COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Retrospectiva Literária 2020

  • O livro infanto-juvenil que mais gostei: Coraline – Neil Gaiman

É uma história grandiosa contada com simplicidade e poesia, os acontecimentos vão sendo descritos com uma sutileza tenebrosa. São retalhos dos nossos próprios medos. As personagens são profundas e inesquecíveis, nos fazendo refletir sobre as muitas faces que cada um esconde sobre sutilezas e sorrisos e os diálogos, mesmo os mais pequenos, tem sempre muito a dizer. Me encantou muito como ele construiu a personagem Coraline, que apesar de ser uma criança, é extremamente esperta e consegue pressentir perigos e reconhecer certas situações com grande clareza.

  • A aventura que me tirou o fôlego: O Labirinto dos Espíritos – Carlos Ruiz Zafón

Não dá nem pra pensar em como explicar as tantas reviravoltas mesclando presente e passado, personagens antigos e queridos com novos personagens fantásticos e percorrendo caminhos tortuosos até finalmente juntar todas as pontas soltas e fechar a história com maestria. A narrativa especial de Zafón traz o melhor e o pior de seus personagens a tona, nos mostrando a realidade nua e crua da natureza humana. Tudo isso permeado por cenários que vão de lugares sombrios e escabrosos a encantados e belos, além é claro do fato de o leitor estar o tempo todo cercado por citações, personagens e livros, fechando com chave de ouro o encantamento dessa obra.

  • O terror que me deixou sem dormir: Escuridão Total sem Estrelas – Stephen King

Acredito mesmo que ele nos trouxe um tanto da vida como ela é e acho que isso é muito mais aterrorizante que qualquer monstro ou histórias sobrenaturais, porque está ali, ao nosso alcance. São 4 contos que poderiam ser livros separados, mas que compuseram com maestria esse livro cujo título vim a entender somente nas linhas finais do posfácio e faz todo sentido. Não preciso dizer o quanto recomendo a leitura desse livro, o quanto amo a narrativa desse autor e o quanto esse livro, bem a vida como ela é, é um tipo de terror que nos assombra por muito tempo.

  • O suspense mais eletrizante: Colega de Quarto  – Victor Bonini

Você já imaginou chegar em casa e a televisão estar ligada sendo que você tem certeza que a desligou antes de sair? E se encontrasse um chinelo que não é seu no quarto de hóspedes? Uma escova de dentes a mais no banheiro? E se você acordasse ás 2h da manhã com o microondas apitando? Em outras noites, a descarga? E quando você vai checar… NADA. Apavorante não? Das primeiras às ultimas palavras, a narrativa de Victor Bonini te prendem nesse mistério assustador.

  • O romance que me fez suspirar: Comentários a Respeito de Evelyn – Cah Muniz

Este é o romance de estreia da escritora Cah Muniz, que sigo no instagram e blog há algum tempo!! O enredo a princípio me pareceu super adolescente e clichê e quase pensei em não continuar por já estar um pouco saturada desse tipo de leitura e também por não ser o meu gênero favorito! Todos já sabem que romance romântico não é meu forte. Mas fico feliz de ter persistido na leitura, pois fui surpreendida ao longo da narrativa por uma história envolvente e de grande carga emocional.

  • A saga que me conquistou: Duna – Frank Herbert

É muito difícil explicar em poucas palavras a profundidade dessa história e tudo que disse é bastante superficial em relação à todas as suas vertentes filosóficas, religiosas e ambientais. Acompanhamos nesse livro a jornada de um herói e sua incessante busca pelo conhecimento, ponto bastante abordado nesse livro. A trama é muito bem amarrada, a narrativa de Herbert é genial e empolgante e apesar de alguns momentos se tornar um pouco cansativa nos detalhes e descrições, são extremamente necessários para o desenrolar da história. Com certeza quer continuar a ler os livros dessa saga!

  • O clássico que me marcou: Mrs. Dalloway – Virgínia Woolf

Mrs. Dalloway narra um dia inteiro na vida de Clarissa Dalloway. Pode parecer fútil a princípio, mas já nos primeiros passos da caminhada de Clarissa até a floricultura você percebe que não será apenas um dia comum. Acontece tanta vida dentro de um único dia, são tantos acontecimentos, pensamentos, reflexões, pessoas que vem e vão se cruzando pelas ruas de Londres que percorremos ao lado de Clarissa, sem sequer imaginar conhecer umas às outras e no entanto parecendo estar ligadas de alguma forma.

  • O livro que me fez refletir: O Olho mais Azul – Toni Morrison

Pecola se sente excluída, ninguém está disposto a vê-la com humanidade. É zombada, rejeitada, desprezada, violentada. Ela sabe que o problema é a sua aparência, sua pele negra e seus cabelos crespos, e acredita que a única solução seja ter olhos azuis, como os das bonecas e das mulheres brancas que são lindas e amáveis. Acompanhamos seus passos nessa busca delirante pelo olho mais azul, pela aceitação, por uma realidade que não seja só dor, como a que unicamente ela conhece. Esse livro é uma forte reflexão sobre a desigualdade, o preconceito, os padrões impostos e vale muito a leitura.

  • O livro que me fez rir: O Milagre dos Pássaros – Jorge Amado

Em poucas páginas, Jorge Amado consegue nos colocar a par da vida de Capadócio até chegar a essa situação, contando-nos sobre suas três famílias e nos apropriando do caráter e características do personagem galanteador, além dos demais personagens da história e da situação em que se encontra no momento. O desfecho é extremamente hilário e fantástico, e me arrancou boas risadas.

