ao, com a redução do o a u, uma semivogal. Medo do i não aceitar o pingo, e ao lado de um zero, formar uma facção de códigos binários. Medo do ar não entrar pelo fonema, e este nunca sair nasal. Medo do texto atonal. Medo da falta de rimas métricas e assimétricas. Medo de sequestro de letras. Do papel em branco. Medo do silêncio do teclado. Do estado hiperbólico das sentenças. Morrer de medo. Estar aquém de um grande verso. Medo do reverso da poética. A metálica forma do medo. Medo de escrever plástico só por sua acepção. Medo das crases. Dos acentos circunflexos, por não existirem os circônflacos. Medo dos flancos do dois pontos. Medo do assombro sem exclamação. Medo do não com ponto final. Do mal uso da cedilha. Das filhas da letra ésse quando se unem aos verbos. Do que fazem com eles. Medo da interrogação. Medo de títulos e epígrafes. Medo de gafes. Medo da origem das palavras. Se nascem mortas de medo. Medo das línguas esquecidas serem as mesmas das quais me lembro. Medo de abuso do texto. Do limite de linhas. Dos rodapés e rubricas. Medo que o trema não seja nunca mais utilizado. E com ele vá-se embora toda a intriga. Medo da falta de idéias. Ou do extremo oposto. Algumas delas ressurgirem do esquecimento para o repetido uso. Medo do p e b mudos. Do hífen do contra-ataque da curva dramática de um texto. Do abandono entre parênteses das reticências por medo. Medo do travessão e da vírgula. Do narrador e da terceira pessoa. Do protagonista. Do epílogo. De uma frase sair à toa. Medo de assinar o final do texto. Da confissão do confuso. Do mal hábito de sentir tudo muito absurdo. E saltar. Soltar a folha cheia de medos por cima do resto do mundo.

Ana Peluso in
texto inédito enviado pela autora ao site Releituras

Quem?

{ Corbis }

♪ Então eu olhei ao redor, todos os olhos voltados pro chão
enquanto a TV divertia a si mesma
Porque não há conforto na sala de espera
Só nervosismo ritmado pela espera da má notícia
Aí a enfermeira chega e todos levantam a cabeça
E eu estou pensando no que Sarah disse: que amar é ver alguém morrer…

Quem vai te ver morrer? ♪

. Death Cab for Cutie in What Sarah Said.

Arrumar para esquecer

XV Desafio Incubadora Literária
Tema: Mania
Período para votação: 17 a 19 de Novembro

Talvez pela imperceptível inclinação da mesa, a ponta de um dos lápis, dispostos extremamente alinhados, estava agora um pouco afastada. Exatos três milímetros. Ele não pôde deixar de notar e ajeitou-a de forma a ficar perfeitamente alinhada. Depois organizou os papéis na gaveta e as canetas no pote de acrílico por ordem de cores. No caminho para o banheiro, arrumou o quadro na parede e a mesa onde deixavam o café, que estava mais afastada da parede no lado esquerdo.

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