23.04 [11] – Dia Internacional do Livro

Os livros podem não alterar nosso sofrimento, os livros podem não nos proteger do mal, os livros podem não nos dizer o que é bom e o que é belo, e certamente não terão como nos livrar do destino comum ─ a tumba. Mas os livros nos abrem miríades de possibilidades: de mudança, de iluminação. Pode bem ser que nenhum livro, por mais bem escrito que seja, consiga remover um grama de dor da tragédia do Iraque ou de Ruanda, mas pode bem ser que não haja livro, por mais mal escrito que seja, que não contenha alguma epifania para algum leitor”.

. Alberto Manguel in A Biblioteca à Noite .

Sem Nada Para se Lembrar

XLIII Desafio Incubadora Literaria
Tema: Outono
Período para votação: 26/04 a 29/04

Porque era assim que conseguia viver sem ele. Sem nada para se lembrar. Nenhuma foto, nenhum presente, nenhum fio de cabelo, nenhuma lembrança boa o suficiente. O que tinha pra se lembrar que trouxesse um sorriso aos lábios? Nada. Nunca. Era sempre só tristeza, saudade e dor. E era outono.  Porque as folhas caíam como as lágrimas que insistiam em rolar por seu rosto. E o vento soprava gelado como o toque dele. E o céu era sempre azul intenso como os olhos dele. E os dias sempre lindos fazia realçar a dor de nunca terem trocado um sorriso, um olhar de amor, palavras bonitas e verdadeiras. Continuava, porque é isso que se faz. Continuar, sempre. Mas não podia deixar de aguardar cada outono, embora doesse, como se o vento pudesse trazê-lo de volta. Ou seu cheiro, ou algo dele que ela nunca teve. Qualquer lembrança boa, além das tão cruas e reais que lhe imprimiam marcas de tristeza ao rosto bonito. Comptine D’um Autre Ete – L’Apres Midi. Há quem diga que há beleza na tristeza, e que aquele amor doloroso, possível de ver em cada gesto, em cada olhar, em cada risada, fazia bem à sua aparência. A tornara madura, de uma maneira mais especial. A dor da perda a transformara. E não é que fosse uma pessoa infeliz. Na maioria das vezes era feliz, e divertida. As pessoas costumavam gostar de sua companhia. Mas havia, e sempre haveria, os outonos. E o vento traria sim lembranças, reais e dolorosas. E traria lágrimas, e a verdade significativa de que nunca mais o veria de novo. E por mais que ele lhe doesse tanto, a falta dele doía ainda mais.

{ Lyani } 22/04/2011

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