diaD: Hoje não escrevo.

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     Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.

     Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.

     O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego – às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.

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DL 2011: Memorial do Convento

TEMA: Nobel de Literatura
MÊS: Outubro


Livro:
Memorial do Convento
Autor(a): José Saramago
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 347

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

 

Seria muito difícil dar menos de cinco estrelas para esta obra de Saramago. Este autor é realmente genial e fico feliz de ter tido a oportunidade de conhecê-lo através de Ensaio sobre a Cegueira e hoje me encantar com cada um de seus livros, pois pretendo ler todos! Tive o primeiro contato com o título Memorial do Convento com uma amiga que compartilha a mesma paixão pela leitura e que me recomendou muito o livro. Alguns anos se passaram e finalmente pude ler essa história fascinante.

A obra está dividida em duas histórias que vão sendo brilhantemente apresentadas de forma paralela. Uma conta a história de Portugal através da construção do Convento de Mafra por D. João V, promessa feita a um padre franciscano para que a rainha engravidasse e lhe desse um herdeiro; e a outra narra a história de amor entre Baltazar sete-luas e Blimunda sete-sóis, envolvidos na construção de uma “máquina de fazer voar” projetada pelo Padre Bartolomeu Dias.

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29.10 [11] – Dia Nacional do Livro

Pra mim é difícil falar simplesmente de gosto pelos livros, porque em matéria de livros meu caso é muito mais grave: é um amor que vem desde a infância, que me tem acompanhado a vida inteira, e ainda acima disto, é incurável”.

. José Mindlin .

Conhecendo Rubem Alves

Participei no dia 22/10 de um evento chamado Educador Nota 10, onde Rubem Alves fez um debate sobre a Educação. Não preciso dizer que sou fã deste autor maravilhoso e que fiquei super emocionada de vê-lo ao vivo e debatendo sobre um tema que, atualmente, é muito do meu interesse. Desde que comecei a trabalhar em Biblioteca Escolar, abracei o compromisso com a educação e ouvir as palavras sábias de Rubem Alves, além de participar das demais oficinas do evento, me inspiraram e impulsionaram nesta luta diária.  Além disso, ele discorreu um pouco sobre a Escola da Ponte, exemplo de projeto pedagógico que deveria ser seguido por todas as escolas.

A escola não prepara para a vida. Ela é vida”.

. Rubem Alves durante o debate .

Adorei ter participado e ainda consegui autógrafo no meu “Ostra Feliz não Faz Pérola”. Rubem é super simpático e atendeu a todos, autografando e tirando fotos. Se é possível, me tornei ainda mais fã dele =)

O horror que foi a árvore tombando

Certa vez, estava no mato, olhando os machados arrancarem das árvores lascas brancas, vermelhas. Aquele enorme V ia surgindo ao pé do tronco, até a árvore desabar. Meu pai me instalou num tronco recém-cortado, cheio de anéis. Meu avô contou os anéis, um a um, e me disse:
-Esta tinha trezentos anos. Oitenta metros. Foi dura de cair.
Havia nele orgulho e desafio. O tronco era quase plataforma. Devia ter sido uma árvore fantástica. E meu avô tinha derrubado. Ele. Com suas mãos calosas, os braços duros. Sentado sobre os anéis, olhava para o velho. Contente. Satisfeito por ser neto de um homem que não se intimidava.
Quando vi a primeira árvore cair, meu pai estava ao meu lado. O barulho foi tão horrível que nem a presença dele impediu o meu susto. Chorei. Agora penso: teria sido pena? Não, seria racionalizar os sentimentos de uma criança. Me lembro até hoje o horror que foi a árvore tombando. Um gigante desprotegido, os pés cortados, solto de repente, desabando num ruído imenso. Choro, lamento, ódio, socorro, desespero, desamparo. Ao tombar, tive a impressão de que ela procurava se amparar nas outras. Se apoiar em arbustos frágeis, que se ofereciam impotentes.
Fracos demais para segurá-la. Porém solidários. Morriam juntos, arrastados, esmagados. Ao mesmo tempo que tentava se apoiar, aquela coisa imensa parecia ter vergonha de se mostrar tão fraca. De ter sido derrubada sem nenhuma reistência. Urrava de ódio. Poderia resistir? Não via como.
Na confussão que se estabelecia nela, caía. Arrastando tudo, arebentando árvores menores, fazendo um barulho que me parecia cachoeira, ou represa estourando.

Ignácio de Loyola Brandão in Não Verás País Nenhum

DL 2011: O Ano de 1993

TEMA: Nobel de Literatura
MÊS: Outubro


Livro:
O Ano de 1993
Autor(a): José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 128

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

A cada leitura de Saramago me torno mais sua fã. Neste livro diferente dos que já li do autor, a narrativa me foi tão curiosa e interessante que terminei de ler dentro da própria livraria. Saramago nos traz uma narrativa solta, curiosa e de difícil classificação, haja vista que tanto é possível ser uma poesia surrealista, quanto uma prosa desestruturada. Diferente, mas não menos brilhante, afinal Saramago conseguiu me conquistar até no estilo peça teatral que não faz o meu gênero.

Em O ano de 1993, as cidades de um mundo que não é nomeado, foram destruídas, ocupadas ou dominadas por animais ferozese e forças ocultas invasoras. Personagens anônimos se deslocam do campo à cidade, da montanha às praias e desertos sem nenhuma lógica e apesar do livro se passar no ano específico de 1993, eles parecem atravessar vários momentos da história humana. É tudo tão estranho, que Saramago até mesmo compara ambientes a obras do pintor Salvador Dalí e faz referências bíblicas e alusões a animais modificados quimica e mecanicamente para fins de opressão política.
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Livro

 

Um livro aberto é um cérebro que fala;
Fechado, um amigo que espera;
Esquecido, uma alma que perdoa;
Destruído, um coração que chora”.

. Voltaire .

DL 2011: Do Amor e Outros Demônios

TEMA: Nobel de Literatura
MÊS: Outubro


Livro:
Do Amor e Outros Demônios
Autor(a): Gabriel Garcia Márquez
Editora: Record
Páginas: 221

Nota: 4
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

 

Já li alguns livros de G. G. Marquez e por isso posso dizer com certeza que admiro muito sua narrativa. A história que ele conta poderia até não ser tão interessante ou fugir daquilo em que acreditamos, mas a maneira com que descreve os fatos é tão apaixonante que tudo se transforma como mágica. Afinal, não é a toa que ganhou o prêmio Nobel de Literatura. A leitura de seus livros é sempre prazerosa e com este não poderia ser diferente.

Para criar a história, Márquez se inspirou em uma reportagem que ficou encarregado de cobrir em Bogotá sobre a remoção das criptas funerárias do convento de Santa Clara. Um dos caixões abertos abrigava uma ossada com longos cabelos que chegavam a 22 metros de comprimento, e o autor relaciona este fato a uma lenda que sua avó contava sobre uma marquesa de 12 anos que possuía uma cabeleira “que se arrastava como a cauda de um vestido de noiva” e que morre pela mordida raivosa de um cachorro.
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Inútil

E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes”

. Clarice Lispector in A Paixão Segundo G.H. .

Primavera & Livros

Bibliotecaria en primavera (ilustración de Marie Desbons)

Fonte: bibliocolors.blogspot.com