Teus olhos, meu sonhos…

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde
te amo diretamente sem problemas nem orgulho
assim te amo porque não sei amar de outra maneira

senão assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meus sonhos”.

. Pablo Neruda in Cem Sonetos de Amor .

Message in a Book

Quem ama ler costuma ter uma relação bem pessoal com os livros. Podemos até dizer que trata-se de uma relação afetuosa. Quem nunca anotou um pensamento entre as linhas de uma frase marcante? Também é delicioso ganhar livros de presente com dedicatórias carinhosas. Pois bem, o site The Book Inscriptions Project mostra livros com algo escrito à mão pelo dono.

O site é uma espécie de voyeur literário: ficamos sabendo de um pedacinho da vida (e/ou dos sentimentos) por conta daquilo que escreveram em seus livros.

A ideia do projeto começou quando o idealizador, que se identifica como Shaun, abriu um livro aleatório de um bar em Nova York. Havia um bilhete de amor, mas o contexto era indefinido, assim como o sexo das duas pessoas. Pronto: esse foi o estopim para o site.

Quem sabe você não se anima e manda uma cópia de um livro esquecido na estante com aquela dedicatória antiga…

BOOKINSCRIPTIONS.COM/BOOKS

Fonte: Radar 55

25.07 [10] – Dia Nacional do Escritor

Roubado daqui:

Escrevo porque é isso que todos esperam de mim. Escrevo porque inultimente creio na imortalidade das bibliotecas e em como meus livros estão nas estantes. Escrevo porque a vida, o mundo, tudo, é incrivelmente charmoso e surpreendente. Escrevo porque me agrado em dar toda essa beleza às palavras e essa riqueza à vida. Escrevo não para contar uma história, mas sim para criar uma história. Escrevo para livrar-me da sensação de que há um lugar para onde devo ir, mas não consigo chegar, como em um sonho. Escrevo porque não consigo ser feliz. Escrevo para ser feliz”

. Orhan Pamuk .

Depression & Loneliness

“It’s not fair for you to come here” I tell Depression.  “I paid you off already.  I served my time back in New York.”

But he just gives me that dark smile, settles into my favorite chair, puts his feet on my table and lights a cigar, filling the place with his awful smoke.  Loneliness watches and sighs, then climbs into my bed and pulls the covers over himself, fully dressed, shoes and all.  He’s going to make me sleep with him again tonight, I just know it”.

. Elizabeth Gilbert in Eat, Pray, Love .

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Devagar

Enquanto ela se vai, eu ainda sinto seus lábios na minha pele. O sabor deles.
Fico ali só olhando, até ela dobrar a esquina no final da rua. Um pouquinho antes de ela dobrar, ela sabe que fiquei lá parado e se vira para acenar. Levanto a mão para responder, e então ela se vai.
Devagar.
Às vezes dolorosamente.
A Audrey me mata.

Ed Kennedy, personagem de
Markus Zusak in Eu sou O Mensageiro

Por fim, até a data do ano se tornara incerta…

Dia a dia e quase minuto a minuto o passado era atualizado. Desta forma, era possível demonstrar, com prova documental, a correção de todas as profecias do Partido; jamais continuava no arquivo uma notícia, artigo ou opinião que entrasse em conflito com as necessidades do momento. Toda a história era um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário. Em nenhum caso seria possível, uma vez feita a operação, provar qualquer fraude. A maior seção do Departamento de Registro, muito maior do que a de Winston consistia simplesmente de gente que tinha por obrigação procurar e separar todos os exemplares de livros, jornais e outros documentos superados e por isso destinado à eliminação. Continuava no arquivo, cm a data original, uma porção de Times que talvez, por causa de modificações do alinhamento político, ou profecias erradas do Grande Irmão, haviam sido alterados uma dúzia de vezes, e não havia outros exemplares que pudessem contradizê-lo. Os livros também eram recolhidos e reescritos uma porção de vezes, e invariavelmente entregues aos leitores sem admissão alguma da troca. Nem mesmo as instruções escritas que Winston recebia, e das quais invariavelmente se desfazia assim que as cumpria, ordenavam ou insinuavam qualquer ato de falsificação: a referência era sempre a erros, enganos, equívocos, más interpretações que precisavam ser corrigidos, no interesse da exatidão.
Na verdade, porém (ele filosofou, enquanto reajustava as cifras do Ministério da Fartura), não chegava a ser falsificação. Era apenas a substituição de uma sndice por outra. A maior parte do material tratado não tinha relação alguma com coisas reais, nem mesmo o tipo da ligação que se contem numa mentira declarada. As estatísticas eram tão fantásticas na versão original quanto na retificada. Com efeito, era função do pessoal inventar estatísticas, tirando-as da própria cabeça. Por exemplo, o cálculo do Ministério da Fartura, prevendo a produção trimestral de botinas num total de cento e quarenta e cinco milhões de pares. A produção real, dizia-se, fora de sessenta e dois milhões. Todavia Winston, ao reescrever a previsão, reduzira a cifra a apenas cinqüenta e sete milhões, de modo a poder protestar, como de hábito, que a cota fora superada. Em qualquer caso, os sessenta e dois milhões estavam tão perto da verdade quanto cinqüenta e sete, ou cento e quarenta e cinco. Com toda probabilidade, não haviam fabricado botina alguma. Ou, mais certo ainda, ninguém tinha a menor idéia de quantos calçados tinham sido produzidos; nem ninguém se importava. Tudo o que se sabia é que, em cada trimestre, quantidades astronômicas de botinas eram produzidas no papel, ao passo que talvez metade da população da Oceania andava descalça. E assim era com todos os fatos registrados, pequenos ou grandes. Tudo se fundia e confundia num mundo de sombras no qual, por fim, até a data do ano se tornara incerta.

George Orwell in 1984