Poema

“Se o objetivo do poema fosse o assombro, seu tempo não se mediria por séculos, mas por dias e por horas e talvez por minutos”.

. Jorge Luis Borges in O Aleph .

Quarto vazio

“Descobriu que não possuía bom-senso, que não estava armada de nenhum passado e de nenhum acontecimento que lhe servisse de começo, ela que nunca fora prática e sempre vivera improvisando sem um fim. Nada do que lhe sucedera até então e mesmo nenhum pensamento anterior comprometiam-na para um futuro, sua liberdade crescia a cada instante, pensativa, ar frio invadindo e varrendo um quarto vazio”.

. Clarice Lispector in O Lustre .

Resenha: Morte Súbita

Livro: Morte Súbita
Autora: J.K. Rowling
Editora: Rocco
Páginas: 501
Nota: 5
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Sim, ela é a escritora maravilhosa que criou HP e MUITO MAIS!
Eu tinha muito medo de ler esse livro e me decepcionar descobrindo que J.K. criou o mundo mágico e foi só. Tinha a impressão de que ela seria essa autora de uma obra e que qualquer tentativa fora daquele contexto não daria certo. Talvez por isso eu tenha demorado TANTO pra ler esse livro que me provou que eu estava muito, mas muito enganada.

Morte Súbita começou bem arrastado, confesso. Eu demorei bastante pra me empolgar com a história e os muitos personagens que foram aparecendo me deixavam confusa e com certa preguiça de tentar entender. Mas em alguma esquina ou vírgula a história me encontrou e toda a descrição dos personagens caleidoscópicos que a autora nos apresenta desde o primeiro capítulo faz todo sentido.

Morte Súbita conta muitas histórias dentro de uma história que se for levada em consideração sem olhar os muitos prismas apresentados em suas reentrâncias, pode ser considerada parada e sem muita emoção, mas pra mim, o grande quê da história são justamente as vidas e os problemas familiares que despontam diversas críticas sociais. Eu me vi sinceramente envolvida com vários personagens, em especial Krystal, Terri e Robbi.

A história gira em torno de um vilarejo chamado Pagford, e se inicia com a morte súbita de um membro do Conselho, Barry Fairbrother, que deixa sua cadeira vaga e um vilarejo em polvorosa com a notícia e suas repercussões. O que assistimos J.K. fazer, brilhantemente diga-se de passagem, é nos apresentar um personagem principal ausente que movimenta toda a trama! Aparentemente, é uma história que envolve mistério e disputa de poder pela cadeira no conselho e talvez muitos leitores que esperavam essa trama bem definida e a resolução dessa situação, acabam se decepcionando.

O que temos, e que pra mim é muito mais valoroso, é a vida como ela é. Personagens reais e palpáveis, que reagem às situações conforme suas próprias histórias e bagagens, complexas. O cenário de Morte Súbita é uma cidade pequena, pacata e os acontecimentos não tem como ocorrer de outra forma que não sendo construídos aos poucos pelas situações que vão surgindo e desvendando diversos pequenos conflitos e segredos. Eu adoro narrativas que mostram como as pessoas reagem em situações adversas e Morte Súbita é um prato cheio nesse quesito.

Além disso, em nenhum momento você consegue imaginar onde J.K. quer chegar com todas essas histórias e interações e isso também é maravilhoso e me manteve fascinada com a história. Falar mais que isso pode estragar a experiência literária de quem se aventurar por e este livro e acabar por descobrir que J.K. é ainda mais fantástica do que podíamos imaginar.

“Na sua opinião, o maior erro de noventa e nove por cento das pessoas é ter vergonha de serem quem são, é mentir a esse respeito, fingindo ser alguém diferente. A honestidade era a sua marca, a sua arma, a sua defesa. Quando somos honestos, as pessoas se assustam, ficam chocadas”.

Super recomendo a leitura!

Seu valor

“Ela roubaria de cada olhar seu valor para si mesma e bonito seria aquilo de que seu corpo tivesse sede e fome; ela tomara um partido”.

. Clarice Lispector in O Lustre .

Quem sou

“Contemplo meu rosto no espelho para saber quem sou”.

. Jorge Luis Borges in O Aleph .

Arrogante

“O ser humano é uma criatura arrogante demais pra quem não passa de um macaco gigante que sabe andar ereto”.

. Hiro Arikawa in Relatos de um Gato Viajante .

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: A Garota no Trem – Paula Hawkins

Há muito tempo um livro não me prendia tanto a leitura e isso me deixou muito feliz! Eu li o livro em praticamente um dia. Porque a primeira vez eu li até a página quarenta, na segunda vez que peguei o livro, eu terminei. Fui dormir duas horas da manhã porque era impossível parar a leitura, eu precisava continuar. 

“Nunca entendi como as pessoas podem negligenciar com tanta frieza os danos que causam ao seguir o que manda o coração. Quem foi que disse que fazer o que manda o coração é uma coisa boa? É puro egocentrismo, um egoísmo de querer ter tudo.”

A narrativa dessa autora é fantástica, embora eu não seja uma grande fã de livros escritos em primeira pessoa. Mas a forma como ela vai descrevendo os acontecimentos tanto reais, quanto os que se passam nas cabeças das personagens, é muito envolvente e apaixonante e foi isso que me prendeu a leitura. Isso e o fato de ser um romance mais adulto e psicológico e não tão adolescente. Quando ouvi falar do livro/filme, imaginei algo totalmente diferente do que li e depois assisti (sim, já corri assistir ao filme assim que terminei o livro). 

