Minha querida vovó!

Vovó morreu!
Ó querida vovó, para que Deus a levou e me deixou sozinha no mundo com tantas saudades! Sozinha sim, minha avozinha querida, pois não era a senhora a única pessoa que me compreendeu até hoje? {…} Sei, vovó, que apesar de tudo que eu fazia, a senhora sentia em mim a afeição que lhe tinha, e via o sofrimento pintado no meu rosto quando a via doente. Agora que estou aqui me desabafando é que me vem à memória toda a sua ternura, toda a sua bondade para comigo. {…} O que suas palavras foram para mim a senhora não avalia, vovó. {…} Mas sei que vou sentir muito sua falta, minha querida vovó”.

. Helena Morley in Minha Vida de Menina .

Grande Ilusão

Como raramente sou simpática, embora sempre bem-educada, não gostam de mim, mas me toleram porque correspondo tão bem ao que a crença social associou ao paradigma da concierge, que sou uma das múltiplas engrenagens que fazem girar a grande ilusão universal de que a vida tem um sentindo que pode ser facilmente decifrado”.

. Muriel Barbery in A Elegância do Ouriço .

Cansada

Sou a mulher mais cansada do mundo. Fico cansada assim que me levanto. A vida requer um esforço de que me sinto incapaz. Por favor passa-me esse livro pesado. Preciso de pôr qualquer coisa pesada sobre a cabeça. Necessito constantemente de pôr os meus pés sob almofadas para que consiga continuar na terra. De outro modo sinto-me partir, partir a uma velocidade tremenda, tão leve me sinto. Sei que estou morta. Logo que pronuncio uma frase a sinceridade morre e torna-se numa mentira cuja frieza me gela. Não me digas nada, vejo que me entendes, mas tenho receio dessa compreensão, tenho medo de encontrar alguém semelhante a mim e ao mesmo tempo desejo-o. Sinto-me tão definitivamente só, mas tenho tanto medo que o isolamento seja violado e eu não seja mais o cérebro e a lei do meu universo. Sinto-me no grande terror do teu entendimento, meio por que penetras no meu mundo; e que, sem véus, tenha então que partilhar o meu reino”.

. Anais Nin in A Casa do Incesto, Assírio e Alvim .

Nobel de Literatura de 2017

 

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O ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2017 foi anunciado hoje (05/10). O escolhido pela Academia Sueca para receber a láurea foi Kazuo Ishiguro “que, em romances de grande força emocional, revelou o abismo sob nossa sensação ilusória de conexão com o mundo”, nas palavras da Instituição. Antes do anúncio oficial, a canadense Margaret Atwood, o queniano Ngugi Wa Thiong’o e o japonês Haruki Murakami lideravam as apostas para o Nobel de Literatura deste ano.

Kazuo Ishiguro nasceu na cidade de Nagasaki, no Japão, em 1954. Aos 5 anos de idade, porém, se mudou com a família para a Inglaterra, razão pela qual cresceu sob a influência das duas culturas. O escritor voltaria para a sua terra natal quase 30 anos mais tarde. O Japão pós-Guerra foi tema dos livros A Pale View of Hills(1982) e An Artist of the Floating World (1986), seus dois primeiros romances publicados.

No Brasil, o escritor tem cinco obras lançadas, todas pela editora Companhia das Letras: Quando éramos órfãos (2000), Noturnos (2010), O gigante enterrado(2015), Os vestígios do dia (2016) e Não me abandone jamais (2016). As duas últimas viraram filmes em 1993 e 2010, respectivamente, com contribuições do próprio Ishiguro para as adaptações dos roteiros.

Após receber o Man Booker Prize, em 1989, pelo livro Os vestígios do dia, Kazuo Ishiguro tornou-se um best-seller mundial. A escolha do escritor nipo-britânico para receber o Nobel sucede a controversa decisão de laurear o músico norte-americano Bob Dylan, em 2016.

Fonte: TAG Et Cetera

A Paixão da Sua Vida

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Amava a morte
Mas não era correspondido
Tomou veneno
Atirou-se de pontes
Aspirou gás
Ela, sempre ela, o rejeitava
Recusando-lhe o abraço

Quando finalmente desistiu da paixão
Entregando-se à vida
A morte, enciumada
Estourou-lhe o peito.

. Marina Colasanti

Morno Repouso

{…} Não teria então lançado esse grito de covardia,
Resignado o pensamento e denunciado a vida,
Não teria chamado de bendito o poder de esquecer…
Nem, estendendo para a morte as minhas mãos impacientes,
Implorando que em troca de um morno repouso,
Me arrebatassem esta alma palpitante
E este sopro de vida.
Oh! deixe-me morrer… e que logo se acabe
A terrível disputa entre o corpo e a alma.
Que o mesmo Sono para sempre a absorva
A derrota do bem e o mal triunfante!

. Emily Brönte in O vento da Noite .