Essa Esperança

XXI Desafio Incubadora Literária
Tema: Desdobre o Texto
Período para votação: 06 a 09 de Março

“O que o acordou foi o silêncio. Primeiro, o do despertador que não tocou à hora combinada todas as manhãs. Depois, o de outra respiração, que devia ouvir e não ouvia. Estendeu a mão para o quente do outro lado da cama e encontrou o frio. Apalpou e encontrou vazio. Então, sim, despertou completamente”

. Miguel Sousa Tavares in Não te deixarei morrer, David Crockett .

Primeiro fitou o teto branco com duas estrelinhas daqueles adesivos que brilham no escuro e que tinham descuidadamente esquecido de tirar antes de pintar quando se mudaram. Suspirou três vezes, a última de forma profunda e dolorosa, como se aquela rotina diária doesse mais do que era capaz de suportar. Mas suportava. Todos os dias. Virou o rosto para o criado mudo e para a foto dela sorrindo estática. As sardas no rosto claro e os olhos cor de mel que sempre o encantaram. Uma lágrima poderia ter se desprendido dos cílios úmidos e corrido pela face pálida neste momento, mas não era a primeira vez que fazia isso. Não seria a última. Ainda não. E não houve lágrima, só o movimento de levantar-se. Sentou-se na cama, os ombros pesados. Havia se passado quanto tempo desde a última vez? Ergueu-se por inteiro e respirou o ar pesado da ausência arranjando força pra andar até o guarda-roupa. Abriu a primeira porta só para encontrar o vazio. Os cabides negros em contraste com a madeira clara sequer se moviam. Nunca. Abriu a segunda porta, a terceira e na última seu coração sempre disparava ao ver alguma roupa. Mas era a sua própria roupa. Era sempre a sua própria roupa. E era nesse momento que corria pela casa, gritando aquele nome tão seu, tão dela. Procurava no banheiro, na sala de estar, na copa, na cozinha. E então parava na sala, um pouco diante da porta de entrada ao lado daquele vaso que ela adorava e ali se lembrava, com olhos chocados e cansados que ela não estava lá. Nunca mais estaria lá de novo. Então se jogava no sofá, sempre no canto mais afastado do telefone porque sabia que tocaria, sempre no mesmo horário todo dia. Era sua mãe querendo que ele parasse com aquilo, que se lembrasse de que estava vivo e que tinha que voltar a fazer alguma coisa. Às vezes depois que o telefone tocava sem nenhuma menção dele atender, ela aparecia. Sempre meia hora depois da ligação, com aquele ar maternal, trazendo comida, conversando sobre coisas amenas, tentando persuadi-lo a ir a um psicólogo. E era sempre a mesma coisa. Olhar vazio para ela, para qualquer coisa ou qualquer um. Balançar de cabeça como se concordasse em fazer qualquer coisa só pra voltar a ficar sozinho e ela ia embora com o olhar mais triste do que quando chegara. Olhar de derrota. O seu também. Fazia quanto tempo desde o ultimo riso dela que ouvira naquela mesma sala? Quais foram as suas últimas palavras no jardim? Qual foi a última refeição que ela cozinhou? A última roupa que tocou? O último olhar foi em direção a que móvel? Quadro? Flor? Por quanto tempo ele fazia aquilo todo dia? Na esperança de que algum dia, ele iria acordar com a respiração dela e não com o silêncio. Que o despertador iria tocar no horário de sempre, e iria estender o braço e encontrar o corpo dela na cama ao seu lado e sorririam um para o outro. Tomariam café da manhã juntos e iriam trabalhar, esperando o momento de estarem juntos de novo. Por quanto tempo essa esperança iria perturbar ainda?

{ Lyani } 02.03.2009

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12 comentários sobre “Essa Esperança

  1. léia disse:

    Que trecho qe livro e que texto!
    Profundo, dolorido, angustiante e cheio de amor, mesmo nessa perda toda, ele deseja o amor de volta, não se sabe como tê-lo de volta (se é que isso é possível), mas ele anseia por aqueles momentos vividos que o tempo não traz de volta, restaram lembranças de tudo que foi vivido e, uma tentativa vã de se tentar reproduzir os últimos momentos.
    Adorei o seu desenvolvimento, teu texto mexeu muito comigo, algo lá dentro de mim, que, tento deixar lá no fundo, quieto, e que vc, com esse texto maravilhoso, cheio de expressão, fez despertar de volta, o que estava “adormecido” em mim.
    Eu amei!

  2. Leonardo Pastor disse:

    Desculpe-me por mandar um outro comentário assim seguido, mas acabei de pensar em algo interessante.

    Lá no Vísceras, criei um tópico “Meus hábitos de leitor”, fazendo parecido com o que fez Alessandro do Livros e Afins. Em seguida, André do Lendo.org fez sua lista e eu também.

    Minha ideia foi colocar, ao final do post, links de blogueiros que fizeram suas listas. Se você se interessar, acho uma ideia muito legal!

    Dê uma olhada:
    http://www.viscerasliterarias.com/2009/02/meus-habitos-de-leitor.html

    Abraços!

  3. Léia Carvalho - LC disse:

    passo com frequência por aqui, mas nem sempre comento…
    se me permite fugirei o tema do texto:
    Vc CL e eu LC (rs)
    Sempre encontro coisas fantásticas aqui pelo teu cantinho.
    tenho uma parta de SUPER BLOGS no favoritos do meu explorer, vc está lá .
    bjim

  4. Talita disse:

    Muito de um eu existente dentro de mim depois de uma grande perda, esta revelado nas linhas desse texto…

    MARAVILHOSO LYANIII…

    BJS

  5. Natalie disse:

    há, volto sim! adoro esse mundo de palavras que vc fez aqui! sempre que tem novidades, venho olhar! =)
    obrigada pela visita!
    p.s.: o livro de saramago vale à pena mesmo! =)
    abração!

  6. Ester disse:

    Oi Lyani,

    O importante é que vc participe com algum texto relevante para a Blogagem, agradeço muito sua participação!

    O selo ficou lindo no alto da sua página!

    bjs,

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