Ostra feliz não faz pérola

A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: “preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com uma esfera lisa que lhe tire as pontas…” Ostras felizes não fazem pérolas… Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar. O ato criador seja na ciência ou na arte, surge sempre de uma dor. Não é preciso que seja uma dor doída… Por vezes a dor aparece como aquela coisa que tem o nome de curiosidade. Este livro está cheio de areias pontudas que me machucaram. Para me livrar da dor, escrevi”.

. 4ª capa do livro “Ostra Feliz Não faz Pérolas” de Rubens Alves .

Um momento de desânimo

Em algum ponto deve estar havendo um erro: é que ao escrever, por mais que me expresse, tenho a sensação de nunca na verdade ter-me expressado.  A tal ponto isso me desola que me parece, agora, ter passado a me concentrar mais em querer me expressar do que na expressão ela mesma. Sei que é uma mania muito passageira. Mas, de qualquer forma, tentarei o seguinte: uma espécie de silêncio. Mesmo continuando a escrever, usarei o silêncio. E, se houver o que se chama de expressão, que se exale do que sou. Não vai mais ser: “Eu me exprimo, logo sou” Será: “Eu sou, logo sou.”

Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo

Ausência

A maior parte da jornada Tessa viajara ao seu lado e de vez em quando partilhavam de uma boa piada ─ geralmente depois de algum comentário passageiro ou irrelevante de Tessa, proferido em voz baixa. Outras vezes, tinham trocado reminiscências, ombro a ombro, cabeças para trás e olhos fechados como um velho casal, até que abruptamente ela o deixou de novo e a dor da ausência tomou conta dele como um câncer que, sabia, estava ali o tempo todo, e Justin Quayle lamentava sua mulher morta com uma intensidade que excedia suas piores horas no andar inferior da casa de Gloria, ou no enterro em Langata, ou na visita ao necrotério, ou no andar superior do número quatro”

. John Le Carrè in O Jardineiro Fiel .

exposição+literatura>Vidas Secas, de Graciliano Ramos

Por Fernando Aguiar

onde
IEB, travessa 8 da Av. Prof. Mello Morais, 140.
Cidade Universitária – São Paulo, tel. 3091 1149
quando
de 2ª a 6ª, das 9h-18h, sáb., das 10h-16h
quanto
grátis

O escritor Graciliano Ramos [1892-1953], nascido em Alagoas, estudou em Maceió mas não chegou a cursar faculdade alguma. No entanto, ele deixou obras-primas como Memórias do Cárcere, São Bernardo e Vidas Secas – usada à exaustão nos vestibulares –, que retrata a crueza da realidade nordestina nos anos 30. A obra completou 70 anos em 2008 e esse mote da exposição. Não apenas os personagens Fabiano, Baleia e Sinhá Vitória estão lá na mostra O Círculo e as Linhas Tortas, mas também todas as etapas de produção do livro, como por exemplo, fotos, manuscritos e outras edições.

Fonte: B.Coolt

Sim, é lá…

Você conhece esta doença febril que toma conta de nós nas frias misérias, esta nostalgia da terra que ignoramos, esta angústia da curiosidade? Existe uma região que se parece com você, onde tudo é belo, rico, tranquilo e honesto, onde a fantasia construiu e decorou uma China ocidental, onde a vida é doce de se respirar, onde a felicidade está casada com o silêncio. É lá que é preciso ir viver, é lá que é preciso ir morrer!
Sim, é lá que é preciso ir respirar, sonhar e alongar as horas pelo infinito da sensações. {…}
Sim, é nesta atmosfera que seria bom viver ─ lá, onde as horas, mais lentas, contêm mais pensamentos, onde os relógios batem a felicidade com mais profunda e significativa solenidade”

. Charles Baudelaire in Pequenos Poemas em Prosa .

Outono

04 de setembro

Do mesmo modo como a natureza declara agora o outono, também dentro e em volta de mim o outono se manifesta. As minhas folhas amarelecem, e as folhas das árvores vizinhas já caíram.

J.W. Goethe in Os Sofrimentos do Jovem Werther

Encontro de si mesmo

Sigo, me espero além, vou-me ao encontro,
rio feliz que enlaça e desenlaça
um momento de sol entre dois olmos,
sobre a polida pedra se demora
e se desprende de si mesmo e segue,
rio abaixo, ao encontro de si mesmo”

. Octavio Paz in Arcos .

Sobre escrever

Às vezes tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que, ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconsciente, eu antes não sabia que sabia”

. Clarice Lispector in A Descoberta do Mundo .

Desejo, e às vezes esperança

03 de novembro

Deus sabe quantas são as ocasiões em que me deito na cama com o desejo, e às vezes a esperança, de não tornar a acordar. E de manhã abro os olhos, revejo o sol e me sinto miserável!

J.W. Goethe in Os Sofrimentos do Jovem Werther

Sobre o Jardineiro mais fiel

No momento em que ela fosse à polícia queniana, teria que oferecer uma lista de seus inimigos, reais e potenciais. Sua perseguição ao grande crime seria abortada na hora. Seria obrigada a desistir da luta. Jamais faria isto. O grande crime era mais importante para ela do que sua própria vida.
Bem, é importante pra mim também. Mais importante do que minha vida”

. John Le Carré in O Jardineiro Fiel .

Eu estou na metade do livro, mas já assisti o filme umas cinco vezes e acho que já posso comentar. É uma história simplesmente tocante, não só porque enreda a pobreza e sofrimentos do povo africano, parte da nossa humanidade, mas também pelo amor fiel que Justin devota a Tessa e Tessa devota a sua causa humana e à Justin. A cada linha do livro, eu fico mais apaixonada por Justin, o jardineiro de personalidade serena, bombardeado por todos os lados com a insistência de que sua jovem esposa não apenas ajudava o médico jovem e bonito em sua ong e trabalhos humanitários, mas sim tinha um caso com ele. Fiel à memória de Tessa, ele começa a investigar os fatos sórdidos de seu assassinato, não se deixando esmorecer pelo fato de parecer que todos ao seu redor sabem mais sobre Tessa e no que realmente trabalhava nas longas noites em seu laptop ou nas viagens que fazia com Blum (o médico), do que ele mesmo. E ele mergulha com toda sua fé no que ela escrevia e lia e refaz todos os passos dela, descobrindo finalmente a verdade. E faz dessa verdade a sua própria verdade, como fica claro no trecho acima citado, indo até o fim no trabalho de amor à humanidade que ela havia iniciado. Isso, com toda certeza, é amor de verdade.