Corte as tranças, Rapunzel

Não se fazem mais contos de fadas como antigamente – açucarados e com frágeis donzelas. As novas releituras trazem tons mais sombrios e mulheres valentes. Curiosamente, estão mais próximas das histórias originais compiladas pelos irmãos Grimm há 200 anos.

A reportagem é de Pablo Nogueira e Martha San Juan.

Revista Unesp Ciência

Os príncipes que se cuidem. Depois de Rapunzel cortar as madeixas e se casar com um bandido na animação Enrolados, que passou pelos cinemas em 2011, este ano foi a vez de Branca de Neve surprender o público. A atriz Kristen Stewart, famosa como protagonista da série Crepúsculo, encarna uma versão mais gótica da clássica personagem em Branca de Neve e o Caçador. A mocinha de cabelos negros e pele branquíssima aparece envergando espada, escudo e armadura.

Branca de Neve apareceu ainda em outra produção hollywoodiana lançada este ano: Espelho, espelho meu. Com Julia Roberts no papel de madrasta, o filme apresenta uma variante mais cômica da história, com direito a um príncipe atrapalhado e anões transformados num bando de ladrões.

Já na telinha, o seriado americano Once upon a time (expressão em inglês equivalente ao nosso era uma vez), concebido pelos mesmos produtores do seriado Lost, vem obtendo expressivos índices de audiência junto ao público adulto, inclusive no Brasil. Passa-se numa cidade americana onde todos os habitantes são personagens de contos de fadas que perderam a memória graças à ação da Rainha Má. A protagonista é, quem diria, a filha da união entre Branca de Neve e seu príncipe encantado.

Outras donzelas frágeis dos contos de fadas estão em processo de reinvenção. Nos dois últimos anos, ambiciosas versões adultas de Alice e de Chapeuzinho Vermelho também chegaram às telas. Atualmente, estão em andamento novas produções para histórias como João e Maria e A Bela Adormecida, esta última contada do ponto de vista de Malévola (a bruxa má) e com Angelina Jolie escalada para o papel principal.

Celebração espontânea
Toda esta movimentação também pode ser lida como uma grande e espontânea celebração dos Contos maravilhosos para as crianças e para o lar, o clássico da literatura infantil de autoria dos irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859) Grimm, que este ano comemora seu bicentenário. Além de motivar lançamentos literários e exposições por todo planeta, a data também está sendo comemorada na área dos estudos de literatura, em que pesquisadores têm se dedicado tanto a recuperar as formas arcaicas dessas narrativas quanto a mapear as transformações que estão conferindo novo vigor ao gênero literário.

A professora Karin Volobuef, da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp em Araraquara, é referência nessa área de pesquisa no Brasil. Ela lidera um grupo dedicado ao estudo das “vertentes do fantástico na literatura”, que reúne acadêmicos de oito universidades de vários Estados. Está à frente também de um projeto em que compara diversas narrativas do chamado gênero maravilhoso, tendo como ponto de partida justamente os textos dos irmãos Grimm. E ainda está preparando uma nova tradução completa para o português dos contos dos irmãos alemães; a última é de 1961.

Karin explica que as versões mais antigas dessas narrativas pouco podiam tranquilizar as crianças inquietas com a hora de dormir. “Claro que os contos apresentavam castelos, príncipes, princesas e fadas, pois estes elementos faziam parte do imaginário”, diz. Mas esses personagens viviam tramas entremeadas por vinganças, assassinatos, traições e até canibalismo e incesto. “Na forma mais antiga da história de Chapeuzinho Vermelho, ela era devorada pelo lobo. Não havia o final feliz gerado pelo caçador”, conta Karin.

A pesquisadora tenta entender os motivos pelos quais o gênero, no passado, incorporava elementos tão violentos. Uma explicação possível é proposta pelo historiador americano Robert Darnton, que enxerga neles o reflexo das vidas dos camponeses medievais, marcadas pelo trabalho árduo, pela alimentação insuficiente e pela alta mortalidade, especialmente de mulheres durante o parto. Por isso o grande número de madrastas e o tratamento desigual e impiedoso que elas dispensam aos entea-dos, que não seria “invenção da carochinha, mas uma estratégia de sobrevivência para aumentar a chance de seus próprios filhos”, escreve Karin, numa das análises que produziu sobre o tema. Continue lendo em PDF.

Fonte: Revista Unesp Ciência

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