Resenha: Uma Aprendizagem

Livro: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres
Autor(a): Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 160

Nota: 5

(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Este foi o primeiro romance de Clarice que eu li e confesso que amei logo de cara. A narrativa é simples e deliciosa e é impossível não se apaixonar pelas personagens tão extraordinarimanete criadas por Clarice. A história vai te envolvendo aos poucos e você se vê totalmente cativado pelas dúvidas e questionamentos de Lóri, a personagem principal, que está perdia pois não entende direito o que é “ser”.

Ulisses, seu namorado e professor de Filosofia, tenta ajudá-la a entender esse mistério e como é agradável o prazer de simplesmente existir. Durante todo o desenrolar da história, ele a desafia para refletir sobre os acontecimentos, rotineiros ou não, de sua vida e a ajuda a descobrir quem ela é, o que gosta, quais são as atitudes que lhe dão prazer, o que a desagrada.

Clarice propõe a reflexão sobre diversos conflitos emocionais e usa de uma liberdade de escrita maravilhosa, afinal uma das características famosas desse livro é que ele começa com uma vírgula e termina com dois pontos.

E há tanto mais a dizer sobre esse livro, mas minhas próprias palavras não seriam suficientes, então escolhi um trecho da própria autora que falará por si só da qualidade narrativa e beleza indescritível deste livro:

Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos.
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe.
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia”.

Leitura recomendada!

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4 comentários em “Resenha: Uma Aprendizagem

  1. A Hora da Estrela foi, sem dúvida alguma, um dos livros que melhor me transformou. A maneira que Clarice usa a Metalinguagem me deixa de pernas trêmulas e refém de arrepios constantes. Mesmo sendo um apaixonado confesso pela Literatura Maldita, sou um fã incondicional do trabalho dela.

  2. Engraçado que não gostei dos livros de Clarice. Gosto de trechos de seus livros. De frases inteiras, mas as histórias em si não me convencem. Vou deixar para ler (se o tempo permitir) daqui a alguns anos. Não gosto de fazer planos, mas sempre deixei alguns livros pra depois, a exceção de Ulisses, os demais encontraram lugar junto aos meus olhos e paladar. rs

    bacio

    1. Nossa Lunna, eu amo a Clarice, desde sempre me identifiquei com a narrativa dela. Livro, trechos. Mas tem alguns autores que eu também me sinto assim como você. É o caso do Eça de Queiroz. To deixando os anos passarem pra ver se eu consigo pegar pra ler de novo 😀
      Faz parte de ser leitor, não é?
      Bjosss e obrigada pelo carinho de sempre visitar e comentar meu blog!

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