Presunção

“Nós éramos empregadas e fazendeiros, quebra-galhos e lavadeiras, e qualquer coisa maior que aspirássemos ser era uma farsa e presunção”.

. Maya Angelou in Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola .

Labirinto Infinito

Uma história não tem princípio nem fim, só portas de entrada.
Uma história é um labirinto infinito de palavras, imagens e espíritos em conluio para nos revelar a verdade invisível sobre nós mesmos. Uma história é, em definitivo, uma conversa entre quem narra e quem escuta, e um narrador só pode contar até onde vai a sua perícia, e um leitor só pode ler até onde está escrito em sua alma.
Essa é a regra fundamental que sustenta qualquer artifício de papel e tinta, porque, quando as luzes se apagam, a música se cala e as poltronas da plateia ficam vazias, a única coisa que importa é a miragem que ficou gravada no teatro da imaginação que todo leitor tem em sua mente. Isso e a esperança que todo contador de histórias carrega dentro de si: de que o leitor tem aberto o coração para alguma de suas criaturas de papel, emprestado a ela algo de si para torná-la imortal, nem que tenha sido por alguns minutos.
E dito isso, provavelmente com mais solenidade do que a ocasião merece, convém aterrissar o pé na página e pedir ao amigo leitor que nos acompanhe na conclusão dessa história e nos ajude a encontrar o que é mais difícil para um pobre narrador preso em seu próprio labirinto: a porta de saída.

Prelúdio de O Labirinto dos Espíritos
(O Cemitério dos Livros Esquecidos, volume IV) de Júlian Carax.
Éditions de la Lumière, Paris, 1992.
Edição a cargo de Émile de Rosiers Castellaine.

Refúgio

“Mas tenho que admitir que os livros são minha fraqueza e o meu refúgio do mundo”.

. Carlos Ruiz Zafón in O Labirinto dos Espíritos .

Filhos

“Não dá pra ter filhos num mundo assim. Não dá pra perpetuar o sofrimento, multiplicar essa raça de feras devassas, desprovidas de emoções duradouras, reféns do capricho e da vaidade que as compõe e as conduzem ora para um lado, ora para o outro”.

. Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway .

Sem motivo

“(…) ainda sofria mudanças de humor; dias bons e dias ruins sem muito motivo”.

. Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway .

COLUNA “Entre Aspas”

Jornal Tribuna Liberal de Sumaré pag. 12

Dica de Leitura: Criança 44 – Tom Rob Smith

Emocionante!

Logo que esse livro foi lançado eu soube que iria gostar dele. A capa, o título, o tema. Era o primeiro livro do autor Tom Rob Smith e que estréia maravilhosa no mundo da literatura. Adorei a narrativa do autor e achei fascinante a maneira como ele foi levando a história de forma que de uma hora pra outra você se vê tão envolvido com os personagens que passa a sentir suas dores, suas dificuldades e seus desesperos, apesar de todo o contexto hediondo.

A História se passa na União Soviética de 1953, quando a mão de ferro de Stalin esteve mais impiedosa, apoiada pela polícia secreta do Estado que mantinha o regime com crueldade e brutalidade que as palavras de Smith nos fizeram sentir na pele. Nesse contexto, o corpo de um menino é encontrado sobre os trilhos de uma ferrrovia. O agente Liev Demidov, encarregado de forçar a família a acreditar que foi um acidente, se comove e começa a suspeitar que há algo de errado. Então se desenrolam duas histórias: a particular de Liev e sua esposa que, particularmente eu achei fantástica pelo drama envolvido, e a busca incessante do agente pela verdade por trás do terrível crime.

Smith narra de forma fantástica a sociedade soviética da época, oprimida, devastada, passando fome e sendo agredida física e psicologicamente por um sistema sem compaixão e piedade. É assustador. Assim como é assustador você se pegar apaixonada pelo personagem magnífico e extremamente bem trabalho que é Liev, considerando que ele é um soldado soviético, idealista e que acredita fielmente no Estado a ponto de não questionar ordens e perseguir, torturar e até matar se fosse preciso.

Enquanto o Estado tenta manter uma fachada de sociedade feliz e igualitária, onde crimes brutais como o do menino nos trilhos jamais poderia acontecer, Liev começa a se questionar e Smith nos apresenta a relação dele com Raíssa, sua esposa. É fascinante como o autor consegue fazer com que o mundo pessoal de Liev e Raíssa reflitam o contexto histórico da época. Até certo ponto do livro a relação é fria e superficial, tanto que você nem mesmo acredita que algo sairá dali. No entanto, com uma citação apaixonada de Liev, o casal se torna tão envolvente que no momento em que Liev tem de decidir entre entregar sua esposa por lealdade ao Estado ou ir preso, deixando seus pais sem casa e alento, você vive com ele esse momento desesperador.

“Lembra quando nos conhecemos? Você achou que eu era grosseiro de ficar lhe encarando. Saltei na estação de metrô errada só pra perguntar o seu nome. E você não quis me dizer. Mas não fui embora sem saber. Então, você mentiu que se chamava Lena. Passei uma semana inteira só falando naquela mulher linda chamada Lena. Falei para todo mundo, Lena é muito bonita. Quando finalmente encontrei você de novo e convenci-a a andar comigo, chamei-a de Lena o tempo todo. No final do passeio, estava pronto para beijá-la e você para me dizer seu verdadeiro nome. No dia seguinte, eu disse para todo mundo como Raíssa era linda e todos riram de mim dizendo que na semana anterior era Lena, naquela era Raíssa e na próxima seria outra. Mas nunca foi. Foi sempre você”.

