Cartas de amor aos livros

O livro no Brasil vive seus dias mais difíceis. Nas últimas semanas, as duas principais cadeias de lojas do país entraram em recuperação judicial, deixando um passivo enorme de pagamentos em suspenso. Mesmo com medidas sérias de gestão, elas podem ter dificuldades consideráveis de solução a médio prazo. O efeito cascata dessa crise é ainda incalculável, mas já assustador. O que acontece por aqui vai na maré contrária do mundo. Ninguém mais precisa salvar os livros de seu apocalipse, como se pensava em passado recente. O livro é a única mídia que resistiu globalmente a um processo de disrupção grave. Mas no Brasil de hoje a história é outra. Muitas cidades brasileiras ficarão sem livrarias e as editoras terão dificuldades de escoar seus livros e de fazer frente a um significativo prejuízo acumulado.

As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos, demitindo funcionários em todas as áreas. Com a recuperação judicial da Cultura e da Saraiva, dezenas de lojas foram fechadas, centenas de livreiros foram despedidos, e as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos— gerando um rombo que oferece riscos graves para o mercado editorial no Brasil.

Na Companhia das Letras sentimos tudo isto na pele, já que as maiores editoras são, naturalmente, as grandes credoras das livrarias, e, nesse sentido, foram muito prejudicadas financeiramente. Mas temos como superar a crise: os sócios dessas editoras têm capacidade financeira pessoal de investir em suas empresas, e muitos de nós não só queremos salvar nossos empreendimentos como somos também idealistas e, mais que tudo, guardamos profundo senso de proteção para com nossos autores e leitores.

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Incompatível

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“Estou cansada, cada vez mais incompreendida e insatisfeita comigo, com avida e com os outros. Diz-me, porque não nasci igual aos outros, sem dúvidas, sem desejos de impossível? E é isso que me traz sempre desvairada, incompatível com a vida que toda a gente vive…”

. Florbela Espanca .

Acabamos nos acostumando…

Subito me senti infinitamente triste por todos nós, seres humanos, que acabamos nos acostumando com uma coisa tão incrível, tão imperscrutável como a vida. Um belo dia acabamos achando evidente o fato de existirmos… E então… Bem, só então voltamos a pensar que um dia teremos de deixar esse mundo!“.

. Jostein Gaarder in O Dia do Curinga .

Resenha: Senhor da Chuva

Livro: O Senhor da Chuva
Autor(a): André Vianco
Editora:
 Novo Século
Páginas: 268

Nota: 3
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Eu adoro histórias sobre Anjos e Demônios. Acho que é o meu contraponto já que não gosto de Vampiros (rs). Mas apesar dessa história abordar esse tema, eu confesso que não me entusiasmou tanto quanto eu imaginava. É uma história interessante e criativa e gostei da narrativa, embora em alguns detalhes sórdidos eu preferia que o autor não fosse tão detalhista e me fizesse quase ver/sentir as cenas (rs). Mas isso só demonstra que é um texto de qualidade e que vale a pena ser lido. Gostei muito da descrição dos anjos, bem diferente do que costuma-se ler a respeito e realmente tive medo dos demônios, só não entusiasmou, mas gostei sim e recomendo.

12.11 [18] R.I.P. Stan Lee

Sem palavras….😭

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Resenha: Livro das Perguntas

Livro: Livro das Perguntas
Autor(a): Pablo Neruda
Editora:
 L&PM
Páginas: 155

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Espetacular!

“As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?
Ou serão rios invisíveis
que escorrem até a tristeza?”.

Perguntas. Perguntas poéticas maravilhosamente tecidas por Neruda de forma que você não consegue parar de virar as páginas. Cada pergunta te arranca um suspiro, um sorriso, um sinal de aquiescimento ou negativa. Realmente uma idéia espetacular, original e muito poética.

“Em que idioma cai a chuva
sobre as cidades dolorosas?”.

Leitura recomendadíssima!

Fomos ingênuos. Como eu, muitos!

Roubartilhei daqui:

REGOZIJEM-SE COM O OURO DE NOSSOS GARIMPOS, COM A MADEIRA QUE PODEMOS EXPORTAR, ORGULHEM-SE COM AS SAFRAS IMENSAS DAS TERRAS FÉRTEIS, ONDE, PLANTANDO, TUDO COLHEREMOS. CULTIVEMOS O OTIMISMO, A CONFIANÇA, ABAIXO OS NEGATIVISTAS.

Duas coisas eram pior que o câncer para a Alta Hierarquia do Novo Exército: os espíritos negativistas e os comunistas. Eram caçados e isolados. Na altura do Grande Ciclo de Combate à Abertura da Igreja, também apelidada de Coliseu, os comunistas tinham se tornado bichos raros, quase extintos.

Um pouco pela repressão, e muito pelo desencanto, extinguiam-se, do mesmo modo que aves e animais da fauna brasileira. Com a diferença que os bichos podiam se dar ao luxo de reservas particulares, onde se tentava a sua reprodução em cativeiro. Já em cativeiro, os comunistas definhavam.

A última notícia sobre o que estava acontecendo ao norte, foi dada por um Ministro, o dos Negócios Imobiliários, cargo criado pela necessidade de se controlar a especulação, não somente nas grandes cidades, como em toda área do litoral, onde os loteamentos se sucederam, velozes e devastadores.

Na verdade, o Ministro cuidou voraz e imediatamente de proteger o seu grupo. Controlou a entrada de arrivistas, eliminou concorrentes. Uma tarde, célebre, ele declarou na televisão: “Devemos estar orgulhosos pela conquista que acabamos de fazer. Um grande feito deste governo que pensa no futuro”. Porque, disse ele, a história vai nos registrar como o Esquema que deu ao país uma das grandes maravilhas do mundo. Não é apenas a África que pode se orgulhar do seu Saara, o deserto que foi mostrado em filmes, se tornou ponto turístico, atração, palco de aventuras, celebrado, glorificado.

A partir de hoje — e ele sorriu, embevecido — contamos também com um deserto maravilhoso, centenas de vezes maior que o Saara, mais belo. Magnificente. Estamos comunicando ao mundo a nona maravilha. Breve, a imprensa mostrará as planícies amarelas, dunas, o curioso leito seco dos rios.”

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