Rainha Inconquistada

A esposa do emir estava em pé, de costas para mim. Era uma mulher alta, e trajava um vestido bordado que caía pesadamente dos ombros e se estendia até o piso debaixo de seus pés. Seus cabelos, ainda um pouco úmidos, escorriam soltos pelas costas. As cores eram notáveis, pois havia muitas: dourado pálido, entrelaçado com âmbar reluzente, caloroso, iluminado por baixo com fios tão vermelhos quanto repentinas línguas de fogo. Apesar do meu nervosismo, eu já começava a pensar em como pintar aquilo. Então, ela se virou, e a expressão em seu rosto afastou todo aquele pensamento de minha mente.
Seus olhos também eram de uma cor notável: dourado escuro, como mel. Ela tinha chorado, como demonstravam o vermelhidão em volta dos olhos e o tom mosqueado irregular daquela pele branca. Não chovara agora, contudo. Seu olhar não era de tristeza, mas de raiva. Ela se mantinha rígida, como se fosse sustentada por uma haste de ferro. Apesar disso, ou talvez por causa do esforço que lhe custava aquela postura real, seu corpo balançava, agitado por um tremor que mal era discernível.
─ Você tem suas ordens. Comece o trabalho ─ disse.
─ Mas talvez a senhora prefira se sentar, ya emira? Porque vai levar algum tempo…
─ Ficarei em pé! ─ ela disse, e os olhos pareciam reluzir, úmidos.
Ela ficou em pé aquela tarde inteira, interminável. Minhas mãos tremiam sob aquele olhar feroz, magoado, enquanto eu abria minha caixa e arrumava os materiais. {…} Trabalhei sem fazer uma única pausa, e ela não se moveu nem desviou os olhos.
{…}
Depois de fazer minhas orações atrasadas, e de comer e beber alguma coisa, eu vislumbrei mais uma vez o pergaminho, com novos olhos e nova maneira de interpretá-lo. Então, vi claramente o que ela tinha feito. Ficara de pé para mostrar que não se abatia mesmo ante quaisquer atos insanos de violação por parte do emir. A imagem que ele levaria consigo era de uma rainha inconquistada, uma rocha que ele não podia quebrar. E percebi outra coisa, enquanto estudava o retrato. Não havia nele o menor indício das lágrimas nem do tremor que revelavam sua luta por trás daquela exibição de força. Eu sabia que ela não queria demonstrar aquilo, e nessa ocultação eu havia me tornado sua cúmplice.

Geraldine Brooks in As Memórias do Livro

4 comentários sobre “Rainha Inconquistada

  1. Esther disse:

    Querida Lyani,

    Quero lhe desejar um Natal Diferente, Inteiro e Sem Aspas,
    não como os outros,
    mas que neste o significado verdadeiro esteja no seu coração,
    nas suas ações, nas suas amizades e refletida na sua caminhada.

    Que 2009 seja um sopro de coisas boas em sua vida!
    E tenho
    certeza que será! Que venha a realização dos sonhos desejados
    e batalhados. Este é o meus mais sinceros votos
    não só para
    você, mas também para toda a sua família.

    Adorei te conhecer em 2008! E que venha 2009!!

  2. Andre L. Soares disse:

    Nada melhor, como propaganda de um livro, que um trecho bem escolhido do mesmo. Esse, de fato, deixou-me ocm vontade de ler o livro todo. Embora curto, a parte escolhida denota grande recurso intimista e desperta muita curiosidade. Parabéns a você pela sensibilidade que lhe permitiu selecionar essa passagem.

    Um abraço!

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