Tamanha dor

Por quatro dias, o estado de Renato se alternava entre consciência e inconsciência. Ele acordou com o rosto rente ao piso de pedra, forrado de palha molhada de urina e fezes de rato. Ao tossir, expeliu coágulos de sangue, mas também longos fios de tecido limpo, que se desfaziam em seus dedos. Parecia que suas entranhas estavam se liquefazendo, como se seu corpo se desmanchasse de dentro pra fora. Ele estava com sede, mas a princípio não alcançava o pote co água. Depois, quando conseguiu agarrá-lo com as mãos trêmulas e despejar um pouco na boca, a dor de engolir o fez desmaiar de novo. Em seus sonhos, ele estava novamente amarrado na escada inclinada, a água jorrando em sua boca, e ele engolia sem querer, o que forçava o estreito pedaço de linho cada vez mais fundo em suas entranhas. Renato não sabia que tamanha dor era possível. Em silêncio, pois era impossível falar, ele rezava, pedindo pra morrer. Mas suas preces não foram atendidas, pois, quando acordou, ainda estava deitado lá, vendo os olhos vermelhos dos ratos fitando-o no escuro. No quinto dia, ele ficou mais acordado que inconsciente; e, no sexto, conseguia se arrastar para uma posição sentada, recostando-se na parede. Só o que tinha a fazer agora era esperar, e se lembrar.
Depois do quinto dia de água, quando o pano já estava bem no fundo de sua garganta, o Inquisidor tinha voltado ao lugar de relaxamento. Eles haviam estendido a escada, enquanto ele engasgava e se contorcia de dor. E então Renato viu, por fim, a evidência contra ele, e sabia finalmente o que teria que confessar. Entre dois dedos, o padre segurava uma longa tira de couro marrom, uma pequena caixa quadradada. Dentro da caixa estava a palavra de Deus, inscrita na letra impecável de seu pai.
─ Vocês, falsos convertidos, são um veneno, corroendo o coração da igreja. ─ o padre disse. ─ Rezam suas orações imundas em segredo, e, depois, poluem nossa igreja com sua presença mentirosa entre nós.
Renato não podia responder, fosse para confessar ou repudiar as acusações. Falar com um tecido enfiado até a garganta não era possível. O padre permaneceu lá enquanto eles revertiam a escada, jogavam mais água e, por fim, com uma força súbita, chocante, puxavam o pano, que havia penetrado em seu abdômen. Renato sentiu como se todas as entranhas estivessem sendo arrancadas garganta acima. Ele desmaiou e, quando acordou, estava sozinho na cela.

Geraldine Brooks in As Memórias do Livro


Renato
(del Salvador) não sabia que tamanha dor era possível.
Eu me pergunto que tamanha maldade é possível?
Renato (Russo) me responde que nem os santos têm ao certo a medida da maldade…

9 comentários sobre “Tamanha dor

  1. Patí Costanti disse:

    INCRÍVEL o texto… não há nada mais para dizer. Bom, também é incrivel acreditar que o homem pôde chegar tão longe… e até mais longe que isso!
    Excelente a sua citação Lyani! Beijos.

  2. Esther disse:

    Puxa, Ly,

    vc que emociona! Este é o meu primeiro selo e estou feliz como uma criança, só que de maneira inversa. O ato de ofertar está sendo o meu maior presente!..

    Seja feliz, sempre!bj

  3. Esther disse:

    Ly,

    acontecem coisas inexplicáveis por aqui.. meu post do selo sumiu misteriosamente… ainda bem que o Blogger salva automaticamente e pude postar novamente… pode passar agora ..

    bj

  4. Esther disse:

    Querida Lyani,

    Depois dá uma passada no meu blog, tenho um presentinho para vc, é pequeno mas é de coração, dado por reconhecimento por tudo o que tenho aprendido com suas letras inspiradoras.

    bjs!

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