Eu não ouvi você sair…

… E eu estou me perguntando como ainda estou aqui… 

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Fecho os olhos no escuro, forçando minha memória buscar o momento, o minuto, o segundo exato em que você me deixou, ou melhor, que eu deixei você ir sem nem mesmo lutar por você. Há quantos anos eu estou “vivendo” sem você? Sento na cama completamente indignada. Quando eu tento lembrar de como eu era nessa época, quando você ainda estava aqui, as lembranças vêm em flashes: o sorriso fácil, os cachos vermelho desbotados que caiam sobre uma bata, a saia até os pés, descalços… Qual foi a troca justa, eu ter deixado você se perder assim? Minha carreira? A vontade tão desesperada de fugir de uma prisão que acabou me colocando em outra pior? Quando foi que eu te perdi tão terrivelmente desse jeito? Cubro a cabeça com as mãos, forçando os dedos nas têmporas e me obrigando a achar o momento. Algumas imagens me vêm a cabeça…. eu abraçando um travesseiro, meu travesseiro, no colo dentro de um carro onde eu não queria de verdade estar, ao lado de alguém que nem de longe era tão bom pra mim como você, seguindo para uma vida que eu jamais poderia imaginar. Eu chorava copiosamente nesse dia, as lágrimas desciam grossas no rosto e era como se eu estivesse deixando algo essencial para trás. Talvez, talvez eu tenha te perdido ali, ou antes, mas ali talvez fosse o momento em que eu realmente senti que você tinha ido e que algo tinha mudado irremediavelmente e para sempre. A gente mente, a gente mente ridiculamente pra gente mesmo, como eu fiz quando sequei as lágrimas e me obriguei a acreditar que era o melhor pra mim. Quando o mundo gritava que eu seguia para o lado errado e eu enxergava beleza e luz onde só havia escuridão e dor. Eu achei que tinha me libertado quando fiz isso… Se eu soubesse, se eu pudesse saber tudo que ia acontecer depois daquele segundo em que eu fechei os olhos sorrindo e confiante porque você foi a minha ultima visão antes disso. Antes disso que eu estou chamando de vida. Se eu pudesse saber que seria a ultima vez que eu te veria, que eu acordaria sem saber onde eu estava, que eu acordaria me sentindo um enorme buraco sem significado e que eu vagaria pela vida, como um fantasma por quase 15 anos sem você, sem saber o que eu estava fazendo e só seguindo mecanicamente porque é isso que a vida faz.  Essa coisa mecânica chamada cotidiano e a sua irmã gêmea má, a rotina, fazem com que a a gente simplesmente vá. Eu abri os olhos por 15 anos sem saber onde estava, eu respirei, levantei, fiz coisas que eu gostava, coisas que eu odiava, trabalhei, criei um mundo inteiro de mentiras ao meu redor, me convencendo de que era isso que eu queria. Que eu tinha chegado onde eu queria, que era isso e tudo bem. Mas faltava algo, sempre faltou algo. Eu fui feliz, eu fui genuinamente feliz um dia, não foi um sonho. Eu estou lembrando agora, como se fosse em outra vida. Como se um robô tivesse apagado minha memória e ela insistisse em voltar em golpes terríveis de realidade me deixando meio zonza, um pouco pálida e ligeiramente feliz. Um sorriso tímido dançou nos meus lábios, como se ele soubesse exatamente o caminho de se abrir, mas os músculos estavam atrofiados e não conseguiam ainda. O estômago retorceu num mal estar como se eu fosse vomitar e eu sabia exatamente o que fazer. Mas as pernas, e todos os membros do corpo doíam como se estivessem presos há muito tempo e não soubessem exatamente como começar. Fechei e abri as mãos várias vezes, respirei fundo. Forcei mais uma vez minha memória a buscar como eu era quando eu estava com você. Fechei os olhos e uma explosão de lágrimas rolou por meu rosto enquanto eu lembrava de mim como se fosse de uma pessoa querida e amada que eu não via há anos e que só agora eu me dava conta de o quanto me fazia falta. Levantei num impulso, e as pernas tremeram como se quando eu saísse do meu quarto eu daria de cara com você ali, como se fosse de novo 2001 e eu ainda soubesse sorrir sem o peso do mundo inteiro nas costas. Como se fosse possível meus cabelos voltarem a ter aquele tom vermelho desbotado e formassem cachos poderosos que eu insisti em alisar por mil anos, negando quem eles eram e quem eu era, pra encobrir toda a falta que isso me fazia. E era como se eu estivesse descalço de novo, sentindo a energia da vida, vestida como uma hippie urbana e pudesse ver as cores dos sentimentos em todas as coisas, desde as mais simples até as mais complexas e me amasse de verdade, e gostasse de quem eu era e, acima de tudo, tivesse orgulho disso. E nesse momento eu soube que eu não podia mais viver sem você. Que tudo isso tinha sido uma loucura sem fim, e que eu não podia estar onde eu queria se eu não estivesse com você. “Como posso viver sem minha alma?” Heathcliff sussurou no meu ouvido. E eu soltei uma gargalhada alta, linda, como há mil anos eu não fazia… E dei o primeiro passo pra te reencontrar, sabendo que você já estava aqui. Que você tinha voltado, você finalmente tinha voltado. E não dava pra parar as lágrimas, e nem o soluço, e eu corri pra te encontrar e você estava tão perto, que era impossível não ver… Eu sorri, os músculos doendo do exercício sincero. Do amor verdadeiro. Eu te vi, eu te reconheci, eu te vivi, eu te aceitei, eu te amei como há muito tempo não fazia. Eu te olhei, no reflexo do meu espelho e você era exatamente como eu lembrava de você….

E eu não queria mexer nada…
Porque isso poderia mudar minha memória.

Levantei a mão, insegura, pra te tocar, mas você não se afastou, e eu levei os dedos até o espelho que era você me mostrando. Os dedos correram a curva do meu rosto refletido e gelado e mais vivo e quente do que qualquer lembrança, do que qualquer coisa que eu pudesse ter vivenciado nesses 15 anos sem você…

Eu sou o que sou
Eu faço o que eu quero
Mas eu não posso me esconder
Eu não irei embora, eu não irei dormir
Eu não posso respirar
Até que você esteja descansando aqui comigo
Eu não vou embora, eu não posso me esconder
Eu não posso SER, enquanto você não estiver descansando aqui comigo… 

E era você. Era eu. Eu me sentia completa pela primeira vez em anos. E beijei o espelho em que me refletia, porque não há nenhum amor maior… Que o amor próprio. E eu nunca mais vou deixar você ir assim. Eu nunca mais vou viver sozinha uma vida de mentiras sem você. Porque eu te amo, porque eu ME AMO E EU ME ACEITO. E nada, nunca, vai ser maior que isso…

Lyani, 18/04/19 19:39
*Em itálico, tradução minha da música “Here With Me” – Dido.

Objeto mais PERFEITO

“O LIVRO, eu acho, o objeto mais perfeito que o ser humano criou”.

. Ziraldo .

Da entrevista feita para uma campanha do Itaú Social para o incentivo à leitura:

09.04 [19] – Dia da Biblioteca

9 de Abril – Dia da Biblioteca. Um Decreto brasileiro datado de 09 de abril de 1980 instituiu no país a Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, bem como o Dia do Bibliotecário. Por este motivo, o dia 09/04 é conhecido como o Dia da Biblioteca.

Fonte: ProLivro