A Morte e o Amor

Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Porque nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo ‘clima’, certa ‘preparação’. Certa ‘grandeza’. Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo ‘eterno’) cotidiano. A morte de alguém conhecido e/ou amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte e o amor. Porque o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma, dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor também é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade.

Caio Fernando Abreu in Pequenas Epifânias

18 comentários sobre “A Morte e o Amor

  1. geovane belo disse:

    Caio descortina o amor e a morte porque tem consciência de que são ferramentas feitas da mesma matéria. A vida condiciona esses dois gigantes e os coloca num confronto entre irmãos. O amor é vida, mas a morte, que é a fragmentação do viver, aniquila a possibilidade de amar.

  2. Samuel disse:

    Nunca tinha pensado na morte e no amor por este lado, afinal de contas, eles podem acontecer como um outro evento qualquer, e impactam de forma ‘pesada’ a nossa vida… mas nem por isso deixam de ser eventos possíveis de acontecer a qualquer hora….
    vou ficar pesando nisso…

  3. Roberta disse:

    Ah, o Caio! Sempre tão urgente, tão lírico, tão reverente para com todos os fenômenos da vida. Pulsando a matéria cálida e ácida de seu texto, sua estupefata poesia. Estupefatos ficamos nós, com a leitura de sua prosa tão emaranhada de abismos e flores. O amor e a morte nos desarma por inteiro, fragmentados somos. E me parece pertinente jamais esquecê-los, depurar suas aparições na aparição de nossas vidas. Lindo blog!

  4. BRUNNO RAFAEL SILVA SANTANA disse:

    Sem dúvida nenhuma, um texto excepcional. Muito bonito mesmo, lembra um pouco aquele escritor (me desculpa a comparação) lusitano Antonio Alçada Baptista, que utiliza de sutileza para expor seus pensamentos denso com relação a tudo que nos afeta.Um grande abraço.

  5. Infortúnios de Marvin disse:

    Pequenas Epifanias, o meu favorito!
    Otima escolha de citação, Caio é sempre uma boa pedida neh!?
    Ahhh, adorei seu blog, o descobri hoje por acaso e me encantei.
    Beijo, bom fim de semana
    =D

  6. Rodrigo disse:

    Olá!
    Olha eu aqui nos Blogs! Irei agora acompanhar o seu mais de perto.

    Antes de você conhecer o meu, quero lhe pedir uma coisa. Eu realmente curti MUITO o seu layout do wordpress, um dos poucos que eu vi que era bem “clean” e que dava para customizar e dar toques legais. Tem problema?
    Veja o lado bom, não só me inspirou com Lispector, mas também com seu blog. Hahahaha

    Check it out. Comecei a montar ontem e ainda falta muito a detalhar e mexer.

    Beijos com saudades!

  7. Daniel disse:

    Lyani, não faz assim comigo rsrsrs…

    Caio me desarma, me deixa bobo olhando pra tela. Releio cada letra, cada pausa do texto, cada virgula dele me enche mais dessa paixão, dessa poesia com que ele transforma a vida.

    Ai .. ai… o amor. Perfeito.

    Beijo grande.
    😉

  8. Ana disse:

    Lyani, linda!!

    Acabaste comigo……..lindo e MARAVILHOSO TEXTO!!!
    Tenho verdadeira fascinação pelo amor e curiosidade e rancor da morte, que leva embora sonhos lindos sonhos…

    Por favor se possível permita-me deixa-lo no meu blog, claro dano todo crédito a você que soube de forma tão linda expor algo que a tanto tempo carrego comigo. O amor…A morte…

    Sinceramente não creio em coincidências, prefiro crer que há razão de ser de todas as coisas.Por que deve haver.tenho certeza. Nada é em vão, não conosco que somos seres espirituais, estamos de passagem, dando um passeio no espaço. No final, um dia saberemos ou teremos todas as respostas que nosso ser procura.mas um dia.não agora.

    Simplesmente lindo.

    Obrigada, por saciar um alma cansada. a minha.
    Mando beijos.

  9. dani faxina disse:

    Putz! caio arrasa sempre.
    Avassalador e contundente nas suas palavras..que entram, batem e destroém… amo isso..mesmo que doa.
    beijos

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