Meu Primeiro Amor

XVI Desafio Incubadora Literária
Tema: Segredo(s)
Período para votação: 05 a 08 de Dezembro

Ela ainda era uma criança, para aquela época. Nos dias de hoje já estaria se maquilando e indo ao shopping sozinha com as amigas e quem sabe comentando dos meninos com quem ficara na última balada. No entanto, a época era outra e ela ainda brincava de boneca e mantinha um diário rosa cheio de figurinhas brilhantes bem escondido no meio das blusas de inverno no maleiro. Tinha cabelos longos e encaracolados que iam até o meio das costas e os olhos já começavam a perder o tom esverdeado que os tornavam idênticos aos da avó paterna. Tinha chegado recentemente de Minas Gerais e estava praticamente seis meses adiantada nas lições da escola, o que a deixava com muito tempo livre para brincar a vontade e sonhar muito também. Já carregava em si um mundo interno e pesado demais para sua idade que às vezes transbordava em palavras soltas e desconexas no diário secreto.

Ela era nova demais para entender o motivo que a levou àquele pensamento tão adulto e desconexo com o seu mundo, quando o viu pela primeira vez. “Eu vou me casar com ele” foi o pensamento enquanto seus olhos que já começavam a perder o brilho infantil, o olhavam atentamente. Ele era demais. Alto demais, magro demais, branco demais. E usava umas roupas escuras demais e tinha um sorriso bonito demais. E era estranho demais vê-lo sentado no balanço do parquinho do prédio onde moravam, porque ele já era grandinho demais pra isso. Sua melhor amiga o apresentou e quando ele a cumprimentou, os amigos dele soltaram risinhos que a fizeram ficar vermelha demais.

O nome dele tinha um som bonito nos seus lábios quando o ficava soletrando deitada no sofá, ou sentada no mesmo balanço onde ele estivera naquele primeiro dia. Seu coração batia descompassado quando imaginava que o encontraria de novo nas escadas do prédio, na portaria, na garagem. Não deixou de brincar com suas amigas, nem de correr feito moleca por entre as flores do jardim, nem de apostar corrida na piscina ou andar de patins na garagem deixando aquela senhora do primeiro andar possessa. Mas entre um sorriso e outro, um jogo e outro, uma brincadeira e outra, lá estava ele e aquele nome de cinco letras a espreitar seus pensamentos.

E ele começou a aparecer mais vezes. Vinha sempre ficar ao seu lado, dizia seu nome lentamente, como se soletrasse letra por letra, como ela fazia quando estava sozinha e pedia para brincar com ela, mesmo já sendo um tanto crescido para isso. Haviam três longos anos entre as idades deles, e fazia uma boa diferença. Ela se esquivava, dava respostas tortas e rudes, fazia cara feia pra ele. Mas ele só sorria, e persistia em ficar sempre perto dela. Era incrível como ele começou a aparecer a todo momento e em todos os lugares. E enquanto o afastava com respostas atravessadas, suspirava sozinha em casa, sonhando com o futuro quando seriam um casal feliz.

Nunca poderia se esquecer do dia em que ele, lá da janela do quarto andar, onde ele morava, gritou que a amava quando ela chegou da escola numa quarta-feira. Fechou a cara pra ele, andou depressa pra sumir da frente do porteiro que ria do inusitado rapaz. Todo mundo já sabia que ele gostava dela, e que ela também gostava dele e adoravam ficar assistindo as discussões bobas, as respostas atravessadas, as tentativas infrutíferas, os sorrisos e olhares secretos.

Ela achava que o amor que sentia por ele era o seu segredo e escondia seu diário cheio do nome dele e de corações de todas as cores, cada vez mais. Não queria gostar tanto dele, não queria sentir vontade de vê-lo a toda hora, de estar com ele. Não queria admitir que adorava todas as investidas dele, aquele sorriso de canto que ele lhe dirigia, e os elogios e cantadas baratas que faziam todos ao redor rir. Adorava, mas sabia que era nova demais, que não era a hora, que não era o tempo e guardava tudo aquilo secretamente no coração. Era o seu segredo que todo mundo conhecia.

Ela tinha certeza que não. E seu pai veio com a notícia da mudança: iriam para outra cidade. O primeiro pensamento que teve foi de susto e dor. E foi dele. Como assim iriam se mudar? E o que sentia por ele? E o amor dos dois que em seu tempo correto viria a se concretizar? Seriam felizes juntos, será que os pais não entendiam isso? Não. Não entendiam. Ela se despediu de todo mundo. Menos dele.

