Luz e escuridão (Reescrito)

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“Verifico que, tantas vezes alegre,
tantas vezes contente, estou sempre triste”
Fernando Pessoa

Ela tenta, já sabendo que vai falhar, esquecê-lo enquanto colhe as flores para levar à mesa da casa de sua mãe. Não quer amá-lo, nem desejar sua escuridão e seu sorriso sombrio, mas sempre que é primavera e os dias claros invadem as janelas do imenso castelo em que vive com sua mãe nessa época do ano, a falta que sente dele é um sem nome de sentimentos que não consegue explicar.

Os passos lentos entre as flores do campo é um retrato imperfeito da letargia em que sua alma se encontra quando está sob o sol e o ar impregnado de aromas doces preenche os pulmões e o peito de esperança e uma alegria que poderia ser completa, mas desde que o conhecera não era mais. Até mesmo no interior do castelo a luz se faz intensamente presente em todos os cômodos. Não havia sequer um canto de sombra, um ponto de escuridão que pudesse, de alguma forma, amenizar a saudade.

Sorri ao chegar à mesa com as flores colhidas, como tem que ser ao estar ali. Ouve as palavras de carinho de sua amada mãe e se sente confortada, quase feliz. As conversas, as horas, os sorrisos, os carinhos, as tarefas diárias naquela época do ano eram ótimas, não poderia reclamar, mas sempre falta alguma coisa. E o sorriso se desmancha quando está sozinha, a luz do olhar se apaga um pouco tentando relembrar, voltar ao lado sombrio em que ele estará presente.

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Resenha: Tartarugas até lá embaixo!

Livro: Tartarugas até lá embaixo.
Autor(a): John Green
Editora:
Intrínseca
Páginas: 266

Nota: 4
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Um pouco triste, um TUDO de vida real.
Terminei esse livro extremamente emocionada. Sei que John Green é visto por muitos como escritor de historinhas de adolescente e, no fim, é mesmo isso que ele é, mas eu não vejo isso como negativo. Eu também tenho um pouco de preguiça de alguns romances adolescentes muito bobinhos, mas definitivamente não é o que acontece com John Green. Ele sempre traz algum assunto bem profundo junto com a adolescência e nos envolve de alguma forma, nos fazendo refletir muito sobre as dores e problemas do outro. John Green escreve sobre empatia. E precisamos MUITO disso hoje em dia.

Neste livro, o assunto é transtorno de ansiedade e TOC. É uma enorme angústia mergulhar junto com Aza Holmes, nossa protagonista, em suas espirais de pensamentos que vão ficando cada vez mais fortes e acabam levando-a a acreditar em certas coisas num grau muito elevado, excluindo-a do convívio com as pessoas, afastando-a dos mais queridos e deixando-a completamente atordoada em situações que para qualquer outra pessoa seriam coisas simples, que sequer chegariam a pensar sobre. E, se você já passou por algum tipo de dor emocional, mesmo que em graus mais amenos, vai ser impossível não se reconhecer em algumas dessas situações.

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Convenções…

“_Silêncio! Algo muito sutil me passa pela cabeça. Que é o tempo, afinal? – perguntou Hans Castorp […] – Você pode me dizer? Percebemos o espaço com os nossos sentidos, por meio da vista e do tato. Muito bem! Mas que órgão possuímos para perceber o tempo? Você pode me responder? Aí você empaca, está vendo? Como é possível medir uma coisa da qual, no fundo, nada sabemos, nada, nem uma de suas características sequer? Dizemos que o tempo passa. Está bem, que passe. Mas para que pudéssemos  medi-lo… Espero um pouco! Para que o tempo fosse mensurável, seria preciso que decorresse de um modo uniforme; e onde está escrito que é mesmo assim? Para a nossa consciência, não é. Somente o supomos, para a boa ordem das coisas, e nossas medidas, permita-me essa observação, não passam de convenções…”.

. Thomas Mann in A Montanha Mágica .

