Luz e escuridão (Reescrito)

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“Verifico que, tantas vezes alegre,
tantas vezes contente, estou sempre triste”
Fernando Pessoa

Ela tenta, já sabendo que vai falhar, esquecê-lo enquanto colhe as flores para levar à mesa da casa de sua mãe. Não quer amá-lo, nem desejar sua escuridão e seu sorriso sombrio, mas sempre que é primavera e os dias claros invadem as janelas do imenso castelo em que vive com sua mãe nessa época do ano, a falta que sente dele é um sem nome de sentimentos que não consegue explicar.

Os passos lentos entre as flores do campo é um retrato imperfeito da letargia em que sua alma se encontra quando está sob o sol e o ar impregnado de aromas doces preenche os pulmões e o peito de esperança e uma alegria que poderia ser completa, mas desde que o conhecera não era mais. Até mesmo no interior do castelo a luz se faz intensamente presente em todos os cômodos. Não havia sequer um canto de sombra, um ponto de escuridão que pudesse, de alguma forma, amenizar a saudade.

Sorri ao chegar à mesa com as flores colhidas, como tem que ser ao estar ali. Ouve as palavras de carinho de sua amada mãe e se sente confortada, quase feliz. As conversas, as horas, os sorrisos, os carinhos, as tarefas diárias naquela época do ano eram ótimas, não poderia reclamar, mas sempre falta alguma coisa. E o sorriso se desmancha quando está sozinha, a luz do olhar se apaga um pouco tentando relembrar, voltar ao lado sombrio em que ele estará presente.

Às vezes, se pergunta, como é possível sentir tanta falta da escuridão, quando um dia fora somente luz. Era feliz naquela sutileza de sentimentos, na colheita diária de flores, nas brincadeiras de roda com as amigas, na volta para o castelo e para o colo da mãe. Mas sentiu, uma única vez, a presença desoladora da escuridão. O grito de medo enraizado em sua garganta, era sua última lembrança antes de fechar os olhos e a consciência para a imagem imponente dele e seus cabeços revoltos por ventos nunca antes sentidos naquela terra tão calma.

Quando abriu os olhos novamente, estava rodeada de trevas e o ar gélido fazia com que perdesse o fôlego como se estivesse o tempo todo correndo uma maratona. Sentiu tanto medo e tanta ânsia de voltar para a luz, para o castelo e sua mãe, que passou meses enclausurada e desolado, sentindo-se vazia e infinitamente infeliz. Porém, com o tempo, começou a se acostumar e as visitas diárias que ele lhe fazia, embora sentisse seu peito doer toda vez que ele se aproximava tamanha eram as ondas de frio que a acometiam, começaram a deixa-la curiosa com o tipo de vida que se desenvolvia naquele mundo coberto de sombras. O humor que emanava dele, dos seus gestos e de seu olhar compenetrado, era sempre agressivo, mas as palavras na voz profunda que ele lhe dirigia eram sempre cheias de muita paixão. E tudo que é envolto em paixão, encanta. Gostava principalmente do seu novo nome, como ele a chamava, na voz dele.

É claro que ficou infinitamente feliz quando sua mãe, através de um Deus, foi buscá-la por não aceitar aquela separação. A luz que vinha dela, a princípio, ofuscou seus olhos claros já acostumados a tamanha escuridão e o calor que seu abraço gerou em seu peito, a princípio endurecido, foi aos poucos lhe causando um conforto que há muito não sentia. Mas não podia ir sem sequer olhar para trás e aceitou dele um último presente, tão belo e singelo. Saboreou-o no caminho de volta a casa, aos poucos, como uma despedida eterna, um Adeus.

Voltou à luz, ao campo, às flores. Mas já não era a mesma. Nunca mais seria a mesma e algo parecia lhe faltar o tempo todo. Era como se tivesse deixado algo de si com ele naquele submundo, embora nada dele tivesse vindo com ela, a não ser a eterna falta que sentia. Descobriu pouco depois que desde o minuto em que colocara na boca aquele presente sutil, estava condenada a viver eternamente incompleta, para sempre dividida entre dois mundos, dois sentimentos, dois nomes e dois deveres. Uma parte do ano passava ao lado de sua mãe, no campo com as flores, primavera constante. A outra parte era ao lado dele que ficava, como sua esposa e devota. Uma Deusa das sombras em inverno infinito.

Ao lhe dar aquele último presente, ele havia selado com ela um compromisso eterno de tê-la, nem que fosse apenas por uma parte do ano, desde que isso fosse para sempre. No fim ele apaixonou-se por sua luz. E assim ela se fazia, parte luz, parte escuridão. Em cada momento duas percepções, dois sentimentos opostos que nunca se tocam e no entanto, nunca se abandonam. Sempre com algo a desejar, algo a doer, algo a faltar.

Deixou a mesa, em busca do refúgio de seu quarto, dizendo estar um pouco cansada da colheita. Queria o silêncio para amenizar a voz dele que não lhe abandonava. Queria fechar os olhos, mesmo que por alguns segundos, apenas para fingir estar na escuridão que o cercava. Porquê como sempre, ao estar no conforto da luz, sentia falta da escuridão, sentia falta dele, do frio, do poder. E como sempre, ao estar nos braços da escuridão, sentia falta da luz, das flores, da doçura.

Menina e mulher, em função do amor e da paixão. Deusa infiel às próprias vontades, mas sempre desejada e sempre querida. Amada e adorada. Perséfone e Cora.

E ainda assim, triste.

{ Lyani }Licença Creative Commons

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