Sempre um homem…

Eu me encolhi no ônibus. Eu olhei por cima do ombro na rua. Eu dei graças quando vi outra mulher no mesmo caminho. Tiveram que botar uma mulher na consulta do ginecologista, uma testemunha. Ai, não é bom deixar ele trocar a fralda da menina, sabe como é, né. Homem é homem.

Eu deixei de usar as roupas que eu gostava pra ir na academia porque o dono da mercearia da esquina me olhou diferente duas vezes. Eu não tiro a garrafa d’água de perto de mim. Você não é louca de bobear e deixar que coloquem alguma coisa na sua água! Você não é louca de pegar uber sozinha essa hora! Você não é louca de sair pra rua depois de escurecer! Você não é louca! Você é louca? Eu sou.
Eu fico louca.

Eu não consigo respirar com essas mãos no meu pescoço, você não entende que eu disse que não?! Eu sinto a dor, a vergonha. Me fazem ter vergonha, me perguntam o que eu vestia, se tinha bebido. Mas eu já tinha mandado fotos pra ele. Mas eu concordei em sair com ele. Eu casei com ele. Eu trabalho pra ele. Eu rezo com ele. Ele era meu tio. Meu pai. Por que não contou antes, então? Agora é moda, né.

Vergonha. Vergonha de ser considerada da mesma espécie que essa raça. Ódio, borbulhando de ódio todo dia. Depois me chamam de histérica, cospem a palavra feminista. Vai lavar um tanque de roupa que você ganha mais.

Do tanque mesmo eu ouço que aconteceu com a fulana, com a beltrana. Com a vizinha, com a menina da faculdade. A prima. A tia. A vó. A minha mãe. E a minha filha, meu Deus?! Não sabemos quem, mas sabemos que todas.
Medo. Não tem um dia que eu não sinta medo.

Todo mês eu sangro o único sangue que não vem da violência,  e mesmo assim é minha mente está adormecida de tanta pancada, entorpecida pela normalização, está amortecida de tanto medo.
Medo. Não tem um dia que eu não sinta medo.

Criemos o culposo, ele não teve a intenção.
Ele deu ela pros cachorros em pedaços. Ele tem um outro contrato assinado e selado com abraços.

Então eu sai e fiz meu corpo mais forte, então eu saí e fiz meu corpo mais capaz. Aprendi a defesa. Aprendi o ataque. Só  não aprendi a me defender anestesiada. Dopada. Ainda. (Mas ela estava mesmo inconsciente? Ela não queria?)

Não tive paz nem pra parir.
E você vê meu corpo, você vê minhas roupas, você me rotula e me julga indigna, impura, ímpia. A meretriz merece mesmo. Merece mais. A inumana, a descartável, depósito de esperma, não tem consequência. Não tem rosto, nem nome. Eu só presto se for sua mãe.

E ainda que o dedo que aponte seja todo manicurado com seu anel de brilhantes, é  porque ela aprendeu cedo que calar é mais seguro. Que seguir o fluxo é menos perigoso. Assim machuca menos.

Aceita que dói menos.
Relaxa e goza.
Você nem é bonita o suficiente pra eu te e$tupr4r.
Calma.

Não é todo homem. Mas é sempre um homem.

Por Desirée Gusson @desigusson
https://desigusson.wordpress.com/