Resenha: A Paixão Segundo G.H.

Livro: A Paixão Segundo G.H.
Autor(a): Clarice Lispector 
Editora:
 Rocco
Páginas: 180

Nota: 5
(1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Esse livro sou eu!
“Em uma outra vida que tive, aos 15 anos, entrei numa livraria, que me pareceu o mundo que gostaria de morar. De repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu!”.

Clarice estava se referindo a Katherine Mansfield, nascida na Nova Zelândia, filha de pais ingleses e que abandonou o clima agradável, a vida abastada na bela ilha para entregar-se com paixão a seu intuito de tornar-se escritora. Mas eu, ao postar essa citação, me refiro a própria Clarice Lispector. Quando abri A Paixão Segundo G.H. e comecei a ler, aconteceu-me o mesmo. “Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu!”.

A Paixão Segundo G.H. é um mergulho no interior do narrador-personagem, e um mergulho no nosso interior porque é impossível não ir se questionando junto com os questionamentos da personagem, é impossível não participar da viagem reflexiva que a personagem faz. Não há propriamente uma história neste livro. G.H. busca, pela introspecção, descobrir sua identidade e as razões de viver, sentir e amar e leva involuntarimante você junto:


“Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio”

Tudo começa quando a personagem G.H. se flagra tomando café da manhã automaticamente e isso a assusta. Faz com que ela questione o porque desse alienamento robotizado e decide visitar o quarto da empregada que se demitira, local onde fazia seis meses não entrava. Ao entrar neste quarto, é como se ela mergulhasse pra dentro de si e é quando vê a barata (tenho que confessar que pelo meu pavor em relação a esse inseto asqueroso, eu quase desisti da leitura, mas fico feliz de ter persistido, pois barata à parte, é um livro maravilhoso) e o nojo que sente do inseto a desafia assustadoramente para que se aproxime do ser primitivo.

É um mergulho, literalmente. No fundo, escuro e desconhecido e dá medo.

“Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação”.

Leitura super recomendada!

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