Perdoando Deus – O conto na vida.

Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. (…) E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato”.

Clarice Lispector in Felicidade Clandestina .

No meu caso não um rato, uma pomba. Rolinha, pequena e desprevenida. No meu caso, não a Avenida Copacabana, mas a Rodovia Santos Dummont. E eu não andava, dirigia. E não me sentia a mãe do mundo, mas sentia amor, carinho, felicidade e estava cantarolando a música que tocava no rádio quando tudo aconteceu. A pomba, no meio da rodovia desavisada, eu dirigindo feliz e deu-se o encontro. Quando ela me viu não deu tempo de voar, quando eu a vi não deu tempo de parar. Pisei no freio, tentei desviar, era tão pequena e da cor do chão. Em menos de um segundo, e não ouvia mais a música, fiquei paralisada pelo terror do choque que foi tão baixo e oco, e pelo retrovisor só as penas voavam. Nunca antes sonhara em passar por algo do tipo. Pelo contrário, quando falava a respeito, sempre dizia que jamais seria capaz de dormir novamente. Quando falava eu sempre dava o exemplo de um gato ou cachorro. Foi pomba, mas chorei, como se nunca mais fosse capaz de dormir novamente. Não parei, sabia que ela já estava morta. Não parei porque fiquei por longos minutos em puro choque, dirigindo no automático só Deus sabe como. Me lembro de bem a frente, já quase em casa, ter me dado uma revolta no peito…

Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto”.

Mas em momento algum me revoltei com Deus como Clarice em seu conto, mas com a vida. Essa sim. Tive muita raiva. Não precisava ter jogado na minha cara tão nua uma pomba. Eu estava tão tranquila e feliz dirigindo. Tão leve, nunca imaginei a pomba. O susto, a dor, a tristeza infinita que ainda sinto no peito agora. Eu matei uma pomba. Não foi por querer, mas fiz. E pensei que isso não podia passar batido, sem registro nenhum…

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação”

É isso, estou contando a vocês. Como foi, como me senti, pra delatar a vida. Não Deus, mas a vida. Essa que segundo a própria Clarice, “é um soco no estômago”. E é a morte de uma pomba inocente. E isso ainda me choca. Esses tapas na cara de realidade, de vida, porque assim como Clarice, eu também…

fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele”.

E então tento perdoar a vida, mas não sei se ainda posso me perdoar. Não sei se serei capaz de o fazer algum dia, embora tenha feito sem intenção nenhuma. Não sou capaz de matar uma formiga intencionalmente. Mas não creio que isso me exima da culpa. A culpa da vida que eu extirpei…

Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu.

Sábia Clarice. Rezo pela alma da pomba, pobrezinha. Fico no aguardo de.

6 comentários sobre “Perdoando Deus – O conto na vida.

  1. rascunhosdocotidiano disse:

    Sou completamente apaixonada por Clarice, por isso fiz uma postagem especial para ela em meu blog, na qual trago um vídeo feito por mim com a musica Clarice, de Capinam e Caetano Veloso. Quando puder, dá uma passada lá.

  2. poetriz disse:

    Lembrei de outro trecho da Clarice: “Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer. Logo eu! Que não tenho coragem de matar uma coisa viva! Até deixo de matar uma barata ou outra.
    Dou minha palavra de honra que sou pessoa de confiança e meu coração é doce: perto de mim nunca deixo criança ou bicho sofrer.
    Pois logo eu matei dois peixinhos vermelhos que não fazem mal a ninguém e que não são ambiciosos: só querem mesmo é viver.
    Pessoas também querem viver, mas infelizmente também aproveitar a vida para fazer alguma coisa de bom.”

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