A história é narrada por três personagens, um recurso que gosto bastante pois deixa tudo mais envolvente e com gostinho de quero mais. Além de te dar três visões diferentes da mesma história, partindo das vivências de cada uma das personagens. Acho isso fantástico unido ao recurso da narrativa em primeira pessoa. Como disse no início, não sou fã, mas quando é bem feito, fica fantástico. 

“De vazio, eu entendo. Começo a achar que não há nada a se fazer para preenchê-lo. Foi o que percebi com as sessões de terapia: os buracos na sua vida são permanentes. É preciso crescer ao redor deles, como raízes de árvore ao redor do concreto; você se molda a partir das lacunas.”

O enredo gira em torno de uma mulher na faixa dos 35 anos, que pega todos os dias o trem até Londres para ir e voltar do trabalho. Ela é a garota no trem e se chama Rachel. Nessa trajetória de ida e volta, ela observa as casas que ficam próximas a linha do trem, e como é muito criativa, cria algumas histórias em sua cabeça para algumas das pessoas que sempre observa da janela. Entre essas casas, está a casa em que ela morava com o ex-marido, Tom. Eles se divorciaram e ele mora na casa com a atual esposa e recém-nascida filha. Rachel ainda não aceitou o divórcio e sofre muito com tudo que tem acontecido. Ela se tornou alcoólatra e sempre acaba fazendo algumas bobagens como ligar para o ex-marido ou ir até a casa dele. Eu me apaguei demais a essa personagem e senti muito as suas dores, é bastante triste a situação em que ela se encontra e é impossível não se envolver. 

“Mas acabei me tornando uma pessoa triste, e a tristeza cansa depois de um tempo, tanto para quem está triste como para todo mundo em volta.”

A segunda personagem é uma mulher que a Rachel observa do trem e cria em sua cabeça que vive um casamento maravilhoso com o marido. Ela dá a essa mulher o nome de Jess e ao seu marido de Jason e fica sempre os observando com um misto de felicidade e inveja pelo que tem e ela acredita ser o amor verdadeiro que todos sonham. A terceira personagem é a nova esposa de Tom, Anna. Ela vive um casamento perfeito, com a filha perfeita na casa perfeita que a Rachel montou. Confesso que tive ódio de Anna por muito tempo durante a leitura. 

Enfim, em um determinado momento do livro uma dessas personagens some e você não sabe se ela viajou, fugiu, foi assassinada, se matou, enfim… E principalmente você não sabe quem fez algo pra ela ou com ela para que ela tenha sumido dessa forma e a partir daí é impossível parar de ler e não querer descobrir o final. Que diga-se de passagem, foi um desfecho ótimo.

“E se aquilo que procuro não puder ser encontrado? E se simplesmente não for possível?”

Li algumas resenhas em que as pessoas não curtiram o final e eu consigo entender o motivo, mas pra mim isso não mudou em nada a riqueza da narrativa dessa história fantástica. Amei a narrativa, adorei a construção das personagens, mas gostei principalmente do que esse livro traz de reflexão sobre a vida, sobre acontecimentos que achamos tão terríveis e que as vezes são nossa libertação de algo pior, e ainda mais importante que isso, uma reflexão sobre a natureza humana e como as aparências enganam e as pessoas nem sempre são aquilo que imaginamos.

Recomendo demais a leitura!!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
SERVIÇO
Blog: http://blogentreaspas.com
Instagram: @blog_entreaspas
Email: entreaspasb@gmail.com

Atravessava o dia

“Esses eram momentos, em que ela sofria mas amava o seu sofrimento. Atravessava o dia, a necessidade de cumprir os pequenos deveres, a arrumação dos quartos, a espera, a realidade e as ruas”.

. Clarice Lispector in O Lustre .

Lá estava ela

“Não havia quem a salvasse ou a perdesse. E eis que os momentos se desenrolavam e morriam enquanto seu rosto quieto e mudo pairava à espera. Lá estava ela pois. Ainda ontem o prazer de rir fizera-a rir. E à sua frente se estendia todo o futuro”.

. Clarice Lispector in O Lustre .

A CASA DE ASTÉRION

“Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, e talvez de loucura. Tais acusações (que castigarei a seu devido tempo) são irrisórias. É verdade que não saio de minha casa, mas também é verdade que suas portas (cujo número é infinito*) estão abertas dia e noite aos homens e também aos animais. Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas feminis nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão. Assim, encontrará uma casa como não há outra na face da Terra. (Mentem os que declaram que no Egito existe uma parecida). Até meus detratores admitem que não há um só móvel na casa. Outra história ridícula é que eu, Astérion, sou um prisioneiro. Repetirei que não há uma porta fechada, acrescentarei que não há uma fechadura? Além disso, num entardecer pisei a rua; se antes da noite voltei, fiz isso pelo temor que me infundiram os rostos da plebe, rostos descoloridos e achatados, como a mão aberta. Já havia se posto o sol, mas o desvalido choro de uma criança e as toscas preces da grei disseram que me haviam reconhecido. O povo orava, fugia, prosternava-se; alguns trepavam no estilóbata do templo dos Machados, outros juntavam pedras. Algum, creio, ocultou-se sob o mar. Não em vão foi uma rainha minha mãe; não posso confundir-me com o vulgo, ainda que minha modéstia o queira”.

. Jorge Luis Borges in O Aleph .