Librarians

Direito de viver

─ Ari, o Seder vai começar.
Ele virou-se e olhou para ela. Kitty recuou, como se tivesse levado uma pancada, tal o choque causado pelo sofrimento estampado no rosto de Ari: um sofrimento como ela jamais vira num ser humano. Seus olhos estavam cheios de angústia. Olhava para ela, mas não parecia vê-la. Virou-se, escondeu o rosto nas mãos e seus ombros relaxaram, derrotados.
─ Ari… está na hora do Seder…
─ Toda minha vida… toda a minha vida… os vi matar todos aqueles que eu amava… todos se foram agora… todos.
As palavras pareciam sair-lhe do mais fundo do desespero. Kitty estava espantada e um tanto assustada com a emoção quase tangível que torturava aquele homem – agora, quase um estranho – à sua frente.
─ Eu morri com eles. Morri mil vezes. Sinto-me vazio por dentro… Tiraram-me tudo.
─ Ari… Ari…
─ Por que temos de mandar jovens para esses lugares? {…}
Tentou pôr-se de pé. Toda a força, todo o poder, todo o autocontrole que faziam dele Ari Ben Canaan tinham desaparecido, deixando apenas um homem cansado, vencido.
Por que temos de lutar todos os dias pelo direito de viver cada vez que o sol se levanta?
Os anos de tensão, os anos de luta, os anos de sofrimento fizeram-no erguer ao céu o rosto transtornado e levantar os punhos cerrados.
─ Meu Deus, por que eles não nos deixam em paz? Por que não nos deixam viver?
{…} Ari Ben Canaan chorou.
Era terrível ouvi-lo chorar. Chorava por todas as vezes em sua vida que não ousara chorar. Chorava com uma tristeza que parecia sem fim…

Leon Uris in Exodus

Solidão

 

E então, assim
Tudo termina sem fim
Num jeito terrível de ser solidão

{ Lyani } 04/04/2002

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil License.

Presente: Blog de Sonhos

Ganhei este presente lindo da Esther do Esterando.
Muito obrigada pelo carinho, incentivo e delicadeza, adorei!

Tamanha dor

Por quatro dias, o estado de Renato se alternava entre consciência e inconsciência. Ele acordou com o rosto rente ao piso de pedra, forrado de palha molhada de urina e fezes de rato. Ao tossir, expeliu coágulos de sangue, mas também longos fios de tecido limpo, que se desfaziam em seus dedos. Parecia que suas entranhas estavam se liquefazendo, como se seu corpo se desmanchasse de dentro pra fora. Ele estava com sede, mas a princípio não alcançava o pote co água. Depois, quando conseguiu agarrá-lo com as mãos trêmulas e despejar um pouco na boca, a dor de engolir o fez desmaiar de novo. Em seus sonhos, ele estava novamente amarrado na escada inclinada, a água jorrando em sua boca, e ele engolia sem querer, o que forçava o estreito pedaço de linho cada vez mais fundo em suas entranhas. Renato não sabia que tamanha dor era possível. Em silêncio, pois era impossível falar, ele rezava, pedindo pra morrer. Mas suas preces não foram atendidas, pois, quando acordou, ainda estava deitado lá, vendo os olhos vermelhos dos ratos fitando-o no escuro. No quinto dia, ele ficou mais acordado que inconsciente; e, no sexto, conseguia se arrastar para uma posição sentada, recostando-se na parede. Só o que tinha a fazer agora era esperar, e se lembrar.
Depois do quinto dia de água, quando o pano já estava bem no fundo de sua garganta, o Inquisidor tinha voltado ao lugar de relaxamento. Eles haviam estendido a escada, enquanto ele engasgava e se contorcia de dor. E então Renato viu, por fim, a evidência contra ele, e sabia finalmente o que teria que confessar. Entre dois dedos, o padre segurava uma longa tira de couro marrom, uma pequena caixa quadradada. Dentro da caixa estava a palavra de Deus, inscrita na letra impecável de seu pai.
─ Vocês, falsos convertidos, são um veneno, corroendo o coração da igreja. ─ o padre disse. ─ Rezam suas orações imundas em segredo, e, depois, poluem nossa igreja com sua presença mentirosa entre nós.
Renato não podia responder, fosse para confessar ou repudiar as acusações. Falar com um tecido enfiado até a garganta não era possível. O padre permaneceu lá enquanto eles revertiam a escada, jogavam mais água e, por fim, com uma força súbita, chocante, puxavam o pano, que havia penetrado em seu abdômen. Renato sentiu como se todas as entranhas estivessem sendo arrancadas garganta acima. Ele desmaiou e, quando acordou, estava sozinho na cela.

Geraldine Brooks in As Memórias do Livro


Renato
(del Salvador) não sabia que tamanha dor era possível.
Eu me pergunto que tamanha maldade é possível?
Renato (Russo) me responde que nem os santos têm ao certo a medida da maldade…

10.12 – 88º Aniversário de Clarice

Nasci dura, heróica, solitária e em pé. E encontrei meu contraponto na paisagem sem pitoresco e sem beleza. A feiúra é o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual. E desafio a morte. Eu – eu sou a minha própria morte. E ninguém vai mais longe. O que há de bárbaro em mim procura o bárbaro e cruel fora de mim. Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam às chamas da fogueira. Sou uma árvore que arde com duro prazer. Só uma doçura me possui: a conivência com o mundo. Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite”

. Clarice Lispector in Água Viva .

Foi ontem que eu corri na chuva

Foi ontem que eu corri na chuva
Da chuva, pela chuva, com a chuva
Gotas geladas que trouxeram
Um sorriso, um suspiro e uma tristeza
Abri as mãos querendo segurar aquele segredo
Água que escorre levando
Um beijo, uma dor e uma lembrança

{ Lyani } 05/12/2008

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Brasil License.

08.12 – 114º Aniversário de Florbela Espanca

Este post faz parte da blogagem coletiva proposta por Flor♥:

Interlúdio com Florbela

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento…
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo “Pedro Sem”,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre… desfa-se…
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida…

Amar-te a vida inteira eu não podia,
A gente esquece sempre o bom de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!

. Florbela Espanca .

Breath

 

♪ 2 am and I’m still awake, writing a song
If I get it all down on paper
It’s no longer inside of me, threatening the life it belongs to
And I feel like I’m naked in front of the crowd
Cause these words are my diary, screaming and loud
And I know that you’ll use them, however you want to ♪

. Breathe (2 AM)Anna Nalick .

Meu Primeiro Amor

XVI Desafio Incubadora Literária
Tema: Segredo(s)
Período para votação: 05 a 08 de Dezembro

Ela ainda era uma criança, para aquela época. Nos dias de hoje já estaria se maquilando e indo ao shopping sozinha com as amigas e quem sabe comentando dos meninos com quem ficara na última balada. No entanto, a época era outra e ela ainda brincava de boneca e mantinha um diário rosa cheio de figurinhas brilhantes bem escondido no meio das blusas de inverno no maleiro. Tinha cabelos longos e encaracolados que iam até o meio das costas e os olhos já começavam a perder o tom esverdeado que os tornavam idênticos aos da avó paterna. Tinha chegado recentemente de Minas Gerais e estava praticamente seis meses adiantada nas lições da escola, o que a deixava com muito tempo livre para brincar a vontade e sonhar muito também. Já carregava em si um mundo interno e pesado demais para sua idade que às vezes transbordava em palavras soltas e desconexas no diário secreto.

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