Ainda

“Ainda assim, o sol brilhava. Ainda assim, superavam-se as coisas. Ainda assim, a vida foi dando seu jeito de seguir em frente, um dia pós o outro”.

. Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway .

Rotina

“Qualquer quebra de rotina podia trazer notícias insuportáveis. Por esse motivo, os Negros do sul até a geração atual podiam ser vistos como extremamente tradicionais”.

. Maya Angelou in Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola .

Resenha: Morra, Amor

Livro: Morra, Amor
Autora: Ariana Harwicz
Editora: Instante
Páginas: 144
Nota: 4
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

“Achei que meu menino estava chorando, mas toda noite eu o ouço chorar e, quando chego perto, é o silêncio total, como se tivesse gravado um fragmento do seu choro e se reproduzisse sozinho. Mas às vezes não ouço nada. Estou sentada no sofá, a poucos metros do seu quarto, vendo um programa de troca de casais, babás perfeitas, ou pintando as unhas, quando meu querido aparece com o calção meio arriado e me diz: por que ele não para de chorar?, o que ele quer?, a mãe é você, tem que saber. Não sei o que ele quer, digo, não tenho a menor ideia”.

Vou começar com esse trecho, pois ele diz tudo pra mim sobre a leitura desse livro. O que temos aqui é uma jovem mãe que muito claramente não queria ser mãe, ou simplesmente não fazia ideia de como seria e quando aconteceu não teve a melhor experiência de sua vida, como tão banalmente somos levados a acreditar que é a experiência materna. Ela vive numa cidade esquecida do interior da França com seu marido e seu bebê e sofre de depressão pós parto, nos dando uma narrativa confusa de seus sentimentos e pensamentos que é exatamente como ela se sente nesse universo.

Ela mesma, aborda o fato de que ter engravidado foi um erro que ela poderia ter evitado, mas que acabou não fazendo e agora está ali tendo que ir à padaria comprar um bolo de seis meses pro filho, pois segundo outras mães que, inclusive fazem os bolos elas mesmas, não é igual ao cinco ou ao sete… E “um segundo depois de parirem dizem, já não imagino minha vida sem ele, é como se ele estivesse sempre estado comigo”. Dá pra perceber a solidão nessas frases? Dá pra perceber o quanto ela se sente estranha por não sentir as mesmas coisas que as outras mulheres sentem? Ela debocha… consigo ver ela revirando os olhos nessa afirmação, mas é uma auto defesa, pra esconder a verdade: é solitário e extremamente doloroso não sentir algo que é tão natural e comum aos outros e sentir que só você, sente de forma diferente.

Então ela tenta esconder. E tenta ser a mãe que todos esperam que ela seja. E tenta ser a esposa que todos esperam que ela seja, mas falha miseravelmente a cada tentativa. Ela cozinha pro marido, ela troca o bebê (com raiva, querendo morrer, mas faz, tentando se encaixar), ela ouve ele chorando as vezes, e as vezes não consegue. Fica super claro os altos e baixos da depressão… os feixes de luz que se abrem e ela tenta desesperadamente se agarrar e tentar fazer algo normal, e quando a escuridão vem e ela simplesmente se deixa levar pelos pensamentos terríveis. Ouvi muito e li muito sobre: mas porque ela não procura ajuda? Por que ela não aceita ajuda? E essas perguntas não tem uma resposta certa e nem uma única resposta. Podem ser tantos os motivos: ela estar tão doente e sequer saber que precisa de ajuda, ela sentir vergonha da situação (o que acho provável, já que quando ela está no hospital conversando com os médicos ela diz o tempo todo: eu sou um lixo, eu sei que sou o pior dos lixos), e tantas outras possibilidades…