A busca de Liev pela verdade, suas suspeitas e crescente desconfiança no Estado só torna tudo ainda mais cativante e surpreendente e nos encaminha para um final brilhante e extremamente criativo.

Leitura recomendadíssima!!

Vou ficar muito feliz se me escreverem contando o que acharam da leitura!! E se por acaso quiserem alguma leitura específica, podem me pedir pelo email!! Boa semana e ótimas leituras!!

EVELYN RUANI
Bibliotecária e leitora compulsiva! Apaixonada por livros e palavras.
SERVIÇO
Blog: http://blogentreaspas.com
Instagram: @blog_entreaspas
Email: entreaspasb@gmail.com

Resenha: Mrs. Dalloway

Livro: Mrs. Dalloway
Autora: Virgínia Woolf
Editora: Antofágica
Páginas: 400
Nota: 5 ❤
(1.Não gostei 2.Gostei pouco; 3.Gostei;
 4.Gostei bastante; 5.Adorei)

Lindo!
Eu estou me apaixonando por Virgínia Woolf. A autora segue um estilo de escrita, familiar a mim por conta da paixão por Clarice Lispector, conhecido como fluxo de consciência, que é uma técnica literária em que se procura transcrever o complexo processo de pensamentos do personagem, mesclando o raciocínio lógico e as impressões pessoais momentâneas e captando os processos de associação de ideias. É preciso desacostumar da estrutura narrativa de começo, meio e fim e adentrar num universo mais árido, talvez, porém extremamente rico em reflexões e auto conhecimento. E eu adoro esse tipo de narrativa.

Mrs. Dalloway nos apresenta Clarissa Dalloway e narra um dia inteiro em sua vida. Isso mesmo, as quatrocentas páginas do livro contam a história de um único dia na vida de Clarissa, desde a manhã quando decide, ela mesma, ir comprar as flores para a festa que dará a noite, até o momento da tão esperada festa. E isso foi o que achei mais fantástico nesse livro. Pode parecer fútil a princípio, mas já nos primeiros passos da caminhada de Clarissa até a floricultura você percebe que não será apenas um dia comum. Acontece tanta vida dentro de um único dia, são tantos acontecimentos, pensamentos, reflexões, pessoas que vem e vão se cruzando pelas ruas de Londres que percorremos ao lado de Clarissa, sem sequer imaginar conhecer umas às outras e no entanto parecendo estar ligadas de alguma forma.

Nessa caminhada, conhecemos alguns personagens e seus pensamentos. Dentre eles Septmus Smith, um veterano da primeira guerra mundial que sofre com problemas psicológicos causados pela perda de um grande amigo e nos deparamos com uma mente conturbada, com pensamentos suicidas e alucinações. Ao seu lado sua esposa tenta, em vão, ajudá-lo, mas ele sente-se incompreendido e solitário em sua dor. Aos poucos percebemos que a narrativa do livro está dividida entre esses dois personagens principais: Clarissa e Septimus e que apesar de nunca se encontrarem ou nunca terem se conhecido, tem uma espécie de ligação, como os dois lados de uma moeda.

Outros personagens importantes também são apresentados nesse dia como Peter Walsh e Sally Seton, amigos da juventude e que são parte de suas memórias mais felizes, e até mesmo Richard, marido de Clarissa e sua filha Elizabeth. Vamos conhecendo um pouco de cada um desses personagens ao longo do dia e das memórias da protagonista e dos próprios personagens, nos presenteando com diversas visões de um mesmo momento/situação.

O livro traz poucos diálogos e é muito reflexivo, levantando questões e críticas sobre a condição e as relações humanas, o amor (todo tipo de amor), o papel da mulher, o tratamento de doenças psicológicas/psiquiátricas, traumas pós-guerra, além de retratar uma Londres do século XX, nos ambientando na cidade e construindo um retrato da sociedade da época. Afora tudo isso, essa edição da Antofágica tem como coordenadora editorial a Bárbata Pince (sou fã), traz apresentação da Mell Ferraz do Blog Literature-se (tb sou fã rs) e ilustrações lindíssimas da Sabrina Gevaerdy (que virei fã rs) que auxiliam na compreensão do texto e deixam a leitura ainda mais linda!

Para finalizar ressalto a beleza da narrativa de Virgínia e sua extrema importância na literatura. Com toda certeza, recomendo muitíssimo a leitura!

Mortos

“Nós todos deveríamos estar mortos”.

. Maya Angelou in Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola .

Mundo próprio

“Dona daquele dom extraordinário, aquele dom de mulher, de criar um mundo próprio onde quer que fosse”.

. Virgínia Woolf in Mrs. Dalloway .

Instante

“Você não percebe o vazio em que deixou o tempo passar até o momento em que vive de verdade. As vezes a vida é apenas um instante, um dia, uma semana ou um mês, não os dias desperdiçados. Você sabe que está vivo porque dói, porque de repente tudo é importante e porque, quando esse breve momento se acaba, o resto da sua existência se transforma em uma lembrança a qual você tenta em vão voltar enquanto tiver alento no corpo”.

. Carlos Ruiz Zafón in O Labirinto dos Espíritos .