Foi quando a infância realmente se foi, junto com o tom esverdeado dos olhos que por fim decidiram-se castanhos. Foi quando se viciou em chocolate e em romances impossíveis. Foi quando começou a chorar. Ele, seu segredo, ainda ardia nas lembranças, ainda fazia falta no dia-a-dia, ainda estava em seus diários, mesmo depois de anos. Cresceu, alimentando um amor platônico que não a deixava ver nenhum outro. Lia demais, estudava demais, assistia desenhos demais, porque ele doía demais.

E ela ainda era nova demais pra entender que certas coisas não mudam com o tempo. Quando, a convite daquela sua melhor amiga, voltou ao prédio onde morara para passar alguns dias, o coração batia descompassado de imaginar que o veria novamente. Não o viu neste primeiro dia. Nem no segundo, nem no terceiro. Sabia que ele continuava morando ali, mas tinha vergonha de perguntar o que quer que fosse sobre ele a amiga.

Mergulhada em seus pensamentos numa tarde, resolveu descer para o jardim enquanto a amiga tomava banho. Ao fechar a porta e virar-se, lá estava ele com aquele sorriso de canto. Muito mais alto, mais velho, mais bonito. Mas ainda com aquelas roupas escuras e os cabelos longos que iam até as costas. Algo que preservaria para sempre era a voz das amigas dizendo que ele era muito esquisito para ela, e ela sempre retrucando que não tinha nada a ver com ele.

E ali mesmo no meio da escada, sem dizer sequer uma palavra, ele a puxou pra si e a beijou. Todas as barreiras do tempo, da idade, do medo, da infância-juventude se desfez com aquele primeiro beijo. Ah, o primeiro beijo. Molhado, estranho, ruim mesmo. Ela se afastou, vermelha como uma pimenta.

“Porque não se despediu de mim?”

“O que?” Ela piscou algumas vezes, os olhos castanhos escuros ali na escada.

“Você mudou um pouco. Seus olhos eram verdes com pintinhas” Ele sorriu, e puxou-a pra perto de novo, olhando-a profundamente. “As pintinhas ainda estão aqui”

E houve um segundo beijo rápido, um terceiro demorado. Foi ficando melhor com o tempo, com o jeito que foram encontrando de encaixar os lábios melhor, de sentir o gosto do outro melhor daquele jeito juvenil. E depois a conversa de mãos dadas, os sorrisos, as testas encostadas, o respirar o mesmo ar que durou alguns minutos, e pareceram horas, uma vida inteira aquele momento secreto. Só deles. Aquele primeiro-amor-segredo, aquele secreto primeiro beijo.

Mas nem tudo é sempre perfeito, nem todo final é feliz. Na verdade não houve um final, só caminhos diferentes. Ela se foi de novo. Despediu-se dele com um beijo e o gosto que jamais esqueceria. Dessa vez para sempre.

{ Lyani } 25/11/2008

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9 comentários sobre “Meu Primeiro Amor

  1. léia disse:

    Como você escreve bem, como eu gosto de ler seu blog, e olha descobri por acaso, no orkut, é tão bom vir aqui.

    Esse pequenino conto é tão juvenil, meigo cheio de verdades em suas palavras. Bela construção de texto.

  2. w.Moscolini disse:

    Eu acho que não tive direito a um primeiro amor. Apenas ao amor de hoje, que persiste e revigora-se a cada instante. É, eu realmente não tive o primeiro amor, apenas o único e completo que vivo hoje. Seria falta de opções ou a certeza em optar?
    Ahhh!!! Isso tem sido tão difícil…

  3. Edu disse:

    Cara Ly,

    Terno e melancólico. Realismo feminino que sabe “que coincidência é o amor”.
    O “sim como descuido do não”.
    Assim mesmo, o descuido que lembra das possibilidades da vida. Possibilidadades em meio às impossibilidades.
    Parece que o preço de a ser forte e belo é ser fugaz. Fugaz, “pero”eterno.
    bj

    Edu

    PS- Continuo no aguardo do seu livro, já reservei até número de tombo para ele:-)

  4. Poetic Girl disse:

    Uau que texto mais lindo. Fiquei com lágrima no canto do olho, com saudade desse tempo em que os sentimentos eram tão verdadeiros. Algo que agora se está a perder…. Um bom fim de semana. Bela

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