A frase do início da resenha, deixa muito claro o quanto é cobrado de uma mãe, o quanto ela tem que MILAGROSAMENTE saber das coisas porque de um dia pro outro se tornou mãe e a maternidade é esse conto de fadas que transforma as pessoas e de repente elas sabem tudo e são pessoas maravilhosas, nada mais importa. Elas são mães. Elas não são mais seres humanos, não são mais pessoas, não são mais nada: são mães. E além desse ponto que é muito importante, o trecho mostra o quanto é aceitável essa postura PATÉTICA de pai, de achar que só por ter contribuído com o espermatozoide, já fez TUDO que tinha que fazer e não precisa fazer mais nada. Afinal, é a mãe que tem que saber…

Ah, mas eu sei que muitos defenderão o pai do livro, porque ele amava ela, ele aceitava o problema dela, ele cuidava do bebê nos momentos que ela estava tendo as crises. Vamos refletir um pouco mais sobre isso? Ele fazia sim, mas fazia porque ela não fazia, porque se ela fosse a guerreira que a maioria das mães que eu conheço é, e fizesse TUDO, o “querido” não sairia do lugar. E vamos relembrar que na maioria das vezes o bonito chamava a mãe dele ou levava o bebê pra casa dela. E eu só me faço uma pergunta: porque é aceitável o pai não cuidar, não acordar a noite, não ouvir o bebê chorar e a mãe não? Ambos são seres humanos e a gente precisa começar a desmistificar isso de que mãe é uma super mulher cheia dos poderes e que a partir do momento que vira mãe não sente mais nada, só é mãe. E precisa parar de achar aceitável essa postura ridícula de homens que “ajudam” mas dizem: “você que é a mãe” e dane-se se ela é um ser humano, se tem hormônios, se está doente, se não está preparada pra isso.

Porque é por isso que o aborto é um crime sem perdão, mas o pai ir embora e abandonar seu filho na barriga da mãe é normal, acontece… Homens… Ambas as situações são terríveis e na mesma medida pra mim. Porque acredito que se muitas mães tivessem ao lado um PAI de verdade, muitos abortos/abandonos e outras situações terríveis seriam evitadas. Está mais do que na hora da sociedade entender que a responsabilidade é dos DOIS: 50% de cada… Nem mais, nem menos pra nenhum!!

Não to justificando todos os atos dela não, ela fez sim muita coisa errada, muita coisa que dá angústia na gente de ler, mas que a gente precisa refletir. A maternidade não é igual para todas. Nem todo mundo sente esse amor incondicional e nem todo mundo passa por um conto de fadas, e TUDO BEM! Vamos ser mais empáticas umas com as outras e vamos refletir mais sobre a divisão de responsabilidades, porque ninguém faz filho sozinho! Sim, esse assunto me revolta e nem é meu lugar de fala, afinal, nem mãe sou. Mas tenho mãe e tenho amigas mães e sinto empatia por todas as que sofrem qualquer tipo de abuso por não sentirem como as outras, ou por pais que acham que fazem muito, sem realmente fazer algo de verdade.

Achei que era importante trazer essa reflexão.
E acho importante demais um livro que traga a vida nua e crua, e a realidade como ela é pra que a gente possa se abrir a essas reflexões. Eu tiro meu chapéu para a coragem da autora, e que muitas outras mulheres se sintam seguras a dizer o que sentem sem precisar chegar nesses pontos extremos, podendo encontrar empatia e compreensão e talvez, encontrar um equilíbrio!

Super recomendo!

Palavras

“Palavras significam mais do que é colocado no papel. É preciso a voz humana para dar a elas as nuances do significado mais profundo”.

. Maya Angelou in Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola .

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: Olhai os Lírios do Campo – Érico Veríssimo

Este foi o primeiro livro que li de Erico Verissimo e foi numa época que não era muito fã de literatura nacional e por isso ainda desconhecia muitos autores consagrados de nosso país. O que posso dizer é que gostei muito da narrativa de Erico e que ele me incentivou a procurar mais sobre a nossa literatura. De alguma forma, Olhai os Lírios do Campo me lembrou um pouco do livro A insustentável Leveza do Ser, no sentido de nos fazer refletir sobre os diversos aspectos da natureza humana.

