Direito de viver

─ Ari, o Seder vai começar.
Ele virou-se e olhou para ela. Kitty recuou, como se tivesse levado uma pancada, tal o choque causado pelo sofrimento estampado no rosto de Ari: um sofrimento como ela jamais vira num ser humano. Seus olhos estavam cheios de angústia. Olhava para ela, mas não parecia vê-la. Virou-se, escondeu o rosto nas mãos e seus ombros relaxaram, derrotados.
─ Ari… está na hora do Seder…
─ Toda minha vida… toda a minha vida… os vi matar todos aqueles que eu amava… todos se foram agora… todos.
As palavras pareciam sair-lhe do mais fundo do desespero. Kitty estava espantada e um tanto assustada com a emoção quase tangível que torturava aquele homem – agora, quase um estranho – à sua frente.
─ Eu morri com eles. Morri mil vezes. Sinto-me vazio por dentro… Tiraram-me tudo.
─ Ari… Ari…
─ Por que temos de mandar jovens para esses lugares? {…}
Tentou pôr-se de pé. Toda a força, todo o poder, todo o autocontrole que faziam dele Ari Ben Canaan tinham desaparecido, deixando apenas um homem cansado, vencido.
Por que temos de lutar todos os dias pelo direito de viver cada vez que o sol se levanta?
Os anos de tensão, os anos de luta, os anos de sofrimento fizeram-no erguer ao céu o rosto transtornado e levantar os punhos cerrados.
─ Meu Deus, por que eles não nos deixam em paz? Por que não nos deixam viver?
{…} Ari Ben Canaan chorou.
Era terrível ouvi-lo chorar. Chorava por todas as vezes em sua vida que não ousara chorar. Chorava com uma tristeza que parecia sem fim…

Leon Uris in Exodus