Descobertas

De repente descobri o imenso abismo entre nós. Negro, obscuro, amedrontador. E também descobri os filetes de terra que nos ligavam. Finos, fracos, esporádicos. Descobri o medo em meu peito e o efeito de perda das lágrimas que caiam no abismo e o efeito devasto das que caiam sobre o filete de terra. Cada lágrima caída no abismo era um lágrima perdida de um sofrer sem conseqüências nem validade e cada lágrima caída no filete de terra ia nos devastando aos poucos, nos afastando aos poucos até desligar mais um elo que nos une. Muitos elos já se romperam, outros foram refeitos, alguns perderam-se para sempre… E é triste saber que não há muito o que fazer.

Descobri que aquele abismo poderia ser um lindo vale de grama verde e flores de campo, mas descobri também que o mesmo abismos era apenas reflexo de nossos corações. A imagem refletida de nós. Descobri o que talvez pudesse ser o nosso grande erro: nossos olhos estavam fitos um no outro, mas estavam mergulhados em nós mesmos, quando deveriam estar no horizonte, olhando na mesma direção.

Descobri que a necessidade de estar sempre juntos não era amor, mas insegurança, medo de quebrar os elos que nos mantinham unidos. Descobri que a vontade de ficarmos sozinhos não era simples necessidade, mas vácuos de nossa distância, ventos úmidos dos abismos entre nós. Descobri que as desculpas tornaram-se saídas, os perdões maneiras de manter os elos. As palavras não ditas, revoltas não proclamadas, tornaram-se sombras dos nossos medos onde nos escondíamos da luz da verdade, a certeza que fingíamos não ver.

Descobri que os telefonemas tornaram-se tão presentes quanto a presença e era clara a certeza do mais substituto do tão. De repente descobri que o brilho dos olhos eram apenas lágrimas não derramadas, o abraço apertado uma forma de despedida não pronunciada. A impaciência e inquietude, eram apenas sentimentos de culpa contra a própria falta de coragem de acabar o já terminado. Descobri mundos secretos em mim, vontades escondidas, medos que ainda não havia sentindo. Descobri a distância em seus olhos, refletidos como espelhos nos meus me mostrando coisas que não estava preparada pra ver em mim.

Descobri tantas coisas num estalar de dedos, que ainda não conseguia enxergar e tive medo de prosseguir, pois descobri em mim a covardia de minha descrença no amor…

{ Lyani } 13/01/2002

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13 comentários sobre “Descobertas

  1. Ariadne disse:

    “Descobri que a necessidade de estar sempre juntos não era amor, mas insegurança, medo de quebrar os elos que nos mantinham unidos…”

    Simplesmente sou sua fã!

    Beijos

  2. Mai disse:

    Oi, Lyane.
    Drummond escreveria um texto assim. Porque não olhava o céu. Não era um poeta das nuvens.
    Olhava o abismo. Assim como neste texto tu escreveste.

    Lindo, Lyani.
    Vê, estava certa.

    Carinho, sempre.

  3. Natiih disse:

    As vezes os olhos parecem ver tudo,mas não vêem nada. As vezes,os filetes de terra parecem maiores e indestrutiveis,mas na verdade,há quase somente o abismo. Nem tudo é flores,é preciso descobrir e decidir.

    Beijos

  4. Edu disse:

    Cara ,

    Texto que cheira a dor. Daquelas dores que nos acompanham, feito bichos de estimaçao.
    Texto que cheira a algo que, um dia, foi muito verdadeiro.
    Vi a data e fiquei curioso. Estas descobertas, depois de tanto tempo, ainda permanacem? Ou já se encobriram novamente?
    1ab

  5. Sandra Leite disse:

    Ly

    a distância às vezes é tão intensa que nem percebemos. Cega e não sentimos. Adormecemos. Tenho pânico desse sentimento. Mais do que a solidão, é a solidão a dois. talvez também por isso (além da minha covardia) tenha feito um pacto com o estar só sozinha. é minha grande desculpa para o meu fracasso de estar no outro. é meu medo. é minha certeza real da incompletude para sempre.
    bjos

  6. Nathália disse:

    “(…) o abraço apertado uma forma de despedida não pronunciada.”

    O pior abraço do mundo.
    Seu texto abre um vazio. Mas, olha, isso é bom. Sei lá, é verdadeiro.

    Beijo!

    Ps.: Acho que não vou mudar o banner não. Rsrs. Gosto muito dele.

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