O título do livro foi o que me chamou mais atenção. É lindo e poético e bem no fim do livro fica claro a escolha do autor…

“Considerai os lírios do campo. Eles não fiam nem tecem e no entanto nem Salomão em toda a sua glória se cobriu como um deles”.

É a procura pelo que é verdadeiramente essencial na vida. A história gira em torno de Eugênio fontes, uma pessoa infeliz e marcada por experiências humilhantes de uma infância pobre. Eugênio cria um complexo de inferioridade que o acompanha por grande parte de sua vida. Uma das cenas mais marcantes do livro pra mim é quando Eugenio já na faculdade de Medicina e ao redor com alguns amigos, encontra seu pai, o pobre Ângelo:

“Eugênio viu um vulto familiar surgir a uma esquina e sentiu um desfalecimento. Reconheceria aquela figura de longe, no meio de mil… Um homem magro e encurvado, mal vestido, com um pacote no braço, o pai, o pobre Ângelo. Lá vinha ele subindo a rua. Eugênio sentiu no corpo um formigamento quente de mal-estar. Desejou – com que ardor, com que desespero! – que o velho atravessasse a rua, mudasse de rumo. Seria embaraçoso, constrangedor se Ângelo o visse, parasse e lhe dirigisse a palavra. Alcibíades e Castanho ficariam sabendo que ele era filho dum pobre alfaiate que saía pela rua a entregar pessoalmente as roupas dos fregueses… Haviam de desprezá-lo mais por isso. Eugênio já antecipava o amargor da nova humilhação. Olhou para os lados, pensando numa fuga.  (…) Hesitou ainda um instante e quando quis tomar uma resolução, era tarde demais. Ângelo já os defrontava. Viu o filho, olhou dele para os outros e o seu rosto se abriu num sorriso largo de surpreendida felicidade. Afastou-se servil para a beira da calçada, tirou o chapéu. – Boa tarde, Genoca! – exclamou.  O orgulho iluminava-lhe o rosto. Muito vermelho e perturbado Eugênio olhava para a frente em silêncio, como se não o tivesse visto nem ouvido. Os outros também continuavam a caminhar, sem terem dado pelo gesto do homem”.

No dia de sua formatura, Eugênio conhece melhor a estudante Olívia, uma garota cheia de sensibilidade e serenidade e com quem acaba criando um laço de amizade e depois torna-se seu amante. Para Eugenio, estar com Olívia era uma espécie de porto-seguro para onde ele ia quando se sentia estressado e estava em sofrimento. Mesmo assim, acaba casando-se com uma mulher rica e da alta sociedade, pois odeia a pobreza. Casou-se sabendo de seu erro, mas leva o casamento em frente por três anos. Neste período Eugênio deixa de ser médico e trabalha na firma do pai de sua esposa. A ambientação do romance é de uma época onde o capitalismo devasta a vida das personagens. A busca pela riqueza, status e prazer é a moda da época e ninguém se importa mais com os sentimentos.

Aos poucos e após um reencontro com Olívia onde ele descobre que tem uma filha, Eugênio começa a enxergar que fez a escolha errada e começa a dar alguns passos em direção a uma nova vida. No convívio puro e feliz com Anamaria, sua filha e Olívia, Eugênio descobre finalmente que dinheiro não traz felicidade, mas ainda assim não é capaz de dar o passo que o faria separar-se de sua confortável situação na casa do pai de sua esposa. Apenas um trágico acontecimento acaba por fazer Eugênio acordar de verdade e a partir de então, sua vida volta-se para a feitura do bem e a busca pela paz e o desenvolvimento pessoal.

A narrativa se divide, portanto, em duas partes, sendo a primeira contando a infância de Eugênio até seu casamento por dinheiro com Eunice e a segunda contando a parte em que Eugênio descobre o verdadeiro sentido de sua vida e inicia uma nova vida. Em ambas as partes, vários personagens e suas misérias pessoais também nos são apresentadas e isso também torna o romance interessante.