Resenha: A Via Crucis do Corpo

Livro: A Via Crucis do Corpo
Autor(a): Clarice Lispector
Editora:
Rocco
Páginas: 84

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

Clarice é Clarice…
… Mas esse livro foi diferente de todos os livros dela que já li, porque foi um livro como ela mesmo chamou no conto Explicação de “encomendado”. E ela estava se sentindo um tanto mal com isso. Nesse conto explicação ela diz que avisou ao editor que não escrevia por encomenda e nem por dinheiro e sim por impulso, mas que enquanto a ligação corria, ela já começava a imaginar as histórias. Mas que tinha vergonha do que escreveu e que queria lançar com pseudônimo, mas que o editor não deixou porque ela deveria ter liberdade de escrever o que quisesse. O que fica claro na explicação e em quase todos os contos do livro que são 14, é que ela não estava confortável, mas as histórias vieram!! São, como tudo que Clarice escreve, profundas, um pouco tristes, totalmente VIDA nossa de cada dia e que nos fazem refletir. Amo Clarice porque ela nos faz mergulhar no que não queremos encarar, mas precisamos!!

Algumas citações que destaquei da leitura:

“Que podia fazer? senão ser a vítima de mim mesma.”

“Se contasse, não acreditariam porque não acreditavam na realidade.”

“Porque é dever da gente viver. E viver pode ser bom. Acredite.”

“Às vezes me dá enjoo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta.”

Todos os contos são sobre sexualidade, algo que ela escreve com naturalidade, mas com pudor. É perceptível o desconforto em alguns momentos e ela inclusive pede desculpas às vezes por certos detalhes cruéis, segundo ela. Pede desculpas não a nós leitores, mas aos personagens por “ter que escrever isso”!!

Clarice sempre se utiliza dessas conversas em seus livros, com ela mesma, com o leitor, com os personagens, com Deus. E esse pra mim é o charme de sua literatura tão forte, que traz e aproxima a autora de nos, que mostra suas fraquezas, seus desconfortos, suas inseguranças e faz dela gente como a gente em situações que já vivemos ou ainda viremos a viver!!

Recomendo a leitura!!

Objeto mais PERFEITO

“O LIVRO, eu acho, o objeto mais perfeito que o ser humano criou”.

. Ziraldo .

Da entrevista feita para uma campanha do Itaú Social para o incentivo à leitura:

A MULHER por Clarice Lispector

Mestra dos detalhes, a autora é uma das mais replicadas na rede. Entenda por que as frases de Clarice se tornaram fenômeno pop!

Clarice Lispector (1920-1977). Principais obras: A Hora da Estrela (1977) e A Paixão segundo G.H. (1964). Modernismo

Clarice Lispector (1920-1977).

“Eu era uma mulher casada. Agora sou uma mulher.”

Essa única frase resume a essência do conto “A Fuga”, de Clarice Lispector, no qual uma mulher sai de casa e, ao passar algumas horas sozinha numa praça, decide se separar do marido. Essa capacidade de fazer em poucas palavras sínteses de situações humanas complexas se tornou um prato cheio para internautas.

Os sites de mensagens inspiradoras e as redes sociais espalham e compartilham dezenas de frases atribuídas à escritora, geralmente acompanhadas de fotos e músicas românticas. Nem sempre, no entanto, as frases foram de fato retiradas dos livros, das entrevistas ou das colunas femininas que Clarice escrevia para jornais, nos quais assinava com pseudônimos, como Tereza Quadros e Helen Palmer.

Apesar de nem tudo que a gente recebe nas nossas caixas de email ou nos feeds de redes sociais ter sido de fato assinado por ela, Clarice Lispector é um sucesso nas redes. Sua fanpage no Facebook, por exemplo, tem mais de 160 mil seguidores! (Só para dar uma ideia, a do cantor Roberto Carlos tem cerca de 16 mil)

“As pessoas gostam de máximas e Clarice tinha mesmo essas frases sentenciosas. ‘ A descoberta do mundo’ é cheio delas ”, diz Yudith Rosembaum, professora de literatura brasileira na Universidade de São Paulo e autora, entre outros, do perfil “ Metamorfoses do Mal – uma leitura de Clarice Lispector ” (Edusp).

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