Contemplar o Desastre

Aparentemente, de vez em quando os adultos têm tempo de sentar e contemplar o desastre que é a vida deles. Então se lamentam sem compreender e, como moscas que sempre batem na mesma vidraça, se agitam, sofrem, definham, de deprimem e se interrogam sobre a engrenagem que os levou ali aonde não querem ir. Os mais inteligentes até transformam isso numa religião: ah, a desprezível vacuidade da existência burguesa! Há cínicos desse gênero que jantam à mesa do papai: “Que fim levaram nossos sonhos de juventude?”, perguntam com ar desiludido e satisfeito. “Desfizeram-se, e a vida é uma bandida”. Detesto essa falsa lucidez da maturidade. O fato é que são como os outros, são crianças que não entendem o que lhes aconteceu e bancam os durões quando na verdade tem vontade de chorar.
No entanto, é simples entender.  O problema é que os filhos acreditam nos discursos dos adultos e, ao se tornar adultos, vingam-se enganando os próprios filhos. “A vida tem um sentindo que o os adultos conhecem” é a mentira universal em que todo mundo é obrigado a acreditar. Quando, na idade adulta, compreende-se que é mentira, é tarde demais. O mistério permanece intacto, mas toda a energia disponível foi gasta há tempo em atividades estúpidas. Só resta anestesiar-se, do jeito que der, tentando ocultar o fato de que não se encontra nenhum sentido na própria vida e enganando os próprios filhos para tentar melhor se convencer.

Muriel Barbery in A Elegância do Ouriço

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