“A vida começa todos os dias”.

Gostei de conhecer Erico Veríssimo e sua narrativa desenvolta e rica. Anotei diversas citações lindas e as relações sociais e pessoais apresentadas foram muito bem desenvolvidas. Destaco o namoro de Dora, moça rica e da alta sociedade e Simão, um pobre judeu discriminado por sua raça.

Com certeza, é uma leitura recomendada!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
SERVIÇO
Blog: http://blogentreaspas.com
Instagram: @blog_entreaspas
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Sem palavras

“Sempre tiveram a peculiar habilidade de se comunicar sem palavras”.

. Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway .

Pura e simplesmente

“Ela quase nunca fazia as coisas, pura e simplesmente, por si só; mas para que as pessoas pensassem isto ou aquilo; uma estupidez completa, ela reconhecia”.

. Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway .

Casamento

“Aqui está ela, remendando o vestido, remendando o vestido como de costume, pensou ele; passou o tempo todo em que estive na Índia aqui sentada; remendando o vestido; entretendo-se; frequentando festas; indo e vindo da Câmara e coisa que o valha, pensou ele, cada vez mais irritada, cada vez mais agitada, pois não há nada no mundo que seja tão ruim para algumas mulheres quanto o casamento”.

. Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway .

Sótão

“Tinha uma sensação de vazio no coração da vida; um sótão”.

. Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway .

Resenha: Assassinato no Expresso do Oriente

Livro: Assassinato no Expresso do Oriente
Autora: Ágatha Christie
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 200
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Não é a toa que Agatha Christie é conhecida como a Rainha do Crime! Ela tem uma mente genial e te envolve tanto na história que é impossível largar o livro antes de saber tudo que aconteceu! Foi o que aconteceu comigo em “Assassinato do Expresso Oriente” que já ficou ali do ladinho de “Não Restou Nenhum”, meu favorito da autora até o momento.

Neste livro que foi lançado em 1932 e um dos livros mais vendidos da autora e que a tornou famosa, Hércule Poirot (meu detetive favorito), estava na Síria onde havia terminado um trabalho e antes de voltar à Inglaterra resolve tirar uns dias de folga para conhecer melhor a antiga Constantinopla (hoje conhecida como Istambul). Porém quando chega ao hotel onde ficaria hospedado, recebe um telegrama de Londres, chamando-o de volta por conta de novas evidências de um caso que ele havia resolvido.

Impossibilitado de curtir seus dias de folga, Poirot embarca no Expresso Oriente, com a ajuda de Bouc, o diretor da companhia de Trem, pois espantosamente o trem está lotado naquela noite de inverno rigoroso. Bouc consegue uma instalação a Poirot na segunda classe, espantando os passageiros que não esperavam viajar ao lado do inteligentíssimo detetive que desvenda casos incomuns. Sabendo da longa viagem, começa a observar e conhecer seus companheiros de viagem e apesar de achar incomum que cada um fosse de um local do mundo, o único que o incomodou e causou má impressão foi o Sr. Ratchett, homem misterioso que o procura dizendo que tem um inimigo querendo matá-lo e que precisa que ele o ajude. Poirot recusa o trabalho e pouco tempo depois o homem é assassinado.

Uma nevasca terrível faz com que o Expresso pare entre a Iuguslávia e a Bosnia e então começam as investigações para descobrir quem matou Ratchett e o porquê. Daqui em diante vamos acompanhando os depoimentos de cada um que estava no trem na noite do fatídico crime e começamos a juntar as pistas na tentativa de descobrir por nós mesmos quem foi o assassino. Mas como sempre, Ágatha é extremamente genial e o desfecho é simplesmente de cair o queixo.

Amei essa história, e fiquei muito impressionada com a forma inteligente com que Ágatha conduz a narrativa para um final fantástico e digno da Rainha do Crime! Super recomendo a leitura.