  • O livro que me fez chorar: Só os Animais Salvam – Ceridwen Dovey

Os animais são os narradores dos contos que vamos ler nesse livro fantástico. São dez no total, cada um pela visão de um animal diferente e todos eles estão narrando um pouco do que foi sua vida, mas essencialmente sua morte. O nome dos contos começam com “Alma de…’ e embaixo a data em que o animal desencarnou. Os contos são ambientados durante as diversas guerras e conflitos que aconteceram na história do nosso planeta ao longo do último século, dentre elas a primeira e a segunda grande guerra, a guerra fria, a guerra do golfo, o afeganistão, e cada animal conta o seu ponto de vista de sua história e dos acontecimentos ao seu redor.

  • O melhor livro de fantasia: A Forma da Água – Guilherme Del Toro & Daniel Kraus

Nesta trama, Del Toro trata de diversos temas importantes, sendo o mais relevante e o foco central dessa história, as dificuldades do ser humano em aceitar as diferenças. O livro tem como pano de fundo a Guerra Fria, tratando os dilemas pessoais dos personagens e inserindo críticas sociais e políticas de forma muito clara e objetiva. Uma lição de respeito e amor, que nos é transmitida através de uma incrível narrativa, cheia de cenas fortes e impactantes, mas também de extrema beleza e sensibilidade. “Assim é a vida, Elisa. Coisas remendadas juntas, sem sentido, a partir das quais nós, em nossas mentes necessitadas, criamos mitos que nos agradam. Você compreende?”

  • O livro que me surpreendeu:  A Casa dos Espíritos – Isabel Allende

Como pude ficar tanto tempo sem conhecer Isabel Allende? Neste livro maravilhoso, somos apresentados a três gerações da família Trueba através das protagonistas femininas Clara, Blanca e Alba e do autoritário patriarca da família, Esteban. Impossível não se apaixonar por estes personagens fortes ao longo dessa narrativa incrível que perpassa por questões sociais, econômicas, políticas e de relacionamento humano, como o amor e o ódio. Muito embora o título do livro dê a entender que leremos uma história sobrenatural, e ainda que este tema não abandone jamais a narrativa, não é o foco central dessa saga familiar. Allende contextualiza a narrativa com a história do Chile que culmina num golpe de Estado em 1973, instalando a ditadura. Simplesmente perfeito!!

  • A personagem do ano: Sra. Janina Dusheiko – Sobre os Ossos dos Mortos

Uma senhora de idade que sofre muito com as mazelas sofridas pelos animais da região onde mora, um vilarejo em uma remota região da Polônia onde a maioria das pessoas acredita que animais são seres inferiores aos seres humanos e devem ser tratados como tal, o que para a Sra. Dusheiko é um aburdo sem tamanho. Vegetariana e excêntrica para a grande maioria dos moradores (ou mais especificamente velha louca), sua vida se resume a estudar astrologia e infernizar a vida dos caçadores de animais, sabotando suas armadilhas e exigindo da polícia um posicionamento sobre isso. Me identifiquei à primeira vista, ela tem suas manias, gosta da solidão, se irrita com presenças não planejadas e sofre, terrivelmente com o sofrimento animal.

  • Autora revelação: Maya Angelou

Li primeiro “Eu sei por que o pássaro canta na gaiola”, que é autobiográfico e conta uma parte muito triste da vida de Maya, cuja narrativa é excepcional e te faz mergulhar em sua história intensa, emocional e envolvente. Depois me apaixonei de vez em “Carta a minha filha” que é um presente, um livro de conselhos que só uma mãe pode nos dar realmente e que aborda muitos aspectos da vida da mulher. Só tenho admiração e gratidão por seus escritos. Foi maravilhoso conhece-la.

  • O melhor livro nacional: As Três Marias – Rachel de Queiroz

Neste romance autobiográfico escrito em 1939, Rachel nos presenteia com a trajetória de três garotas: Maria Augusta (Guta e a nossa narradora), Maria Glória e Maria José, as Três Marias como são chamadas no internato. A história tem início na infância dessas meninas e caminhamos ao lado das três até a fase adulta quando cada uma vai seguir o melhor caminho para si. A narrativa é especialmente deliciosa, simples, porém não menos bonita, cativante e fluída. Quando você se dá conta terminou o livro e está com um sorriso nos lábios, pois é daquelas leituras leves que aquecem o coração.

  • O melhor livro que li em 2020:  Perto do Coração Selvagem – Clarice Lispector

Não me canso de dizer o quanto admiro essa autora e o quanto cada vez mais ela se mantém no topo, rainha absoluta na minha lista de autores favoritos da vida! Esse é o romance de estréia de Clarice Lispector, escrito em 1944, e ela já chega chutando a porta!! Numa sociedade bastante machista e onde a mulher na literatura era sempre retratada com comportamento de santa, boazinha e em seu devido lugar, ou então, como seu contraponto, a prostituta, Clarice nos presenteia com Joana, que desde criança já traz traços de uma força interior muito grande e de uma vontade que difere da natureza dessas mulheres. Achei esse livro realmente sensacional.

Queria agradecer a todos vocês que acompanharam a coluna por este ano, desejar um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de realizações!!! Muitos livros e boas leituras para todos!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
SERVIÇO
Blog: http://blogentreaspas.com
Instagram: @blog_entreaspas
Email: entreaspasb@gmail.com

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