O Sagrado e o Alcançável

Sem uma palavra a escrever, Martim no entanto não resistiu à tentação de imaginar o que lhe aconteceria se o seu poder fosse mais forte que a prudência. «E se de repente eu pudesse?», indagou-se ele. E então não conseguiu se enganar: o que quer que conseguisse escrever seria apenas por não conseguir escrever «a outra coisa». Mesmo dentro do poder, o que dissesse seria apenas por impossibilidade de transmitir uma outra coisa. A Proibição era muito mais funda…, surpreendeu-se Martim.
Como se vê, aquele homem terminara por cair na profundeza que ele sempre sensatamente evitara.
E a escolha tornou-se ainda mais funda: ou ficar com a zona sagrada intacta e viver dela – ou traí-la pelo que ele certamente terminaria conseguindo e que seria apenas isso: o alcançável.
Como quem não conseguisse beber a água do rio senão enchendo o côncavo das próprias mãos – mas já não seria a silenciosa água do rio, não seria o seu movimento frígido, nem a delicada avidez com que a água tortura pedras, não seria aquilo que é um homem de tarde junto do rio depois de ter tido uma mulher. Seria o côncavo das próprias mãos. Preferia então o silêncio intacto. Pois o que se bebe é pouco; e do que se desiste, se vive.

Clarice Lispector in A Maçã no Escuro

7 comentários sobre “O Sagrado e o Alcançável

  1. léia disse:

    Clarice Lispector e suas palavras em construção de textos e estórias que nos fazem parar.
    Eu li esse livro, entre outros dela, pois a amo, e confesso que tanto esse fragmento, quento mais dois que se seguem nesse livro, me perturbam até hoje, de fato o alcançável é tudo o que podemos pegar, usufruir, sentir, ou, é tudo aquilo que pensamos que podemos ter?

  2. Edu disse:

    Cara,

    Bonito que dói.
    Tão forte que não posso comentar. Vou embora com este texto. Passear com este texto um pouco.
    No café da manhã, será minha companhia.
    Depois, bem depois. Ele fará parte de mim. Já não será Clarice, serei eu a pensar que “pois o que se bebe é pouco; e do que se desiste, se vive”…
    Obrigado
    Edu

  3. Sakura-Kiss disse:

    Lyy *-*
    Obrigada pelo “feliz 2009”
    Parei de atualizar meu blog, o tadinho tava parado desde Novembro. Coloquei um pequeno texto que escrevi, e virão outros. Serão pequenos trechos que contam partes de uma história de amor de duas pessoas, sem nome. Não gosto de dar nomes. Eles são desnecessários. Ai sempre, coloco um vídeo que se encaixe no trecho (provável que alguns irão se repetir, huauahuah) Espero que goste!

    Seu blog tá uma gracinha!
    *-*

    Kissus!

  4. Lizzie disse:

    Clarice é quase meu alter-ego. Só que ela sou eu com vícios. Eu não tenho vícios. No entanto, ela é quase-perfeita. Atinge a palavra escrita de uma forma que eu nem ouso imaginar. Ela concebe a palavra de uma singularidade que acredito que jamais alguém consiga “copiar” ou ser “comparado” à Clarice.

    Beijocas, Ly!
    Adoro vir aqui!

  5. Ruberto Palazo disse:

    Clarice sempre me deixa perplexo, pensativo e sem palavras… mas me fez pensar no alcançável, será que ele está em tudo aquilo que podemos pegar com a concha de nossas maos? Sei la, estou refletindo…rss

    Beijooo!

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