Não dura muito tempo…

Todos os seus sorrisos eram um pouquinho tristes nas extremidades, como se ele soubesse que a felicidade não dura muito tempo”.

. Melanie Benjamin in Eu sou Alice .

23.04 [10] – Dia Mundial do Livro

Aí estão os jardins, os templos e a justificativa dos templos,
A exata música e as exatas palavras,
Os sessenta e quatro hexagramas,
Os ritos que são a única sabedoria
Que outorga o Firmamento aos homens,
O decoro daquele imperador
Cuja serenidade foi refletida pelo mundo, seu espelho,
De sorte que os campos davam seus frutos
E as torrentes respeitavam suas margens,
O unicórnio ferido que regressa para marcar o fim,
As secretas leis eternas,
O concerto do orbe;
Essas coisas ou sua memória estão nos livros
Que custodio na torre.

Os tártaros vieram do Norte
Em crinados potros pequenos;
Aniquilaram os exércitos
Que o Filho do Céu mandou para castigar sua impiedade,
Ergueram pirâmides de fogo e cortaram gargantas,
Mataram o perverso e o justo,
Mataram o escravo acorrentado que vigiava a porta,
Usaram e esqueceram as mulheres
E seguiram para o Sul,
Inocentes como animais carnívoros,
Cruéis como facas.
Na aurora dúbia,
O pai de meu pai salvou os livros.
Aqui estão na torre onde jazo,
Recordando os dias que foram de outros,
Os alheios e antigos.

Em meus olhos não há dias. As prateleiras
Estão muito altas e não as alcançam meus anos.
Léguas de pó e sonho cercam a torre.
Por que me enganar?
A verdade é que nunca soube ler,
Mas me consolo pensando
Que o imaginado e o passado já são o mesmo
Para um homem que foi
E que contempla o que foi a cidade
E agora volta a ser o deserto.
O que me impede sonhar que alguma vez
Decifrei a sabedoria
E desenhei com aplicada mão os símbolos?
Meu nome é Hsiang. Sou quem custodia os livros,
Que talvez sejam os últimos,
Porque nada sabemos do Império
E do Filho do Céu.
Aí estão nas altas estantes,
Ao mesmo tempo próximos e distantes,
Secretos e visíveis como os astros.
Aí estão os jardins, os templos

Jorge Luis Borges e O Guardião dos Livros in Elogio da Sombra

20.04 – 126º Aniversário de Augusto dos Anjos

Quem sou eu, neste ergástulo das vidas
Danadamente, a soluçar de dor?!
— Trinta trilhões de células vencidas,
Nutrindo uma efeméride interior.

. Augusto dos Anjos in Eu e Outras Poesias .

Memória

A memória por vezes, é uma maldição. Meu querido amigo Amilcar Herrera confessou “Eu desejaria, um dia, acordar havendo me esquecido do meu nome…” Não entendi. Esquecer o próprio nome deve ser uma experiência muito estranha. Aí ele explicou: “Quando me levanto e sei que meu nome é Almicar Herrera, sei também tudo o que se espera de mim. O meu nome diz o que deve ser, o que devo pensar, o que devo falar. Meu nome é uma gaiola em que estou preso. Mas se, ao acordar, eu tiver me esquecido do meu nome, terei me esquecido também de tudo que se espera de mim. Se nada se espera de mim, estou livre para ser aquilo que nunca fui. Começarei a viver minha vida a partir de mim mesmo e não a partir do nome que me deram e pelo qual sou conhecido”.

Rubem Alves in Ostra Feliz Não Faz Pérola

Muito perigoso!

Minha cabeça estava confusa com tudo isso: a maneira boba como os adultos agiam entre eles, jamais dizendo o que realmente pensavam, dependendo de suspiros e olhadelas e maneiras reservadas para falar por eles. Era muito perigoso! Devia ser muito fácil interpretar erradamente um suspiro ou um olhar. Eu tinha certeza de que não ia saber fazer tudo direito quando crescesse. Felizmente ainda faltava muito tempo”

. Melanie Benjamin in Eu sou Alice .

Mais forte que o amor

Porque na verdade estavam ligados até a morte por um vínculo mais sólido que o amor: uma dor comum de consciência”

. Gabriel Garcia Marquez in Cem Anos de Solidão.